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Hugo Cagno Filho

Presidente UDOP - União Nacional da Bioenergia

OpAA87

A resiliência que move o Brasil há cinco séculos
Chegamos a 2026. O Brasil inicia um novo ciclo, cercado por incertezas globais, transformações tecnológicas, mudanças climáticas cada vez mais intensas, cenário geopolítico instável, economia em xeque com uma taxa de juros elevada, apagão de mão de obra, discussões sobre turnos de trabalho e crescente assistencialismo, dentre tantos outros desafios.
 
Em meio a tudo isso, o sistema sucroenergético brasileiro segue de pé — firme, produtivo e confiante, mas igualmente desafiado em seu limite. Há mais de cinco séculos, o setor enfrenta crises de toda ordem: econômicas, políticas, ambientais e, algumas vezes, até morais. Mas, em cada uma delas, o resultado foi o mesmo — saímos mais fortes, mais modernos e mais relevantes para o País.

Falar em resiliência é reconhecer a nossa capacidade histórica de sobreviver e evoluir. Falar em competência é compreender que não se trata apenas de resistência, mas de inteligência coletiva, técnica apurada e visão de futuro. 

Ao longo de nossa trajetória, o setor da cana-de-açúcar foi muito além do engenho colonial. Tornou-se um sistema bioenergético robusto, diversificado e estratégico, que alia agricultura de precisão, biotecnologia e inovação industrial de ponta.

Há pouco tempo, fora o açúcar, produzíamos apenas o álcool — hoje, etanol. E mesmo assim, em tempos desafiadores, chegamos a vendê-lo por preços inferiores ao custo de produção. Vivemos períodos, desde o lançamento do Proálcool, em que quase enterramos nossa galinha dos ovos de ouro. Mas sobrevivemos.

Em outros momentos, vimos o bagaço valer mais do que a cana em pé — surreal! Ainda assim, cada adversidade foi superada com criatividade e espírito empreendedor. A cada novo obstáculo, o setor respondia com soluções próprias, reinventando-se em tecnologia, produtividade e sustentabilidade.

De fato, não foi o Estado nem o mercado que salvaram o sistema sucroenergético — fomos nós mesmos. Com a força de nossos trabalhadores, o conhecimento de nossos técnicos e a coragem de nossos líderes, atravessamos os períodos mais turbulentos sem perder o rumo. 

Transformamos as usinas em polos tecnológicos, as lavouras em laboratórios vivos e os subprodutos em novas fontes de energia e receita. E aqui peço vênia para abrir um parêntese importante nessa narrativa. Entidades como a UDOP, a qual tenho a honra de presidir, foram de crucial importância para nossa sobrevivência. Desde a década de 1980, criamos fóruns para discutir soluções tecnológicas, aprimorar sistemas de produção e amplificar as boas práticas de nossas associadas — sempre com o espírito do compartilhamento e foco em conexões seguras e benéficas a toda a cadeia.

Com foco no ser humano, enquanto muitos discutiam se o açúcar e o etanol vinham do campo ou das usinas, nós já sabíamos: eles vêm das mentes e mãos habilidosas de um exército de trabalhadores que ajudaram a moldar o atual estágio de evolução de nossas empresas.

Graças a essa visão — e a muito trabalho —, hoje podemos afirmar com orgulho que, de um simples engenho, o setor se tornou um sistema energético completo e integrado, exemplo para muitos países do globo.

Se antes tínhamos o carro a álcool, agora temos o avião e o navio movidos a etanol. E não é exagero dizer que o biocombustível brasileiro é um dos pilares da transição energética global. O etanol, o biogás, o biometano e a bioeletricidade projetam o Brasil como líder mundial de uma matriz mais limpa, segura e sustentável.

E o que podemos esperar para a safra 2026/2027? O desafio, agora, não é apenas sobreviver. É liderar. É ocupar o espaço que conquistamos com tanto esforço e mostrar que somos, sim, o setor que pode ancorar a transição energética do planeta. 

Para isso, precisamos continuar investindo em ciência, capacitação e políticas públicas que valorizem a bioenergia nacional. Precisamos de estabilidade regulatória, estímulo à inovação e de um ambiente econômico que reconheça o papel estratégico do setor na descarbonização da economia.

Tenho defendido há anos que vivemos uma gangorra desafiadora, sempre colapsando no teto das 600 milhões de toneladas de cana-de-açúcar colhidas e processadas no Centro-Sul do Brasil.

Basta observarmos nossos números dos últimos anos. Alguns chamam até de “a maldição das 600 milhões de toneladas”. Parece que toda vez que atingimos essa marca, nos vemos em crise e recuamos à centena anterior, levando de dois a três anos para nos recuperarmos — e, igualmente, rompermos a marca para depois voltar a cair.

Essa constatação nos traz uma lição clara e desafiadora: quando conseguiremos, de fato, melhorar a produtividade de nossos canaviais, há décadas estagnada?

O fator novo dessa equação é a “concorrência” do etanol de milho, que trouxe estabilidade à produção do biocombustível, mas também desafios significativos, especialmente diante de uma demanda ainda aquém de nossa oferta. É imperativo unirmos forças — cana e milho — para alavancar o consumo de etanol tanto dentro quanto fora do Brasil. Só assim poderemos garantir nossa sustentabilidade diante desse cenário desafiador.
 
A frota flex do Brasil do ciclo Otto ainda apresenta consumo de etanol retraído em muitos estados. Hoje, sete estados brasileiros são responsáveis por 80% do consumo nacional. Mas, e os outros 19 estados e o Distrito Federal? Onde estamos errando ao não os incentivar a consumir nosso etanol?

Esses 19 estados, segundo levantamento da SCA Brasil, representam 41% da frota de veículos leves do País. Potencial de expansão temos de sobra. Falta, agora, criarmos mecanismos e políticas que estimulem esse consumo. 

Outro desafio importante recai sobre a abertura de mercado internacional para a mistura de etanol na gasolina. Esse avanço esbarra, no entanto, na crescente predileção de muitas nações pelos motores elétricos em substituição aos motores a combustão. Mas há espaço para ambos.

Além disso, precisamos conquistar mercados promissores no médio prazo, como o biobunker (motores de navios a etanol) e o SAF (combustível sustentável de aviação). Sozinhos, esses segmentos poderiam consumir quase toda a produção mundial atual de biocombustíveis.

Com todos esses desafios de mercado, enfrentamos ainda um problema sério: o apagão de mão de obra qualificada — um desafio urgente para o setor. E, nesse ponto, volto a destacar o papel da UDOP como entidade referência em capacitação profissional. A velocidade das transformações tecnológicas exige novas competências, e é por isso que iniciativas como o Projeto Qualifica, desenvolvido em parceria entre a UDOP e o Senai, são tão importantes. Formar pessoas é garantir o futuro da bioenergia. Sem gente preparada, não há revolução verde possível.
 
Do campo à indústria, da gestão à pesquisa, estamos construindo um novo capítulo da nossa história. O Brasil tem a cana, o clima, o conhecimento e a capacidade de inovar. E, mais do que isso, tem um setor que não se rende, que insiste em acreditar no poder do trabalho e na força de uma energia que nasce da terra.

A verdade é que a nossa trajetória sempre foi movida por crises — mas, sobretudo, por superações. O sistema sucroenergético não teme o futuro, porque já o está moldando. A bioenergia é a resposta brasileira aos desafios climáticos e energéticos do século XXI. E é com essa convicção que seguimos, mais uma vez, prontos para enfrentar o que vier.

Não importa qual seja o desafio — nós vamos vencê-lo!
 
Porque resiliência e competência são, desde sempre, as marcas registradas do nosso setor.