O setor sucroenergético brasileiro, hoje mais corretamente denominado setor de açúcar e bioenergia, volta a enfrentar um momento de crise. Como em outros ciclos históricos, não se trata de um evento isolado, mas da convergência de fatores econômicos, produtivos, regulatórios e tecnológicos que pressionam simultaneamente custos, preços e margens. A diferença, desta vez, é que o setor chega a esse cenário após um período recente de forte recuperação financeira, investimentos relevantes e ampliação de capacidade produtiva, o que torna o ajuste mais complexo e, ao mesmo tempo, mais urgente.
Nos últimos anos, os preços internacionais do açúcar atingiram patamares elevados, impulsionando resultados robustos, redução de endividamento, remuneração ao acionista e retomada de investimentos. Paralelamente, o etanol se beneficiou de um ambiente de petróleo valorizado, câmbio favorável e preços elevados da gasolina no pós-pandemia, sustentando margens mesmo diante de um processo inflacionário relevante nos custos de produção.
Esse processo inflacionário, no entanto, deixou marcas profundas. Insumos dolarizados, como fertilizantes e defensivos, tiveram aumentos expressivos, assim como custos internos relacionados à mão de obra, máquinas e equipamentos. Atualmente, o custo de implantação de um hectare de cana-de-açúcar varia entre R$ 13 mil e R$ 18 mil, um patamar extremamente elevado para uma cultura de ciclo longo, cujo retorno é diluído ao longo dos cortes.
Esse novo nível de custo redefine as decisões de investimento e a gestão agrícola do setor. Ao mesmo tempo, ocorreu uma transformação estrutural com a consolidação do etanol de milho. Embora não seja uma novidade, essa indústria ganhou escala nos últimos anos e já responde por cerca de 30% da produção nacional de etanol, com perspectiva de crescimento adicional.
Esse movimento contribuiu para a manutenção da oferta do biocombustível mesmo em períodos de maior direcionamento do mix da cana para o açúcar, alterando de forma estrutural o equilíbrio entre oferta e demanda.
Chegamos, assim, a 2026 em um cenário desafiador. Os preços internacionais do açúcar retornaram a níveis deprimidos, reflexo clássico dos ciclos das commodities: preços elevados estimulam aumento de capacidade produtiva, resultando em excesso de oferta e posterior queda de preços. Paralelamente, observa-se uma desaceleração do crescimento da demanda global. Se antes se falava em taxas próximas de 2% ao ano, hoje as projeções giram em torno de 0,5%, com incertezas adicionais relacionadas a mudanças nos hábitos alimentares, à disseminação de medicamentos que reduzem a ingestão calórica e à popularização de dietas de baixo consumo de carboidratos.
No mercado de etanol, a pressão também é evidente. A combinação de maior oferta, tanto da cana quanto do milho, com reduções no preço da gasolina, influenciadas pela queda do petróleo, limita a sustentação de preços. Além disso, a abertura de mercados internacionais para o etanol brasileiro, embora promissora, ainda não ocorreu na velocidade necessária para absorver o excedente doméstico.
A esse quadro soma-se um fator macroeconômico crítico: o elevado nível da taxa de juros no Brasil. Juros altos penalizam fortemente um setor intensivo em capital. Empresas mais alavancadas passam a operar prioritariamente para honrar despesas financeiras, reduzindo sua capacidade de investimento e aumentando o risco de deterioração operacional.
Mais recentemente, o debate sobre o fim da jornada de trabalho no regime 6x1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, ou até 36 horas, adicionou uma nova camada de risco. O setor canavieiro é um dos maiores empregadores do País, especialmente em municípios pequenos e médios, e opera, durante a safra, em regime contínuo, 24 horas por dia. Alterações abruptas nas regras de jornada, sem ganhos equivalentes de produtividade, tendem a elevar significativamente os custos operacionais, pressionando ainda mais um setor já fragilizado. Trata-se de um debate legítimo, mas que precisa considerar as especificidades produtivas e sociais do setor, sob pena de gerar desemprego, perda de competitividade e fechamento de unidades.
O diagnóstico, portanto, é claro: trata-se de uma crise de margens, resultante da combinação de preços baixos, custos elevados e elevada incerteza regulatória e macroeconômica. Diante desse cenário, a agenda de soluções deve ser pragmática e estruturada em três eixos: demanda, produtividade e estratégia setorial. No campo da demanda, é fundamental ampliar o consumo de etanol sem recorrer exclusivamente à redução de preços.
No mercado interno, isso passa pela ampliação da mistura de etanol anidro na gasolina, atualmente em 30%, com potencial legal para atingir 35%, pela maior penetração do etanol em regiões onde sua participação ainda é limitada e por estratégias de comunicação mais eficientes. No mercado externo, o desafio é geopolítico e institucional: inserir o etanol brasileiro nas políticas de descarbonização e blends de outros países, além de acelerar sua inserção em outros modais de transporte, como o marítimo e o aéreo, com base em critérios robustos de sustentabilidade e rastreabilidade.
No mercado de açúcar, o Brasil, como maior produtor e exportador mundial, tem papel central no reequilíbrio global. Reduzir a produção de açúcar de forma consistente não é sinal de fragilidade, mas de liderança responsável. A flexibilidade de mix da cana-de-açúcar é uma vantagem estratégica que deve ser utilizada de forma coordenada.
No eixo da produtividade, o foco precisa deixar de ser o aumento pontual da produção e se concentrar na redução do custo por tonelada ao longo do ciclo da cultura. Isso implica repensar sistemas de plantio, aumentar a vida útil dos canaviais, reduzir a queda de produtividade ao longo dos cortes e utilizar tecnologias como agricultura de precisão, inteligência artificial e manejo climático como ferramentas permanentes de decisão.
Cada corte adicional economicamente viável representa uma diluição relevante do custo de implantação e maior resiliência financeira. A crise existe. O desafio agora é transformá-la em um catalisador de ajustes estruturais que garantam competitividade, sustentabilidade e relevância ao setor de açúcar e bioenergia no longo prazo.