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Alexandre Enrico Silva Figliolino

Consultor da XP para agronegócio

OpAA87

Assim como as safras, não existe uma crise igual a outra
Após 40 anos de atividade profissional no setor bancário, com uma parte expressiva do tempo dedicado ao agronegócio, em especial ao setor sucroenergético, eis que agora estamos diante de mais uma crise aguda, o que não devia ser novidade num setor sabidamente cíclico a nível mundial.
 
Assim como as safras, não existe uma crise igual a outra, e neste ponto esta crise atual vem carregada de alguns fatores sui generis. 
Vamos abaixo relembrar nossas três últimas crises:

A do final dos anos 90, estávamos numa situação onde o carro a álcool tinha caído em desgraça junto ao consumidor, quando nem os usineiros o compravam. Com o sucateamento da frota, o consumo de hidratado desabava, sendo que no final da safra 98/99 os estoques equivaliam a 6 meses de consumo. Lembro-me que naquela época meu chefe, Candido Bracher, ao ver os grandes números do setor, previu que os preços iriam a zero e quase foram – 15 centavos. O açúcar também não deixava por menos, e não me esqueço que, em 30 de abril de 2000, ele bateu míseros 3,92 centavos de dólar por libra-peso.
 
Meus colegas de banco à época me diziam que se conseguisse sair dessa crise perdendo não muito dinheiro já seria uma grande vitória. 

Felizmente, com a ajuda de São Pedro, que proporcionou naquele ano uma geada e seca, a produção do Centro-Sul desabou no ano seguinte, caindo de 270 MM para 214 MM de toneladas, o que fez com que os preços reagissem para níveis por volta de 12 cents.
 
Para alegria geral da Nação, algum tempo depois foi anunciado o lançamento do carro com motor flex que dava ao consumidor o poder de escolha do combustível na hora que fosse abastecer, uma vantagem enorme em relação ao carro somente a álcool. 

Os veículos flex imediatamente caíram no gosto do consumidor, se transformando num enorme sucesso de venda. Assim, dada a elevada competitividade do etanol em relação à gasolina, iniciou-se um vigoroso ciclo de crescimento com a instalação de inúmeras plantas greenfield em áreas disponíveis nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A produção de cana deu um salto enorme atingindo número acima de 600 MM de toneladas.

Este ciclo de crescimento, realizado numa velocidade muito elevada, fez crescer muito o nível de alavancagem das empresas. A principal fonte de financiamento dos investimentos era o BNDES, cuja liberação de recursos tinha de cumprir uma série de etapas. As empresas recorriam a empréstimos ponte de curto prazo, que vinham atrelados a derivativos alavancados. Quando o dólar disparou, fruto da crise dos mercados em 2008, o desastre foi total e agravou ainda mais a crise.

O terreno ficou fértil para operações de M&A (Fusões e Aquisições, do inglês para Mergers and Acquisitions), que ocorreram aos montes com a entrada no setor de diversos grupos estrangeiros. Isso ajudou a resolver uma parte do problema, mas a crise era de tal forma aguda que foi necessário um esforço conjunto coordenado entre o BNDES e os grandes bancos privados para evitar uma crise sistêmica que estava se desenhando. 

Alongamento de passivos, fusões e aquisições e a recuperação dos preços do açúcar nos anos de 2010 e 2011 fizeram com que o setor fosse se recuperando aos poucos.

Importante lembrar que a magnitude e a velocidade do crescimento foram de tal ordem que geraram uma série de problemas muito graves notadamente na área agrícola. O preço da terra se elevou, falta de mão de obra principalmente em área de fronteira, atraso na entrega de equipamentos, precário manejo varietal com a escassez de mudas e a rapidez com que se introduziu a colheita e plantio mecânico também foram uma fonte importante de problemas que, graças a Deus, hoje já estão todos superados.

Aí entramos nos anos de chumbo da dupla dinâmica Dilma e Mantega (Presidente e Ministro da Fazenda, respectivamente) que levou ao congelamento de preços dos combustíveis com fins eleitorais e para segurar a inflação, causando enormes prejuízos ao setor sucroenergético.

Citei três momentos importantes de crise pelo qual o setor passou num passado recente, para realçar que a vida é feita de vacas gordas e vacas magras; as crises vêm e vão embora de forma cíclica. Por isso, é muito importante que as empresas entrem num mau momento robustas do ponto de vista operacional e de estrutura de capital, pois nunca sabemos a duração e intensidade das crises e temos de ser resilientes e estar preparados para o pior.

Por isso que adoro e acho muito apropriado para o momento a metáfora do leão correndo atrás dos usineiros. Não precisa correr mais que o leão, mas não pode estar no pelotão de trás da corrida, no grupo dos menos resilientes, que serão os primeiros que o leão vai comer.

Cuidar dos atributos que conferem elevado nível de resiliência a uma empresa do setor sucroenergético é obrigação de todo gestor competente. Custos, despesas, eficiência agrícola e operacional com bons níveis de produtividade, tecnologia adequada, foco na inovação, mão de obra qualificada, estrutura de capital adequada, gestão de risco, etc.

Agora vamos falar do momento atual que, sem dúvida, é muito grave. Assim como não temos no setor uma safra igual a outra, as crises também guardam, cada uma, suas peculiaridades e a atual vem com alguns ingredientes inéditos.

Em relação ao preço do açúcar, era previsível que uma hora viriam preços ruins após uma sequência de anos positivos. Triste ver que os níveis de fixação dos produtores brasileiros para as safras 26/27 e 27/28 estão muito baixos quando deveriam estar mais altos que em anos anteriores pelo momento do ciclo.

Esses preços que hoje flutuam em níveis de 14 cents estão muito abaixo do custo de produção dos principais países produtores. Não havendo artificialismos exagerados, é de se esperar que em duas safras haja ajuste na oferta trazendo os preços para níveis mais próximos de 20 cents. Sendo o Brasil o low coast produções, não demora muito nossas usinas, pelo menos no que tange ao açúcar, vão estar operando com níveis de rentabilidade satisfatório.

Já em relação ao etanol, “o buraco é bem mais embaixo”, pois o etanol de cana enfrenta hoje a costumeira competição com o fóssil gasolina, bastante competitiva em função do câmbio com real valorizado e petróleo em níveis comportados, apesar da volatilidade propiciada pela instabilidade geopolítica.

Mas, sem dúvida, a ameaça maior vem do etanol de milho, cuja indústria cresce a taxas assustadoras, já ocupando 27% do mercado e devendo chegar rapidamente a 50% do total. Estimamos que, nas condições atuais, na média o etanol de milho leve uma vantagem no custo de 80 centavos por litro. O maior limitante ao crescimento desta indústria é disponibilidade de biomassa, sendo essa uma grande vantagem das usinas flex que operam simultaneamente cana e milho e têm o bagaço da cana à disposição para gerar energia.

Acreditamos que, diante deste quadro, antes de acontecimentos que impliquem num aumento brusco de demanda com o combustível de aviação e o marítimo, o setor deverá, ano a ano, crescer seu mix açucareiro na medida que a demanda mundial apresenta ainda crescimento por volta de 1% ao ano, notadamente nos continentes asiático e africano, onde existe muito espaço para crescimento de renda per capita e consequente aumento de consumo de alimentos industrializados. Isto representa 1,5 ou 2,0 MM de toneladas a mais, sendo que o Brasil deverá atender a 70% desta demanda. Com isso, o etanol de cana terá seu papel diminuído tendendo a se tornar um subproduto mais ou menos como é o DDGs para o etanol de milho. 
 
Com certeza, passada a crise, veremos muito investimento em etanol de milho junto às plantas de etanol de cana principalmente no Centro-Oeste e no Triângulo Mineiro e posteriormente até no estado de São Paulo. Outro evento bastante promissor para o setor será o biometano na medida que o mandato previsto na Lei do Combustível do Futuro entre em vigor.

Concluindo, gostaria de reafirmar minha confiança no futuro do setor sem desprezar a importância desta crise que estamos passando, sendo que o que não pode acontecer é as empresas morrerem no meio do caminho. O grande empresário Jorge Gerdau dizia que nunca devemos desperdiçar uma crise, pois são momentos muito ricos para se voltar para dentro das empresas, com o modo sobrevivência ligado, e buscar atacar todos os pontos de ineficiência existentes. Podem acreditar que ainda existe muito mato alto a ser cortado.