Chegamos a 2026. Para quem observa o setor sucroenergético de fora, pode parecer apenas mais um ano no calendário. Para quem vive o setor por dentro, representa mais um capítulo de uma longa história escrita sob pressão, incerteza, criatividade e, sobretudo, resiliência.
É sabido — e comprovado empiricamente — que o sistema bioenergético brasileiro sempre conviveu com crises de toda ordem: de preço, climáticas, regulatórias, de crédito, de imagem. Ainda assim, até hoje, saiu-se bem de todas elas. Não ileso, é verdade. Mas mais forte, mais preparado e mais sofisticado.
Além da resiliência, há um atributo que merece igual destaque: a competência. Houve um tempo em que, fora o açúcar, produzíamos apenas etanol. Vivemos situações folclóricas — tipo vender etanol abaixo do custo ou bagaço valendo mais que cana em pé, deixando o usineiro coçando a cabeça quanto ao que fazer.
A cada safra, um novo “desafio existencial”. Em vez de nos derrubar, cada crise nos obrigava a evoluir. Da simplicidade dos engenhos, tornamo-nos um respeitado sistema energético integrado, com tecnologias avançadíssimas e biotecnologia de ponta. Ontem, carro a álcool; hoje, avião e navio movidos a etanol. Sobrevivência virou protagonismo.
Não importa o desafio: historicamente, nós o vencemos. A pergunta agora é: qual é ele? O primeiro vetor é na agricultura. A inteligência artificial deixa de ser futurista para virar condição de competitividade: modelos preditivos otimizam insumos, solo, clima hiperlocal e manutenção de equipamentos — como um personal trainer para o canavial, prevendo pragas em 95%, cortando químicos em 30% e rendendo 15% mais.
Em paralelo, desenvolvimento genético reduz imprevisibilidade das safras. Variedades resilientes a estresses hídricos, térmicos e fitossanitários viram gestão de risco essencial. CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), uma tecnologia revolucionária de edição genética que age como uma "tesoura molecular", eleva sacarose em 15%, corta volatilidade em 40% — teremos em breve uma cana "super-heroína" que rirá do El Niño.
Mas outros desafios multiplicam-se. Aproxima-se 2027, com polarização e modelo de Estado incerto — esquerda, direita ou circo? Preparemo-nos para um ambiente regulatório menos amistoso. Novo cenário tributário revisa contratações de insumos e serviços, mudando a mentalidade operacional, e não podemos nos esquecer das incertezas macro de sempre: qual serão os juros e câmbio em 5-10 anos? Selic teimosa em 12% trava capital; dólar R$ 6,00 impulsiona, real forte comprime. Previsão: juros 9-11%, câmbio R$ 5,20-5,80.
Aqui, ponto sensível: chegou a hora de separar os homens e mulheres dos meninos e meninas. Últimos anos de preços remuneradores e safras estáveis “acostumaram mal” o setor — disciplina relaxou, eficiência virou discurso.
Com preços baixos e volatilidade, gestão de custos, produtividade, eficiência e controle de despesas são imperativos. Ter liquidez para suportar solavancos é fundamental — caixa para 12-18 meses, já que não podemos cortar o açúcar na dieta do setor, que cortemos as gorduras.
Se há boa notícia, é que crises nos organizam. Conforto nunca foi nosso habitat — ironicamente, isso nos tornou experts em mares turbulentos. Em 2026, brindamos à resiliência: sairemos mais fortes, sempre com uma piada pronta e um futuro mais doce.
Há ainda transformação estrutural relevante: consolidação da agenda ESG como eixo estratégico. Sustentabilidade deixou de ser discurso e virou premissa de financiamento e acesso a mercados. Créditos de carbono e bioeletricidade ampliam receitas e exigem governança sólida. O mundo enxerga o Brasil como potência renovável, com o setor no centro desse movimento.
A integração entre indústria e campo ganha nova dimensão com digitalização e uso de dados. Eficiência vira requisito básico. Quem dominar custos e tecnologia atravessará ciclos com menos sobressaltos.
Se o passado ensinou algo, é que prosperamos na adversidade. Em 2026, mais do que resistir, será preciso acelerar e manter a disciplina. Resiliência como armadura; competência como bússola; inovação como combustível do próximo ciclo de crescimento sustentável.