Em meio à tempestade provocada no mundo por Trump, o Brasil parece navegar, ilusoriamente, em mar de tranquilidade desde o ano passado. Depois dos ataques de Trump não se aprofundarem e, pelo contrário, terem feito uma inacreditável aproximação entre Lula e ele, vivemos um cenário em que o Brasil colhe o fruto de anos de trabalho do setor privado em suas bases mais fortes: as commodities.
Mas o dilema brasileiro é o de sempre: como continuar crescendo de forma robusta pela força das commodities, enquanto permanece com impeditivos claros na área fiscal. Os últimos dois anos têm sido um pouco o reflexo dessa dicotomia, com a economia crescendo, levando a mais demanda e, portanto, à inflação e aos juros, mas também o fiscal sendo um elemento relevante de pressão sobre os juros. A consequência para o setor agropecuário tem sido a ampliação da percepção de risco no crédito.
Essa percepção de risco ampliada, contudo, precisa ser lida em camadas. A inadimplência do crédito rural fechou 2025 em 6,5%, segundo dados consolidados pelo Banco Central (BC), um recorde da série histórica que se iniciou em 2011.
Nas operações contratadas a taxas de mercado, o quadro é ainda mais crítico: a inadimplência de pessoas físicas do agro encerrou o ano em 12%, contra 3,7% em 2024 e apenas 1,2% em 2023.
O salto é extraordinário, mas sua leitura exige uma ressalva importante. O próprio Banco Central reconhece, no Relatório de Política Monetária de dezembro de 2025, que a maior parte do aumento da inadimplência no Sistema Financeiro Nacional se deve "principalmente da mudança nas regras de contabilização, com a adoção do conceito de perda esperada", introduzido pela Resolução CMN 4.966.
No regime anterior, operações inadimplentes eram baixadas a prejuízo tipicamente após nove meses; agora, podem permanecer na carteira ativa por até 21 meses, a depender das garantias. Para o agronegócio, cujas operações frequentemente contam com garantias reais robustas, como terras, safras, equipamentos, esse efeito contábil tende a ser ainda mais pronunciado. Parte relevante do recorde de inadimplência é, portanto, um recorde de reclassificação.
Mas seria um erro parar nessa constatação. Os sinais de estresse real no financiamento do campo são muito claros. A concessão de crédito rural e agroindustrial caiu 16% no primeiro semestre de 2025, segundo o Boletim Agro da Serasa Experian: foram R$ 16 bilhões a menos que no mesmo período de 2024. Mais produtores buscaram crédito, com aumento de 11% nos contratos, porém com tíquete médio 22% menor: os bancos financiam mais gente, mas emprestam menos a cada um, num sinal claro de aumento na aversão ao risco das instituições financeiras.
No Banco do Brasil (BB), líder histórico do crédito rural, o impacto foi devastador: a inadimplência da carteira agro saltou de 2,2% no fim de 2024 para 6,1% em dezembro de 2025 levando a presidente do banco, Tarciana Medeiros, a afirmar que a inadimplência do agro havia crescido "em torno de 500% em relação à média histórica". A perda esperada da carteira rural atingiu R$ 39,1 bilhões, o que equivale a 9,6% do total, passando a responder por mais da metade de toda a provisão para devedores duvidosos do banco.
O lucro anual do BB caiu 45%, para R$ 20,7 bilhões, o menor desde 2020, e o Plano Safra 2025/2026, embora anunciado com valor recorde de R$ 516 bilhões, trouxe as maiores taxas de juros já praticadas no crédito rural subsidiado: o Pronamp subiu de 8% para 10%, e as linhas para grandes produtores saltaram de 10% para 14%, consequência direta de uma Selic a 15% que elevou o custo de equalização pelo Tesouro a um recorde estimado de R$ 58 bilhões, segundo estimativas do setor.
A consequência mais visível dessa confluência de fatores de juros elevados, queda de preços das commodities em relação ao ciclo 2020-2022, eventos climáticos severos e crédito mais caro e escasso é a explosão dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio. Segundo dados da Serasa Experian, o setor registrou 565 pedidos no segundo trimestre de 2025, alta de 32% em relação ao mesmo período do ano anterior e o maior número desde o início da série em 2021.
No quarto trimestre, havia 493 empresas do agro em recuperação judicial, aumento de 67% em 12 meses. O cultivo de soja lidera a crise, com 217 empresas nessa situação ao fim de 2025, mais do que o dobro de um ano antes. O índice de recuperação judicial da agropecuária alcançou 13,53 por mil empresas ativas, o mais alto de toda a economia, num setor onde a média nacional é de 2,13.
Pela primeira vez desde o fim de 2023, os produtores que atuam como pessoa jurídica, justamente os de maior porte, superaram os de pessoa física nos pedidos de proteção judicial, o que sugere que a crise ultrapassou o universo dos pequenos e atingiu operações estruturadas.
Diante desse cenário, o governo editou a MP 1.314/2025, que autorizou a renegociação de dívidas rurais, e o Banco do Brasil renegociou R$ 35,5 bilhões em 29 mil operações, dos quais R$ 32,2 bilhões em linhas a taxas livres. A medida provisória, no entanto, perdeu validade em fevereiro de 2026 sem ser votada pelo Congresso.
Um agravante estrutural torna o quadro ainda mais preocupante: o desmonte silencioso do seguro rural. A área segurada pelo seguro rural no País despencou de cerca de 14 milhões de hectares em 2023 para 7 milhões em 2024 — uma queda de 50%. Em 2025, a trajetória se aprofundou: o governo bloqueou 42% do orçamento do PSR, reduzindo os recursos efetivamente disponíveis de R$ 1,06 bilhão para R$ 565 milhões, e a área coberta recuou para 3,2 milhões de hectares, segundo dados do Atlas do Seguro Rural — a menor desde 2015 e equivalente a menos de 4% da área plantada com grãos no País.
Sem seguro, o risco climático recai integralmente sobre o produtor: uma safra perdida pode significar anos de endividamento, e é exatamente isso que se observa na escalada da inadimplência. Enquanto um novo modelo não se materializa ou novos recursos aparecem, o setor que mais contribui para o superávit comercial, para o crescimento do PIB e para a própria desinflação permanece financeiramente desprotegido, absorvendo o custo de uma política monetária que responde a desequilíbrios que não são seus, sem a rede de proteção mínima que qualquer grande economia agrícola oferece a seus produtores.
O dilema aqui se aprofunda quando lembramos que em uma crise fiscal como a que vivemos, faltarão recursos em várias frentes. A necessidade de ajuste fiscal para 2027 demandará que o Congresso e o Executivo olhem com atenção às diversas necessidades dos setores. Entretanto, em um momento em que se demandará um ajuste no crescimento do salário-mínimo na previdência e na diminuição dos mínimos de educação e saúde, que hoje estão indexados ao PIB, será difícil que esse ajuste acabe não tendo de pegar, de forma linear, diversos segmentos, inclusive a agropecuária.
A expectativa é que o ajuste fiscal, minimamente acontecendo, poderá levar o BC a uma queda mais consistente dos juros, o que ajudará na descompressão do setor. Entretanto, cabe atenção, pelo menos nos próximos dois anos, quando a estrutura de custos pressionados, com receitas menos exuberantes, demandará maior atenção do setor.