Coordenador do MBA em Agronegócio da FGV, Pesquisador do Observatório de Bioeconomia da FGVAgro e Diretor de Inteligência UNICA
Se alguém ainda trata a bioenergia como nicho, está equivocado. Um dado basta para recolocar o tema no centro do debate: cerca de 60% de toda a energia renovável consumida no Brasil tem origem na bioenergia produzida no campo, conforme demonstra a tabela em destaque. Quando a bioenergia avança ou enfrenta obstáculos, os impactos são sentidos em toda a matriz.
O Brasil chegou a esse patamar porque construiu, ao longo de décadas, uma combinação rara de vantagens competitivas: tecnologia, clima favorável, disponibilidade de terras, empreendedorismo no campo, políticas públicas, pesquisa e domínio da agricultura tropical. Foi assim que o País aprendeu a converter energia solar em biomassa com eficiência e escala incomparáveis. É a mesma base que nos transformou em potência exportadora de commodities agrícolas — e que, agora, sustenta um pilar central da matriz energética nacional.
Essa bioenergia não cabe em uma única “rota”. Ela está na cana e no milho transformados em etanol, bioeletricidade, biogás e biometano; na soja, no sebo e nos óleos vegetais que viabilizam o biodiesel; na lixívia (licor negro) que dá competitividade energética ao setor de papel e celulose; e na lenha e no carvão vegetal oriundos da silvicultura comercial, entre outras fontes. Esse conjunto retrata uma das principais virtudes desse sistema: diversidade e integração produtiva.
A evidência mais concreta dessa integração aparece fora do setor de transporte. Além da presença consolidada de etanol e biodiesel, a bioenergia do agro responde por cerca de 80% da energia usada na indústria de alimentos e bebidas, 70% em papel e celulose, quase 50% no setor de ferroligas e aproximadamente 40% em cerâmica, entre outros segmentos.
Sua influência, portanto, vai muito além de substituir combustíveis fósseis na bomba: ela se tornou parte estrutural da competitividade brasileira em atividades intensivas em calor e energia térmica.
PARTICIPAÇÃO DA BIOENERGIA NA OFERTA INTERNA DE ENERGIA NO BRASIL

No Brasil, a transição energética conecta o campo à engrenagem industrial de forma profunda — e ainda subestimada. Esse protagonismo, entretanto, não se consolida sozinho. Exigirá esforço proporcional ao tamanho do setor em um cenário de transformações institucionais, tecnológicas e geopolíticas.
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o País avançou mais do que costuma admitir quando o assunto é bioenergia. Houve ampliação de mandatos de mistura, racionalização do tratamento tributário dos biocombustíveis, consolidação das metas de descarbonização no transporte via RenovaBio, além do programa de estímulo ao biometano e da agenda de descarbonização do mercado de gás.
Soma-se a isso o programa de SAF para o mercado doméstico a partir de 2027, o marco regulatório do hidrogênio de baixo carbono e o MOVER, que reforça o uso de análise de ciclo de vida nas diretrizes da indústria automotiva. O problema é que política pública não vira consumo imediato no Diário Oficial. Parte relevante da demanda esperada irá acontecer com regulamentação correta, governança estável e tempo de maturação.
Nesse intervalo, cresce o risco de descompasso entre oferta e demanda. No etanol, por exemplo, a expansão da oferta doméstica precisa ser absorvida pelo mercado de combustíveis — especialmente quando o açúcar recua e pressiona o mix das usinas.
Algo semelhante ocorre com insumos proteicos: a ampliação da oferta de DDG/DDGS (Distillers Dried Grains and Distillers Dried Grains with Solubles - Grãos Secos de Destilaria e Grãos Secos de Destilaria com Solúveis) e de farelo de soja, associada respectivamente à expansão do etanol de milho e do biodiesel, exige coordenação para que novos volumes encontrem mercado sem destruir valor.
A bioenergia é um sistema híbrido que envolve agricultura, indústria, energia, clima e comércio exterior. Seu desafio não está na interconexão — aliás, essa é uma de suas maiores forças —, mas em gerir a complexidade: choques em alimentos, energia e políticas climáticas são transmitidos rapidamente, com efeitos em preços, margens e decisões de investimento.
Administrar essa engrenagem requer capacidade empresarial, estabilidade regulatória e coordenação institucional em um contexto internacional ambivalente. A escalada de disputas comerciais e geopolíticas — com tensões entre grandes economias, guerra tarifária, quotas e revisões de acordos — tende a aumentar a volatilidade dos mercados agrícolas e energéticos. Para um país cuja bioenergia nasce do agronegócio e se conecta às commodities globais, isso significa conviver com ciclos conjunturais de instabilidade que testam caixa, governança e resiliência.
Ainda no plano externo, o cenário político e econômico pode impactar, mesmo que temporariamente, a ambição de descarbonização — e, quando a pressão climática esfria, combustíveis renováveis costumam estar entre os primeiros a perder prioridade.
Ao mesmo tempo, países sem as condições tropicais e a escala brasileira tendem a erguer barreiras “climáticas” para proteger sua indústria doméstica, deslocando o debate do carbono para a política comercial.
A transição tecnológica também tem produzido ruídos que precisam ser evitados. No setor elétrico, por exemplo, a rápida expansão de solar e eólica elevou a intermitência e trouxe os cortes de geração (curtailment) para o centro do sistema, com desperdício de energia, custos adicionais de rede e necessidade de flexibilidade frequentemente socializados ao consumidor.
Na mobilidade, incentivos focados na tecnologia — e não no carbono evitado por quilômetro rodado — criam distorções: premia-se o rótulo e ignora-se o resultado. Em várias legislações, descontos de IPVA associados a uma tecnologia específica podem penalizar rotas com descarbonização efetiva em condições brasileiras, como híbridos a etanol, que apresentam desempenho superior a outras opções tidas mundialmente como referência, conforme o gráfico em destaque. Quando o incentivo premia o rótulo, o sistema pune a eficiência.
Em síntese, é preciso reconhecer e comemorar o progresso observado até aqui. O desafio agora é garantir que o avanço normativo vire demanda; que a oferta não chegue antes do mercado; que estímulos sejam calibrados por resultado climático; e que o Brasil transforme sua vantagem tropical em padrão reconhecido internacionalmente.
Em tempos de turbulência global e oscilações de commodities, isso exige arrojo para atravessar ciclos curtos — e convicção para manter o rumo de longo prazo.
EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA PARA DIFERENTES COMBUSTÍVEIS E
TECNOLOGIAS VEICULARES, EM GCO2 EQUIVALENTES POR QUILÔMETRO
(Azul: do Berço ao Portão -- Amarelo: do Poço à Roda)
