“A competitividade de longo prazo do sistema sucroenergético brasileiro depende de sua resiliência.”
(síntese de vários autores)
Certamente os produtores do agro brasileiro e, em especial, os do setor sucroenergético vivem em 2026 a sensação desagradável de uma “tempestade perfeita”. Isso se traduz sob os efeitos da queda dos preços dos produtos açúcar e etanol, de energia elétrica, a retração do sistema financeiro, ano de eleições majoritárias, temores com o El Niño que aí chega e pode impactar, no 2º semestre do ano, juros estratosféricos e dívidas sob total atenção.
Deve-se sempre lembrar que custos subindo e anos-safra (exceto 2023/24) com menores produtividades, pelos efeitos climáticos, estão testando a competitividade setorial.
Nesse ambiente, um olhar para fatores como a resiliência e a competitividade das empresas do setor naturalmente ganha enorme importância. Enquanto a resiliência se refere às ações de adaptação, entre outras, para absorver a pressão e ter respostas econômicas, a capacidade de competir guarda forte correlação com o uso de tecnologia e fundamental inovação, assim como a capacidade de obtenção de financiamentos menos onerosos e comercialização correta.
Quando nos referimos a 2026, vale olhar o ano de 2025 ou a safra 2025/26, com a queda dos preços de açúcar e etanol, a desvalorização dos preços dos CBIOs pela ação irresponsável de algumas Distribuidoras de Combustíveis que vinham mantendo liminares para a não compra obrigatória dos créditos de descarbonização, valendo ressaltar que recentemente tiveram suas liminares derrubadas pelo judiciário.
Em que dimensão estratégica estamos vivendo? Vive-se uma ruptura geopolítica, não uma transição, e, mais que isso, uma ruptura que leva a todos a névoa das perspectivas em ambiente incerto.
Existiria uma alternativa crível à hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental? A China e a Rússia oferecem transações, não sistemas. Pequim constrói infraestruturas, mas promove exportações subsidiadas e empréstimos opacos, enquanto extrai recursos. Moscou vende commodities e armas. Nenhuma das duas oferece uma estrutura política ou econômica à qual os estados da região possam aderir de forma significativa nem uma ideologia que a maioria escolheria emular.
Deve-se ter em mente que os EUA têm poder de permanência porque não estão tentando instalar um projeto político ou econômico estrangeiro na região das Américas e no Ocidente.
A China, como a outra superpotência industrial (produz aproximadamente um terço dos bens manufaturados do mundo e domina setores que vão da construção naval a veículos elétricos e baterias), vem mostrando alicerces desse poder que estão se deteriorando. A economia chinesa vem encolhendo em relação à dos EUA em termos de dólares desde 2021, sua população deverá ser reduzida à metade até o final deste século, a produtividade está estagnada há mais de uma década, e a dívida nacional atingiu 300% do PIB e continua crescendo rapidamente. A renda disponível média é de apenas US$ 6.000/pessoa, e a maioria dos trabalhadores sequer concluiu o ensino médio.
O problema fundamental da Rússia é que seus antigos países vassalos estão prosperando sem ela. Desde 1990, os ex-estados soviéticos que se democratizaram e aderiram à União Europeia cresceram mais do que o dobro da Rússia. Os russos eram cerca de duas vezes mais ricos que os poloneses em 1990, enquanto hoje os poloneses são aproximadamente 70% mais ricos que os russos.
A citação geopolítica vem do peso estratégico dessa realidade no desenvolvimento mundial, na inovação tecnológica e na necessária busca, pelo Brasil, da redução de dependências.
No caso, insere-se o setor sucroenergético, pressionado por cotas de exportação pequenas aos EUA e à União Europeia para o açúcar, que vem perdendo taxa de crescimento anual de demanda, e, por outro lado, o etanol pressionado pela ojeriza norte-americana em relação à taxa de importação do Mercosul e carros flexíveis no Brasil dominantes (frota leve com 78% do volume total), mas que somente utilizam cerca de 40% de etanol nos seus motores.
A Índia segue subsidiando a produção e exportações, a Tailândia segue na linha de suporte ao produtor, e a visão de curto prazo de recuperação do mercado não é nada fácil.
Para o longo prazo, no entanto, as perspectivas são favoráveis nos campos de agregação de valor, seja com a cana, seja com o milho, para transportes aéreos e marítimos na pressão da transição (ou melhor, adição) energética; na necessidade de enorme crescimento no uso de energias renováveis para os data-centers; tudo, sem dúvida, ligado às mudanças climáticas.
Em recente reunião do Fórum de Davos em janeiro de 2026, o 1º Ministro canadense, Mark Carney, descreveu o novo mundo após uma “ruptura”; o Presidente da Finlândia, Alexander Stubb, acentuou que as alternativas ao “sepultado” sistema multilateral seriam “esferas de influência, caos e desordem”. Nesse complexo novo sistema, como ter protagonismo, em estratégia público-privada de interesse do Brasil?
São 2 cenários possíveis: • um, com a reforma profunda do sistema multilateral; • outro, onde haverá uma nova diplomacia, agora transacional. Enquanto o primeiro modelo permite grandes movimentos globais coordenados (as ações em favor da redução das emissões de CO2 equivalente), onde o Brasil sucroenergético tem, de fato, grandes oportunidades com a transição energética e a oferta de alimentos e bioenergias, o segundo modelo obriga a uma enorme revisão nas ações, em ritmo de substituição de Regras Gerais por Acordos Condicionais.
Nesse caso, o setor privado sucroenergético deve se preparar para o novo. Serão negociações “caso a caso”, com concessões, parcerias, controles tecnológicos, sempre sob a realidade de correlação de forças entre os negociantes e contratos específicos muito trabalhados. Esse é o grande desafio, e estamos atrasados.
Sendo importante ator no cenário internacional de açúcar e de etanol, além de outros produtos bioenergéticos, o Brasil é ativo negociável e potencial berço para grandes investimentos internacionais. Sem margem, vem a gestão. Talvez, de fato, não vivemos algo tão disruptivo ao setor. Esse reposicionamento requer um olhar para o agro e seus produtos como “moedas geopolíticas”, sendo fundamental buscar acesso aos mercados, tecnologias e financiamento. Isso cobra, também, uma posição madura do governo federal, com olhos para “ensinar a pescar”.
Entre o assustador e crescente déficit público, e os desgastes diários entre os poderes da República, em 2026 teremos eleições majoritárias, Copa do Mundo de Futebol, o Brasil ainda com o comando da COP até a troca em novembro de 2026, sob um ambiente geopoliticamente incerto e negras nuvens políticas no Brasil. Apertar os cintos?