O sistema sucroenergético brasileiro tem-se mostrado bastante resiliente desde o Proálcool (Programa Nacional do Álcool) em 1975, com o objetivo de superar a crise do petróleo no início dos anos 70. Já passaram mais de 50 anos e a prova maior desta resiliência é que estamos aqui discutindo como serão os próximos 50 anos do setor sucroalcooleiro.
Nascido de um simples aditivo à gasolina, em um tempo que não tínhamos dólares suficientes para cobrir as nossas compras externas, hoje estamos discutindo a utilização do etanol como combustível sustentável de navios e aviões, a produção do biometano e muitas outras aplicações, além das já conhecidas na indústria.
Hoje produzimos alimentos em larga escala, somos o maior produtor e exportador mundial de açúcar e o segundo maior produtor mundial de açúcar e um dos maiores geradores de bioeletricidade a partir do bagaço da cana-de-açúcar, e somos um dos pilares da matriz energética renovável do País.
Sua importância transcende o setor agrícola, impactando diretamente a economia, o meio ambiente e a segurança energética nacional. Somos um setor naturalmente resiliente e já provamos que temos capacidade de nos adaptar e resistir a crises econômicas, ambientais ou políticas, pois somos uma indústria com diversificação de produtos com grande flexibilidade industrial que nos permite reagir de forma rápida e eficaz às variações de demanda e preços dos mercados internacionais.
Investimos constantemente em variedades de cana resistentes a pragas, firmas de plantio e colheita e estamos dedicando tempo e conhecimento para nos adaptar às mudanças climáticas e fortalecer a sustentabilidade agrícola. Temos um papel importante para enfrentar crises globais pois somos produtores de alimento e energia, que são extremamente importantes para produzirmos respostas às crises globais, de forma constante, segura e sustentável.
A nossa competência está ligada à capacidade de gerar valor econômico, empregos, distribuição de renda, interiorização da produção com excelência ambiental, mantendo competitividade em escala global. Mesmo com todos os nossos problemas, ainda temos o menor custo de produção entre todos os demais produtores mundiais.
Geração de energia a partir da própria biomassa, que além de utilizada na fabricação de nossos produtos constitui-se em importante supridor de energia na matriz de eletricidade brasileira. O uso do etanol como combustível em larga escala no País contribui de forma decisiva à redução de emissões de gases de efeito estufa e consolida o setor como referência em bioenergia limpa.
Mantemos pesquisas para a produção do etanol de segunda geração (a partir da celulose da cana) que ampliam e diversificam o potencial energético e redução de resíduos.
O etanol brasileiro é reconhecido como um dos biocombustíveis mais sustentáveis do mundo, com potencial de abrir espaços em mercados que buscam valorizar os biocombustíveis e reduzir a pegada de carbono.
Este mercado vem sendo atacado por governos e grandes empresas ligadas aos combustíveis fósseis, e esta é uma batalha dura, mas que mais cedo ou mais tarde não se tornará uma opção, mas sim uma necessidade, suportada pelos eventos extremos de clima, vistos em todas as partes do mundo, provocados pelas mudanças climáticas.
Os desafios são muitos, com os quais já convivemos há muito tempo. Temos uma indústria que demanda muito custo de capital. Os investimentos de implantação e de manutenção são sempre vultosos e convivemos com taxas de juros elevadíssimas há muitos anos, demonstrando a nossa grande resiliência para nos mantermos em pé e crescendo.
Formação de mão-de-obra qualificada, redução de custos e gestão profissional para competirmos em igualdade são problemas que já foram maiores no passado recente, mas que não devem ser deixados de lado, principalmente em tempos de crise de oferta, como estamos vivendo agora.
Somos tarifados nos principais mercados de etanol e açúcar ao redor do mundo, o que comprova a nossa grande competitividade, mas limita o nosso crescimento. As mudanças climáticas podem afetar a nossa produtividade agrícola e redirecionar as áreas produtivas. Temos de investir em variedades mais resistentes a essas mudanças.
Temos um elemento novo que certamente nos acompanhará pelos próximos anos que é a produção do etanol a partir do milho. Esta produção quebra um dos mecanismos de ajuste de demanda e preços clássico do setor sucroalcooleiro brasileiro, com a nossa grande capacidade de flexibilizar a produção entre açúcar e etanol.
Não há correlação direta entre os preços do açúcar e do milho, e desta forma quando temos preços ruins de açúcar pelo excesso de oferta mundial, o Brasil funciona como um regulador da produção, ao reduzir a oferta de açúcar e aumentar a oferta de etanol e, desta forma, voltar a equilibrar o mercado de açúcar.
O aumento da oferta de etanol, em decorrência da redução da produção de açúcar, implica em preços menores para o etanol, para podermos aumentar a demanda pelo biocombustível e acomodarmos a oferta adicional de etanol.
Como os preços do milho não têm correlação com os preços do açúcar, estamos vendo neste momento um incremento da oferta de etanol de milho, em uma velocidade maior que o mercado de combustíveis pode absorver sem reduzir severamente os preços relativos do etanol.
Isso faz com que a estratégia das usinas em reduzir a produção de açúcar para criar um contraciclo seja menos eficiente, pois temos um aumento da oferta de etanol maior proveniente do milho, que prolongará o ciclo de baixa do etanol, reduzindo a eficácia do processo.
Como os custos de produção de etanol de milho são menores que os de etanol de cana, somente preços muito baixos provocariam uma redução na oferta de etanol de milho e inibiriam a execução de novos projetos. Estes preços reduzidos do etanol por um período mais longo podem afetar principalmente as usinas de cana-de-açúcar menos competitivas, levando a uma redução do setor.
Por outro lado, há oportunidades que ainda precisam ser mais bem exploradas, mas o fator tempo pode ser decisivo, uma vez que a oferta aumenta de forma acelerada, com os novos projetos de etanol de milho. Temos um grande mercado de carbono no Brasil, com a criação do RenovaBio. Programa muito bem construído em sua lógica de redução das emissões de gases do efeito estufa, mas que vem sendo combatido na esfera judicial, criando distorções e insegurança entre os agentes de mercado.
Sua solução tem-se mostrado complexa e difícil com diversos atalhos jurídicos impetrados por uma parte relevante de distribuidores de combustíveis. Estamos lutando arduamente contra essas distorções e acreditamos que devemos fazer algumas mudanças de ordem operacional e reforço legislativo para que possamos dar sequência a este importante mecanismo de valorização dos biocombustíveis e mitigação dos efeitos nocivos dos combustíveis fosseis, que fortaleçam a imagem do Brasil como líder em energia renovável.
Num futuro não muito distante temos boas perspectivas para o setor sucroenergético, como a reforma tributária a ser implantada no mercado de combustíveis, que trará uma isonomia tributária para o etanol em todo território nacional, tornando o etanol bastante competitivo com a gasolina.
Isto deve disseminar o uso do etanol em todo o Brasil e favorecer a instalação, principalmente de usinas e etanol de milho, em boa parte do País. Apesar de termos uma frota de veículos leves constituída por 80% de veículos flex, temos apenas 25% da frota utilizando etanol, devido aos altos custos tributários e logísticos em diversos estados.
A utilização do etanol como matéria-prima para a produção do combustível sustentável de aviação (SAF), contida nas diretrizes do Projeto de Lei Combustível do Futuro, já aprovado, cria uma perspectiva bastante positiva de médio e longo prazos e uma boa oportunidade de investimento para todo o setor.
Dentre os pontos aprovados nesta lei, está a possibilidade de elevarmos a mistura de etanol anidro na gasolina em até 35%. A utilização do etanol como combustível de grandes navios também se desponta como uma alternativa viável, com uma implantação mais simples que o SAF.
Novos programas de mistura de etanol na gasolina ao redor do mundo também podem contribuir para que a nossa indústria continue viva e na sua trajetória de crescimento. O sistema sucroenergético brasileiro é muito resiliente e competente, como já provou em diversas crises desde a sua consolidação, e está pronto para manter relevância global e atrair investimentos.
Sua força está na flexibilidade produtiva, na sustentabilidade, na inovação tecnológica e na força da sua gente, que nunca desistiu mesmo nos momentos mais críticos ao longo de sua história.
Estamos prontos para os próximos 50 anos, para consolidarmos ainda mais a nossa posição mundial, superar barreiras comerciais e investir em soluções que respondam às mudanças climáticas e às novas demandas energéticas, com a energia de quem está começando agora.