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Tirso de Salles Meirelles

Presidente do Sistema Faesp/Senar

OpAA87

Crises como oportunidades
Em meio a um cenário global marcado por incertezas econômicas, instabilidades geopolíticas e eventos climáticos extremos, o setor agropecuário nacional tem reafirmado seu papel como uma das bases mais sólidas da economia brasileira. 
 
Não se trata apenas de números expressivos de produção ou de recordes sucessivos de exportação, mas de uma capacidade estrutural de adaptação que se consolidou ao longo dos anos. A resiliência do agro brasileiro não é fruto do acaso; ela é resultado de investimento contínuo em tecnologia, profissionalização da gestão e abertura estratégica de mercados.
 
Nos últimos anos, a sucessão de crises colocou à prova a robustez do setor. A pandemia de Covid-19 desorganizou cadeias globais de suprimento, elevou custos logísticos e impôs restrições operacionais inéditas. Ainda assim, a agropecuária foi reconhecida como atividade essencial e manteve o abastecimento interno e os fluxos de exportação. Enquanto outras áreas da economia retraíam de forma abrupta, o campo seguiu produzindo, sustentando empregos e contribuindo decisivamente para o superávit da balança comercial.
 
Logo em seguida, o conflito no Leste Europeu expôs a vulnerabilidade brasileira na dependência de fertilizantes importados. A disparada nos preços e o risco de desabastecimento pressionaram custos e margens. O impacto foi imediato, mas a reação também. Produtores intensificaram práticas de manejo mais eficientes, ampliaram o uso de insumos biológicos e diversificaram fornecedores. O debate sobre a necessidade de ampliar a produção nacional de fertilizantes ganhou centralidade, revelando que as crises também funcionam como catalisadoras de mudanças estruturais.

Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas deixaram de ser uma projeção futura para se tornarem realidade cotidiana. Secas severas, geadas fora de época, enchentes e ondas de calor têm afetado diferentes regiões produtoras. A variabilidade climática eleva o risco e exige planejamento mais sofisticado. A resposta do setor tem sido a incorporação acelerada de tecnologias como agricultura de precisão, monitoramento via satélite, sementes mais resistentes e sistemas integrados de produção. 

O avanço da ciência tropical, conduzido por instituições de pesquisa e universidades, tem sido fundamental para ampliar a produtividade sem expansão desordenada da área cultivada. A volatilidade econômica também compõe esse cenário desafiador. Oscilações cambiais influenciam tanto a competitividade das exportações quanto o custo dos insumos importados. Taxas de juros elevadas encarecem o crédito rural, instrumento vital para custeio e investimento. Ainda assim, o agro mantém dinamismo, sustentado por demanda externa consistente e por uma estrutura produtiva cada vez mais profissionalizada.
 
Grandes produtores, cooperativas e pequenos agricultores vêm incorporando práticas de governança, planejamento financeiro e gestão de risco com maior rigor. Programas como a Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), trabalham a questão produtiva desde a preparação da terra até a comercialização dos produtos, ensinando os produtores a valorarem todos os componentes da produção.
 
É preciso reconhecer que a resiliência do setor não elimina suas fragilidades. Gargalos logísticos persistem, encarecendo o transporte e reduzindo a competitividade. A infraestrutura de armazenagem ainda é insuficiente em diversas regiões. O seguro rural, praticamente inexistente no País, carece de maior abrangência, especialmente diante do aumento dos eventos climáticos extremos. Além disso, a imagem do agro no cenário internacional é frequentemente tensionada por debates ambientais e pressões regulatórias.
 
Nesse ponto, a sustentabilidade deixa de ser apenas um discurso e passa a ser imperativo estratégico. O mundo exige cadeias produtivas rastreáveis, livres de desmatamento ilegal e alinhadas a metas de redução de emissões. O Brasil possui vantagens comparativas importantes: ampla experiência em plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, uso de biocombustíveis e recuperação de áreas degradadas. Transformar essas práticas em ativos reputacionais e comerciais é um desafio que depende de articulação entre setor privado, governo e sociedade.

As perspectivas para o futuro são promissoras, mas condicionadas à capacidade de avançar em inovação e infraestrutura. A digitalização do campo tende a se aprofundar, com expansão da conectividade rural, no caso de São Paulo, uma promessa do governador Tarcísio de Freitas, e maior integração de dados ao longo das cadeias produtivas. 

Startups do agronegócio ampliam o acesso a crédito, seguro e soluções tecnológicas, democratizando ferramentas antes restritas a grandes produtores. A biotecnologia, a edição genética e os insumos biológicos devem ganhar ainda mais espaço, reduzindo dependências externas e impactos ambientais.

No plano internacional, a demanda por alimentos continuará crescendo, impulsionada pelo aumento populacional e pela elevação da renda em países emergentes. O Brasil, detentor de vasta área agricultável, disponibilidade hídrica e conhecimento técnico acumulado, tem condições de ampliar sua participação no comércio global. Contudo, essa expansão precisará estar ancorada em critérios ambientais rigorosos e em compromissos claros com a preservação dos biomas.

Também será decisiva a estabilidade institucional. Políticas públicas previsíveis, crédito acessível, investimento em pesquisa e melhorias logísticas são fatores que determinam competitividade no longo prazo. O Plano Safra, os programas de inovação e os instrumentos de gestão de risco devem evoluir para atender a um setor cada vez mais complexo e integrado ao mercado global.

A força do agro brasileiro reside em sua capacidade de aprender com as crises. Cada desafio recente — sanitário, climático, geopolítico ou econômico — revelou vulnerabilidades, mas também impulsionou avanços. O setor demonstrou que não apenas resiste às adversidades, mas se transforma a partir delas. A resiliência, nesse contexto, não significa imobilismo; significa adaptação contínua.

O futuro exigirá equilíbrio delicado entre expansão produtiva, responsabilidade ambiental e inclusão social. Pequenos e médios produtores precisam ser integrados às cadeias de valor com acesso a tecnologia e crédito. A inovação deve caminhar lado a lado com políticas de redução de desigualdades regionais. Somente assim o crescimento será sustentável em sentido amplo.

Diante das incertezas que ainda se desenham no horizonte global, uma certeza permanece: o setor agropecuário nacional continuará sendo protagonista. Se souber transformar desafios em oportunidades, fortalecer sua imagem internacional e aprofundar seu compromisso com a sustentabilidade, o agro não apenas manterá sua resiliência, mas consolidará seu papel como motor estratégico do desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.