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Luís Antonio Arakaki

Diretor Presidente da Alcoeste Bionergia

OpAA87

A antifragilidade urgente do sistema bioenergético
Chegamos a 2026, e o sistema sucroenergético brasileiro se encontra novamente em momento crítico e de desafios. A trajetória do setor é uma epopeia de superações, prova viva de que a força não reside na ausência de crises, e sim na capacidade de se fortalecer e evoluir a partir delas. 
 
O convite para refletir sobre a “resiliência e competência” de nosso setor me leva a um conceito ainda mais profundo: a antifragilidade pragmática que moldou e, agora, impulsiona a resposta urgente do setor sucroenergético à crise de mercado atual.

Por décadas, forjados na volatilidade, crises como etanol vendido abaixo do custo ou o bagaço valendo mais que a própria cana não são novidades. Cada safra trouxe seus desafios: políticas energéticas valorizando energias fósseis, flutuações cambiais, crises econômicas, adversidades climáticas e mercadológicas. Para muitos, seriam golpes fatais; para nosso setor, foram catalisadores.

Essa sucessão de crises e estressores contínuos fez-nos mais fortes. Não se trata apenas de resistir, como a resiliência sugere. A antifragilidade pragmática é como um sistema imunológico que se fortalece a cada infecção. Vivenciamos um processo de transformação e aprimoramento contínuo. 
 
O sistema sucroenergético se reinventou, se adaptou e se beneficiou da própria desordem. Essa é a essência da antifragilidade pragmática: a capacidade de criar, se fortalecer, melhorar e evoluir a partir de crises, transformando a volatilidade em progresso dos processos produtivos.
 
A “competência e o pragmatismo” do sistema sucroenergético são o motor dessa antifragilidade, na incessante busca por inovação, que nos tirou da condição de um simples engenho para alçar a posição de um respeitado sistema sucroenergético global. Essa competência é multifacetada desdobrando-se em diversas frentes.
 
1. Produtividade agrícola e a biotecnologia: diante da pressão sobre preços do açúcar e etanol, o foco fundamental da produtividade agrícola é a primeira linha de defesa. Universidades e centros de pesquisa intensificam o desenvolvimento de varietais da cana aprimoradas para resistir a pragas e otimizar a produtividade e sacarose sob estresse hídrico. A biotecnologia é outra aliada permitindo explorar o potencial máximo de cada ciclo; a agricultura de precisão, VANTs, sensores, inteligência artificial, máquinas autônomas são cruciais para otimizar o uso dos insumos e diluir o custo de produção, buscando a máxima eficiência agora por metro quadrado, protegendo a atual e futuras produtividades. A seleção varietal mais tolerante a colheita e plantio mecanizados, secas, pragas e doenças é estratégia para extrair valor de condições adversas assegurando sustentabilidade da produção. 

2. Eficiência industrial e economia circular para diluição de custos: Os processos industriais com gestão em tempo real com laços fechados e IA integrados para diluir custos fixos. Abraçar uma filosofia de “zero resíduo” é uma estratégia de sobrevivência. O bagaço antes com custo de descarte é aproveitado na bioeletricidade, e excedentes injetados na rede nacional, inclusive para os veículos elétricos (EVs), são cruciais para geração de receita adicional e diluição de custos. A vinhaça é hoje um biofertilizante valioso, aplicado nas lavouras via fertirrigação, fechando o ciclo de nutrientes e reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos. A levedura, a parede celular e o extrato abrem novas fronteiras para aditivos alimentares, rações animais e outros usos de alto valor agregado, diversificando as fontes de receita e minimizando o impacto ambiental. 
 
3. Diversificação e valor agregado estratégico, novas análises de produtos e mercados: A dependência exclusiva do açúcar e do etanol, especialmente em anos de preços internacionais desfavoráveis, e o crescimento do etanol de milho são um risco que o setor não pode mais se dar ao luxo de correr. 

A busca por novas e disruptivas análises de produtos e mercados é urgente. Para um portfólio diversificado de produtos e soluções além do etanol de primeira geração, deve-se pensar ativamente sobre plantas com flexibilidade para produção de etanol de milho e o etanol celulósico de segunda geração, flexibilidade de produção de bioeletricidade com a fotovoltaica, biogás, biometano, bioplásticos, biocarvão (biochar), dióxido de carbono, papel e compensados de bagaço, bioquerosene de aviação (SAF) e muito mais.

Essa diversificação não é apenas uma estratégia de mercado, é uma manifestação da antifragilidade pragmática, pois reduz a vulnerabilidade a flutuações de um único produto e cria múltiplas fontes de valor a partir da mesma matéria-prima, garantindo a perenidade do negócio em diferentes cenários econômicos e regulatórios. 

A história do “carro a álcool” evoluiu para a realidade do navio e avião a etanol; aliás, o etanol há muito tempo é um SAF de primeira geração movendo os Ipanema da Embraer, sobrevoando nossos canaviais, demonstrando a escalabilidade e a versatilidade da nossa solução energética. Isso não é mera sorte; é o resultado de um ecossistema de inovação que aprendeu a se alimentar da instabilidade. As secas impulsionaram a eficiência hídrica, as variações de mercado forçaram a otimização e a diversificação. Cada perturbação foi o gatilho para a evolução.

Além dos ganhos diretos em produtividade e sustentabilidade, a antifragilidade pragmática do setor sucroenergético brasileiro se traduz em um impacto socioeconômico profundo. O setor é o maior empregador do agronegócio, gerando milhões de empregos e contribuindo para o desenvolvimento local. Ao fornecer uma fonte de energia renovável e limpa, o setor contribui significativamente para a segurança energética do País para o cumprimento das metas climáticas globais, posicionando o Brasil como líder mundial em bioeconomia e sustentabilidade.

Mas, qual é, de fato, o desafio que nos espera em 2026? Não é mais o desafio de “vencer” uma crise específica, pois sabemos que elas são a nova normalidade. O verdadeiro desafio é manter e aprimorar essa mentalidade antifrágil pragmática. É não cair na complacência, é continuar investindo em pesquisa e desenvolvimento, é fomentar a cultura de inovação que nos permitiu chegar até aqui.

É reconhecer que a incerteza é o nosso campo de jogo e que a volatilidade é nossa aliada mais poderosa. Novos horizontes, como a produção de hidrogênio verde como mais um produto e a integração com outras fontes de energia renováveis, exigirão essa mesma capacidade de se adaptar, prosperar e renascer em ambientes de constante mudança.

O setor sucroenergético brasileiro não apenas resistiu às tempestades; aprendeu a dançar com elas, transformando turbulências em energia propulsora. Em 2026 e nas décadas seguintes, nossa resiliência e competência serão testadas constantemente, mas nossa antifragilidade pragmática nos assegurará que sairemos ainda mais fortes, liderando a transição  energética global e construindo, a depender de nosso setor, um mundo melhor e mais sustentável a partir da própria imprevisibilidade.