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Mata Atlântica de Serra Grande: uma floresta com ares do passado


Áreas que somam 9,2 mil hectares de mata nativa são preservadas pela Usina Serra Grande, em Alagoas 

Repare bem nos trechos isolados de mata atlântica que aparecem na primeira foto da galeria de imagens desta reportagem. O Brasil era exatamente assim, antes da chegada dos primeiros europeus. Com uma diferença fundamental. A floresta era contínua, ocupava uma área equivalente a 1.315.400 quilômetros quadrados e se estendia por 17 Estados. 

Os fragmentos de mata que você observou ficam no município de São José da Laje, em Alagoas, a um pulo de Pernambuco. Não tem o mesmo tamanho do passado, mas preserva pedaços de floresta original com árvores que nunca foram cortadas. O interessante é que esse tesouro pertence a uma usina de açúcar. E cana, todo mundo sabe, é uma das principais responsáveis pela devastação da mata atlântica. 

Em todo o País, os remanescentes da vegetação nativa não passam de 22% do que a vista alcançava 500 anos atrás. Só 7% estão conservados em fragmentos com mais de 100 hectares. É aí que se encaixa a Usina Serra Grande, proprietária dos trechos de floresta que apresentamos agora. Se você já olhou a galeria de fotos, notou que as áreas de mata são separadas por um plantio diferente. Tudo aquilo é cana-de-açúcar. A Usina Serra Grande, uma das mais antigas de Alagoas, com 120 anos de fundação, concilia atividade agrícola com conservação da diversidade biológica, atesta Marcelo Tabarelli, ecólogo e professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). 

Por dez anos, de 2000 a 2010, ele fez da mata atlântica de Serra Grande um laboratório de pesquisa para saber o que acontece com a diversidade biológica no meio onde há ação humana. A empresa preserva 9,2 mil hectares de mata nativa e cuida de 630 hectares de terras que reflorestou com espécies nativas e exóticas. A cobertura de mata atlântica corresponde a 30% dos 31 mil hectares ocupados pela usina, diz o agrônomo Cauby Figueiredo Filho, responsável pela área ambiental do grupo. 

“Serra Grande reúne mais de cem pedaços de mata entrecortados por cana. É um conjunto de ilhas formando um arquipélago de remanescentes florestais”, descreve Marcelo Tabarelli. “Encontramos grandes trechos, como a Mata de Coimbra, com 3,5 mil hectares de vegetação bem preservada. É uma pérola pela quantidade de florestas”, afirma.  

Sem medo de cometer equívocos, o professor aponta a área da Usina Serra Grande como a mais rica dentro do que resta da mata atlântica ao Norte do Rio São Francisco. O grupo de ecologia que ele coordenou identificou mais de mil espécies de plantas, mais de 250 espécies de aves, além de anfíbios, borboletas e mamíferos. “Alguns são endêmicos (ocorrem exclusivamente ali) e ameaçados de extinção.”  

Esse tronco exuberante da última fotografia da galeria de imagens, por exemplo, você não verá em qualquer esquina. “É uma Lecythis pisonis (Lecythidaceae), popularmente conhecida como sapucaia. Tem uns 40 metros de altura e alguns séculos de idade. Nós a chamávamos de pai-da-mata, porque era a maior árvore que conhecíamos em Serra Grande”, informa a bióloga Inara Leal, pesquisadora do Departamento de Botânica da UFPE. 

“É um patrimônio biológico inestimável, com lugares que lembram como era a floresta atlântica no passado” diz o ecólogo Marcelo Tabarelli sobre Serra Grande. 

O dono dessa plumagem vermelha intensa, em outra foto da galeria, é o tiê-sangue (Ramphocelus bresilius), chamativo habitante da mata. E o pássaro de roupa verde pintada com tons alaranjados e azuis no pescoço, é a saíra-militar, que também atende por verdelim (Tangara cyanocephala corallina), ave rara encontrada em Serra Grande, assim como a ariramba ou fura-barreira ou bico-de-agulha (veja na foto o biquinho afiado dela), batizada pela ciência deGalbula ruficauda

Veado, cotia, capivara, macaco-galego (vive apenas lá e em nenhum outro lugar do mundo), abelha, ingá, salgueiro, ipê-amarelo, peroba e uma infinidade de espécies de animais e de plantas vivem em Serra Grande. “É um patrimônio biológico inestimável, com lugares que lembram como era a floresta atlântica no passado”, diz Marcelo Tabarelli. 

Os pedaços de mata da usina fazem parte do Centro de Endemismo Pernambuco, trecho único de floresta atlântica nos Estados nordestinos de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Publicadas de início em revistas nacionais e estrangeiras, as pesquisas realizadas nas terras da usina foram transformadas no livro Serra Grande: Uma floresta de ideias, lançado em 2014 e organizado por Marcelo Tabarelli, Antônio Venceslau Aguiar, Inara Leal e Ariadna Lopes. 

A mata protege os mananciais da usina e, claro, a produção de água. “Temos segurança e vigilância para impedir o corte de árvores e a caça. A empresa tem consciência ambiental, todo mundo aqui é um fiscal da mata”, completa Cauby Figueiredo Filho. “Serra Grande mantém 18,5% da mata atlântica da zona canavieira de Alagoas, um Estado com cerca de 20 usinas”, destaca o agrônomo. Aviso aos interessados: o grupo não faz ecoturismo. Serra Grande é aberta a pesquisas científicas e ajuda a preservar um dos biomas mais ameaçados do planeta.