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Miguel Rubens Tranin

Presidente da Alcopar

OpAA87

Crises e superações
O nosso setor nasceu devido a uma crise. Em 1975, em razão da crise do petróleo, houve a criação do Proálcool, colocando o Brasil como referência mundial na produção de álcool. 
 
Após um período de crescimento e elevado aumento de novas áreas de canaviais e tecnologias, ficamos diante da crise de 1989, na qual ocorreu uma grande demanda de açúcar, acarretando consequentemente na queda da produção de etanol, gerando um desabastecimento generalizado em nosso País. 
 
O referido cenário gerou reflexos muito negativos e ruins para o setor, uma vez que ocasionou a insegurança dos consumidores pela falta do etanol, o que resultou na queda das vendas de veículos movidos a álcool. 

Os anos 2001 e 2002 também foram extremamente complicados para o setor, ocasião em que houve a liberação dos preços e comercialização do etanol anidro e hidratado, que eram até então controlados pelo governo, que arbitrava mensalmente os preços. Com a liberação da comercialização, o etanol passou a ser vendido diretamente às distribuidoras. 

Isso gerou uma violenta queda do preço, pois a aquisição era realizada por poucas distribuidoras, que forçaram uma grande redução do valor do etanol, uma vez que anteriormente era pago com a arbitração do governo o equivalente a R$0,41/litro e passou a ser pago pelas distribuidoras até R$0,07/litro. 

Recordo-me de um episódio em que a cooperativa que eu administrava necessitava de recursos para fazer a folha de pagamento e fui pessoalmente a determinada distribuidora na tentativa de conseguir melhores preços. Depois de ter esperado mais de seis horas e de ter oferecido o etanol a R$ 0,15/litro, me responderam que já tinham oferta a R$ 0,10/litro. Triste realidade. 
 
Não aceitei e tive que vender outros produtos da cooperativa para honrar a Folha de Pagamentos dos funcionários e produtores.

Mas a exemplo das outras crises, o setor sempre foi muito resiliente e competente. Com esse espírito foi criado a Brasil Álcool, e com a união na comercialização do etanol nacional em bloco e o alinhamento dos preços, conseguimos melhorar os preços. Um belo exemplo associativo. 

Com esse espírito criamos no Paraná a CPA, Central Paranaense de Álcool, que fazia a comercialização de 80% da produção do Estado, gerando bons frutos ao setor no Estado do Paraná. Além disso, a CPA, posteriormente, além de comercializar, passou a estocar e armazenar etanol e açúcar pela construção de tanques e armazéns junto com acesso ferroviário e rodoviário com muita eficiência, surgindo a CPA Trading e Armazéns Gerais, a qual nos atende até hoje.

De 2004 a 2008, o setor cresceu muito no Brasil expandindo a mais estados, muito alavancados, momento histórico que demonstrou a grande capacidade de superação dos empresários. Porém, não durou muito tempo.

Por influência da crise financeira global iniciada em 2008, a qual prejudicou vários setores e gerou a maior crise do nosso setor, tivemos muitos pedidos de recuperação judicial e falências – vivemos momentos extremamente difíceis. Destaca-se  que no Brasil fecharam mais de 100 empresas. No Paraná fecharam 10 empresas. E novamente com muito trabalho o setor se superou.

Tivemos ainda uma crise em 2022, final de uma pandemia mundial. Aí sim, vimos o maior movimento e a união do setor nacionalmente, juntamente com o setor automotivo e o de autopeças, numa iniciativa grandiosa que gerou o MBCB – Movimento de Baixo Carbono Brasil, verdadeiramente um movimento tão sonhado, onde as montadoras focaram na produção de veículos flex e híbridos a etanol, com várias empresas focadas no combustível alternativo, combustíveis renováveis em veículos leves e pesados.

Exatamente neste ambiente, com foco de não emissão de carbono, foi criado o RenovaBio, programa nacional onde um CBio equivale a uma tonelada de carbono evitada. O estímulo que faltava para mais uma vez demonstrar a resistência setorial, buscando retribuir todos investimentos e esforços feitos para reduzir a emissão de Gases de Efeito Estufa.

Com isso e com bons preços do açúcar, o setor se recuperou bastante. Todavia, em 2024, mais uma vez em decorrência do clima seco, extremamente severo, com situações de apenas 30% a 40% da precipitação histórica, houve grandes prejuízos à produtividade das lavouras de cana de açúcar. O que salvou a safra naquele ano foram os investimentos em renovação da lavoura que foram capazes de resistir mais a essas adversidades.

Salienta-se que, sempre na busca de alternativas de superação, vem em paralelo a produção de etanol de milho, que cresceu muito não só no Brasil, tomando parte do mercado e com perspectiva de crescimento muito grande e competitivo. Surgiram as chamadas usinas flex, associando a biomassa da cana para gerar a energia necessária para produção de etanol de milho.

Ainda na visão de buscar novos mercados e cenários para o setor sucroenergético, há que se fazer um trabalho conjunto, se reinventando, aproveitando a sinergia milho/cana com otimização das indústrias com ganhos mútuos.

Além disso, devemos buscar o aumento da mistura de etanol anidro à gasolina e melhorar a eficiência do etanol nos veículos a combustão e aprimorar o uso do combustível renovável em navios, aviões e veículos pesados. Novos mercados e estímulos ao consumo do etanol. Inclusive em outros países.

Certamente as crises não terminaram. Mas o importante é a busca da superação. Pois as crises são passageiras e temos de ser o exemplo para as gerações futuras. Na vida, cada um escreve a sua história. 

O setor com certeza tem uma grande história para contar.