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Evandro Gussi

Presidente da UNICA

OpAA87

O amadurecimento institucional da política climática brasileira
O mundo aprendeu, desde Paris, que promessas climáticas precisam de lastro. Não bastam discursos ou documentos assinados em cúpulas internacionais. É preciso criar mecanismos que funcionem na prática, que possam ser medidos, verificados e que façam sentido econômico. O Brasil entendeu isso. E construiu o RenovaBio.
 
A força do programa está na sua honestidade técnica. Enquanto outros países trabalham com médias estimadas ou modelos computacionais genéricos, o Brasil escolheu o caminho mais difícil: medir, usina por usina, quanto carbono cada litro de biocombustível efetivamente evita. 

A conta é simples e rigorosa: gramas de CO2 por megajoule de energia, auditados um a um. Esse rigor trouxe uma descoberta importante. O etanol brasileiro, produzido tanto de cana-de-açúcar quanto de milho, tem intensidade média de 22 gramas de CO2 por megajoule, número que coloca o País na vanguarda global. 
 
A Agência Internacional de Energia reconhece o Brasil como referência mundial em biocombustíveis, com projeção de crescimento sustentado até 2030. Não é sorte da natureza. É resultado de eficiência: usinas que queimam biomassa para gerar energia, processos otimizados, ciência aplicada ao campo e à indústria. 

O coração financeiro do sistema é o CBio, o crédito de descarbonização. Cada tonelada de CO2 evitada gera um crédito negociável. A lógica é inversa à da punição: em vez de taxar quem polui, o programa remunera quem melhora.

Quanto mais limpo o biocombustível, mais créditos a usina recebe. É um incentivo que funciona porque fala a língua da economia real. Os números comprovam. Em oito anos, mais de 330 empresas foram certificadas — 95% da produção nacional de etanol. A intensidade de carbono caiu 10% no período. Entre janeiro e julho de 2025, foram emitidos 37,9 milhões de CBios. 
 
No primeiro semestre, as negociações movimentaram R$ 2,88 bilhões na bolsa. Não são métricas vazias. É dinheiro que remunera eficiência ambiental e financia inovação. Como toda política estruturante, o programa enfrentou resistências. Algumas distribuidoras buscaram escapar das obrigações ambientais por meio de liminares judiciais. 

A estratégia era clara: substituir a compra de créditos por depósitos judiciais, operando à margem do sistema, enquanto concorrentes cumpriam as regras. Era tentativa de transformar vantagem competitiva desleal em argumento jurídico.

As instituições brasileiras reagiram. Em fevereiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça, a pedido da Advocacia-Geral da União, suspendeu liminares, reconhecendo risco de 'grave lesão à ordem e à economia públicas'. 

A decisão foi categórica: interferências judiciais em políticas de alta especificidade técnica comprometem a previsibilidade do mercado e fragilizam o núcleo regulatório do programa. Antes disso, o Supremo Tribunal Federal já havia declarado, por unanimidade, a plena constitucionalidade do RenovaBio. 

O Tribunal de Contas da União reconheceu seu alinhamento aos compromissos internacionais. O Congresso Nacional aperfeiçoou a legislação, aumentando fiscalização e penalidades para inadimplência.

Essa convergência institucional importa. Segurança jurídica não é detalhe burocrático, é condição para investimentos de décadas em um setor que exige capital pesado e planejamento de longo prazo. Ao blindar o RenovaBio jurídica e regulatoriamente, o Brasil sinaliza ao mundo que leva a sério suas políticas climáticas.
 
Há outro ponto crucial: a integridade do mercado. Programas com metas obrigatórias só funcionam se todos cumprem. Quando alguns operam fora do sistema, destroem a isonomia concorrencial e desestimulam quem investe em eficiência. Transparência nas medições e fiscalização rigorosa são o que separam uma política séria de um teatro regulatório. O RenovaBio investe nisso.

O programa nasceu como resposta climática, mas virou estratégia industrial. No mundo de hoje, consumidores e investidores querem rastreabilidade e dados confiáveis sobre emissões. A experiência brasileira virou referência internacional. A Agência Internacional de Energia aponta o RenovaBio como modelo de política baseada em intensidade de carbono, ao lado do Low Carbon Fuel Standard da Califórnia. Países da Ásia, América Latina e Europa estudam o desenho brasileiro, não por diplomacia, mas porque funciona.

A transição energética não acontece por decreto ou boa vontade. Exige métricas precisas, incentivos bem calibrados e instituições que não mudam de ideia a cada governo. O RenovaBio mostra que é possível juntar sustentabilidade, lógica econômica e protagonismo global.

O Brasil tem vantagens naturais, tecnologia agrícola de ponta e parque industrial robusto. Mas vantagens não se transformam em liderança sozinhas. É preciso política pública consistente. O RenovaBio oferece esse arcabouço.

Mais que uma resposta a problemas urgentes, o programa é uma escolha de futuro: transformar a vocação bioenergética brasileira em política de Estado, ancorada em ciência, eficiência e previsibilidade jurídica. Não é pouco. É o tipo de construção institucional que países levam décadas para consolidar e que o Brasil conseguiu fazer funcionar.