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Fernando Cullen Sampaio

Gerente de Tecnologia e Processos Industriais da São Martinho

OpAA87

Competência técnica em um cenário de desafios
Ao analisarmos as projeções para a safra 2026/27, no âmbito do setor sucroenergético, a sensação para quem vive o chão de fábrica e a gestão de processos e projetos industriais é de estar diante de uma equação complexa, na qual as variáveis externas pressionam as constantes operacionais. 

Não estamos falando apenas de mais um ciclo de moagem; trata-se de um ano que tende a testar a maturidade da nossa engenharia industrial no setor, nossos times da operação e a robustez dos nossos ativos industriais. As projeções indicam uma "tempestade perfeita" no lado da oferta e dos preços, cenário recorrente em ciclos do setor, exigindo que a resposta das usinas não seja emocional, mas sim estritamente técnica e pautada na excelência operacional.

O cenário macroeconômico desenha-se desafiador. As estimativas mais recentes de consultorias especializadas e os dados de mercado apontam para mais um ano de forte moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul. 
Uma safra robusta, com muita cana a ser moída, que impõe um teste de estresse logístico e industrial. Paralelamente, a consolidação do etanol de milho é uma realidade irreversível e exponencial, inundando o mercado com biocombustível e alterando a dinâmica de precificação.
 
Como se não bastasse a pressão de oferta interna, o cenário global impacta a rentabilidade. Em cenários de mercado amplamente discutidos, a combinação do preço do petróleo (Brent) pressionado e um dólar mais fraco em determinados períodos tende a reduzir o preço da gasolina ao consumidor, comprometendo a competitividade natural dos biocombustíveis na bomba. Soma-se a isso a possibilidade de excedente global de açúcar em análises sobre mercado global. Para a engenharia de processos no setor, a conclusão é clara: a margem de contribuição não virá do mercado; uma parcela relevante virá de dentro das plantas industriais, tonelada a tonelada, por meio de eficiência de conversão termodinâmica e mecânica, aproveitando ao máximo o potencial energético do bagaço, priorizando os rendimentos de conversão do Açúcar Recuperável Total (ART) disponibilizado na cana em açúcar, etanol e levedura, com o menor custo possível.

Neste contexto, a engenharia de processos assume o protagonismo. A "bala de prata" para 2026 não será uma nova tecnologia disruptiva, mas sim o retorno aos fundamentos da engenharia de processos química e mecânica: fazer o básico com perfeição absoluta.  

O primeiro pilar de sustentação é a Gestão de Ativos e a Disponibilidade Física. Com a expectativa de grande disponibilidade de cana para processamento na safra, o custo de oportunidade de uma parada não programada é proibitivo. 

A confiabilidade de equipamentos críticos, como caldeiras de alta pressão, turbogeradores, conjuntos de moenda e equipamentos-chave envolvidos nos processos produtivos, deve ser tratada como prioridade técnica. A manutenção precisa transitar definitivamente do modelo corretivo/preventivo para a engenharia de confiabilidade e preditiva avançada, visando disponibilidade em patamares de excelência. Adicionalmente, o custo de manutenção passa a ser outra variável crítica a ser considerada na equação.

Entretanto, rodar a planta sem parar não é suficiente; é preciso rodar com estabilidade e eficiência máxima. Aqui entra a expertise da Engenharia de Processo, na otimização dos balanços de massa e energia, na definição dos melhores padrões operacionais e do gerenciamento das rotinas da operação. Em margens comprimidas, cada kg de vapor por tonelada de cana, cada kg de ART convertido, cada MWh adicional disponível para venda contam e fazem a diferença.

A integração térmica da planta deve ser revisitada, assim como os padrões operacionais. É necessário um plano de safra muito bem elaborado e otimizado, integrando áreas operacionais, administrativas e comerciais, além da definição de um sistema de gestão da rotina para garantia de que o realizado esteja sempre aderente ao planejado. Pequenos projetos de adequações de processo focados em recuperação energética e hídrica, redução de perdas determinadas e prevenção das indeterminadas são investimentos setoriais relativamente simples e de retorno muito rápido.

A recuperação de fábrica (transformação da sacarose disponível em açúcar ensacado) deve ser monitorada em tempo real, não apenas para registro histórico, mas para correção imediata de desvios de processo, independentemente do mix planejado. O rendimento fermentativo, muitas vezes subestimado em ciclos com maior viés açucareiro, volta a ser o "coração" da rentabilidade industrial. É a microbiologia e a cinética química garantindo que o açúcar não se perca em subprodutos indesejados.

É fundamental, também, desmistificar o papel da Industria 4.0 e da Automação Avançada. Frequentemente vendidas como a solução final, elas são ferramentas habilitadoras, e não o fim em si. Sensores IoT, Gêmeos Digitais e Otimização em Tempo Real (RTO) só agregam quando o processo físico-químico já é estável e bem projetado.

A tecnologia digital deve servir para reduzir a variabilidade do processo, permitindo que operemos mais próximos aos limites termodinâmicos e mecânicos dos equipamentos, com segurança. O investimento deve ser inteligente, priorizando automação que garanta estabilidade e segurança de processo, instrumentação analítica confiável e sistemas que entregam dados acionáveis para decisões de balanço da planta. E no centro de todas essas ações é fundamental um plano de capacitação, sensibilização e cuidado com as pessoas. Tecnologia de ponta com times não treinados e engajados não entrega resultado.

Já olhando para o médio e longo prazo, a resiliência do setor passa pela evolução da usina para biorrefinaria. A operação, engenharia de projetos, inovação e novos negócios precisam atuar em conjunto para integrar novas tecnologias e processos a sites existentes. Como exemplo, a flexibilidade trazida pelas plantas flex (cana e milho) exige uma gestão energética sofisticada, visto que o balanço de vapor e energia elétrica muda drasticamente. A integração não é apenas física, é operacional. 

Além disso, novos vetores de valor como o biometano e os combustíveis sustentáveis (SAF, etanol de segunda geração, biometanol, hidrogênio, entre outros) deixam de ser "projetos de P&D" para se tornarem unidades de processo que exigem engenharia pesada. 

O biometano, em particular e já uma realidade, representa a conversão da matéria orgânica disponível na vinhaça em receita nobre, preservando as suas características de fertirrigação na vinhaça digerida, mas sua implementação requer domínio de processos de biodigestão, purificação de gases e compressão, áreas onde a engenharia química tradicional se encontra com a engenharia de óleo e gás. Estamos falando de plantas químicas acopladas, operando em sinergia.

Portanto, ao encararmos 2026, a mensagem setorial deve ser de confiança na competência técnica que o nosso segmento tem de sobra. O sistema sucroenergético brasileiro é, sem dúvida, o mais eficiente do mundo, uma referência, tendo passado por décadas de aprimoramento em engenharia de processo. A superação dos desafios de preços e oferta virá da capacidade das nossas equipes de engenharia, manutenção e produção em extrair o máximo rendimento de cada molécula com o menor custo possível. A resiliência não é sorte; é o resultado de um balanço de massa e energia muito bem trabalhado e aplicado, de uma manutenção bem planejada e executada e de uma gestão que entende que o lucro se constrói no detalhe do processo industrial. Estamos preparados.