A agropecuária brasileira é líder mundial na produção de combustíveis sólidos (lenha, carvão), líquidos (etanol, biodiesel), gasosos (biometano, biogás) e “energéticos” (cogeração de eletricidade). A agroenergia economiza combustíveis fósseis e industrializa o Brasil. E segue desconhecida e é até combatida em narrativas ambientalistas e agrárias.
A agroenergia é sinônimo de cultivos tropicais, de ciclos de produção longos (+250 dias). Quanto mais longo o ciclo, maior a insolação recebida, a transformação pela fotossíntese e o acúmulo em energia química, como em cultivos plurianuais de cana-de-açúcar, mamona, dendê, mandioca, etc.
Aqui, a pesquisa agropecuária, com novas tecnologias, mesmo em cultivos de ciclo curto, viabilizou duas colheitas anuais no mesmo local: soja na primavera/verão e o milho de segunda safra no verão/outono.
Isso amplia a produção de alimentos a humanos e animais (farelo de soja, farinhas de milho, DDG, óleos de soja e milho...) e de energia (biodiesel de soja e etanol de milho), num “ciclo longo” e virtuoso de produção (150 a 180 dias): duas colheitas por ano na mesma parcela de terra. Alimento e energia, sem conflito.
Em clima temperado (EUA e Europa), baixas temperaturas e pouca insolação no outono e inverno limitam a fotossíntese de 90 a 120 dias e a uma única colheita anual de cereais, beterraba, canola... São pouco eficientes, quando se avalia o consumo e a produção de energia em todo o ciclo.
Em 2025, o caráter estratégico da agroenergia no Brasil está retratado na matriz energética, conjunto de fontes de energia para suprir as demandas de eletricidade, aquecimento e transporte: 50% da matriz energética brasileira é renovável e a maior parte vem da agricultura (33,3%).
O uso de energias renováveis no Brasil é três vezes superior à média mundial (14,7%). Ou seja, 85% da energia consumida pela humanidade é fóssil e poluente. Se o planeta multiplicar por três suas fontes renováveis de energia (solar, eólica, hidráulica, biomassa...), não alcançará o Brasil.
Nos países da OCDE, a situação é pior. A proporção de energia renovável é inferior à média mundial: 12,6% (AIE). Quase 90% da energia nos países desenvolvidos é de origem fóssil, emissora de CO2 e gases poluentes.
A agropecuária garantiu um recorde de 33,3% da matriz energética brasileira ou 104,6 milhões de toneladas equivalentes de petróleo. Lideram a cana-de-açúcar, ao fornecer etanol para veículos, gás biometano e cogeração de energia elétrica com o bagaço (16,7%); as florestas energéticas (eucalipto) com lenha e carvão (8,5%); os óleos vegetais (soja e sebo de boi) no biodiesel e os resíduos agrícolas e florestais com licor preto, palha de arroz, cavacos, biogás... (8,1%) na geração de calor e energia elétrica.
Em 2024, a contribuição da cana-de-açúcar na matriz energética (16,7%) foi superior à de todas as hidroelétricas do País juntas (11,6%). Lenha e carvão vegetal são produzidos por florestas energéticas plantadas (eucalipto) e utilizados desde siderúrgicas de ferro gusa e aço verde, diversos usos industriais, domésticos até pizzarias.
As siderúrgicas são grandes consumidoras de carvão vegetal. Maior produtor mundial, o Brasil produz mais de 24 milhões de metros cúbicos. Substitutos do carvão mineral, lenha e carvão vegetal contribuíram com 8,5% na matriz energética, quase o dobro dos aportes das energias eólica (2,9%) e solar (2,2%) juntas.
No transporte, em 2025, o consumo de etanol no Brasil ultrapassou de 21 bilhões de litros. Além do etanol da cana-de-açúcar, o de milho não para de crescer: 8,2 bilhões de litros, um recorde para o setor. Para o ciclo 2025/26, a expectativa é de um aumento de 20%, capaz de superar 10 bilhões de litros.
O teor de etanol na gasolina passou de 27,5% para 30% (E30) desde agosto de 2025, por determinação do Conselho Nacional de Política Energética. O agro, pelo etanol ou sua adição à gasolina, contribui também para a melhoria da qualidade do ar nas aglomerações urbanas brasileiras.
Outro combustível renovável produzido pela agricultura é o biodiesel em uso nos ônibus, tratores e utilitários. As matérias-primas mais usadas são óleo de soja, gordura animal (sobretudo sebo bovino), em menor escala, outras oleaginosas (girassol, algodão, mamona e dendê) e óleos residuais.
O Brasil é um dos maiores produtores de biodiesel. Seu consumo crescente é favorecido pela adição deste combustível renovável ao diesel fóssil. A Lei Combustível do Futuro ampliou a demanda. Em 2025, o teor de biodiesel passou para 15% no diesel e chegará a 25% até 2035. Isso exigirá um volume de óleo de soja 296% superior ao utilizado em 2023.
Há 12 anos, a produção de biodiesel era de apenas 2,4 bilhões de litros. Em 2025, foram 9,6 bilhões de litros. A capacidade de esmagar soja da indústria passará para 72 milhões em 2027 e o processamento para mais de 11 mil toneladas/dia.
Serão realizados investimentos de R$ 52 bilhões em novas usinas e esmagadoras de soja. Muitos não se dão conta desse papel do agro no desenvolvimento industrial e no transporte de massa e carga. E ainda falam contra a cana, a soja e os bois em seus ilógicos discursos ecológicos!
Em 2024, biodiesel, licor negro e outros subprodutos da biomassa de uso energético agregaram 8,1% na matriz energética. Um valor superior, por exemplo, ao da participação do carvão mineral (4,5%).
Graças aos cultivos de ciclo longo, como a cana-de-açúcar, a eficiência da agroenergia é enorme. Para produzir 33,3% da oferta interna de energia, o setor agropecuário consome apenas 5,0% na matriz energética (diesel e eletricidade). O consumo de energia do agro é inferior ao de qualquer outro setor da economia. E esses setores não geram quase nada. Transporte é o maior consumidor: 33,2%; indústria, 31,7%; residências, 10,8%; e serviços, 5,3%. Até o setor energético tem consumo superior ao da agricultura, para gerar e distribuir energia: 8,5%.
A produção de etanol e biodiesel avança no Brasil com carros híbridos e hidrogênio verde. A médio prazo crescerá a participação do etanol na produção de combustível limpo de aviação, o SAF (Sustainable Aviation Fuel), e para navegação comercial (bunker fuel). Óleos vegetais estarão na produção de SAF, combustível naval e diesel verde (HVO).
A sociedade brasileira começa a descobrir essa dimensão da agricultura: gerar energia renovável, além de produzir alimentos e fibras. A agricultura e o setor florestal são máquinas movidas a energia solar, a não confundir com a energia fotovoltaica. A agropecuária tropical brasileira na produção e reciclagem (economia circular), com a cana-de-açúcar, é um exemplo de geração de energia limpa, verde e solar.
O papel estratégico do agronegócio na produção de energia renovável soma-se ao de alimentos e fibras. Paradoxo: a agroenergia é ignorada, criticada e até combatida, por dirigentes políticos e órgãos públicos federais, vocalizando ignorância e narrativas de ONGs ambientalistas locais e estrangeiras. Agricultores e pecuaristas brasileiros prosseguem em seus sonhos verdes e aguardam um projeto nacional e estratégico verdadeiro para o setor de agroenergia.