Como profissional do setor há mais de duas décadas, observo o Brasil com orgulho e inquietação. Orgulho de termos uma das matrizes mais renováveis do mundo. Inquietação ao ver um sistema com aparente sobreoferta de energia conviver com alertas crescentes sobre sua estabilidade. Como podemos ter tanto e estar tão vulneráveis?
A biomassa, como fonte geradora com despacho firme e geração síncrona, é um ativo estratégico cuja otimização é fundamental para a viabilidade econômica de uma matriz com crescente penetração de recursos variáveis como eólica e solar.
A crise de 2014-2015 permanece viva na memória do setor. O País à beira de um colapso energético. Os reservatórios do Sudeste abaixo de 20%. E foi o setor sucroenergético que respondeu com energia firme, injetada na rede no momento exato da necessidade.
1. LINHA DO TEMPO DA BIOMASSA
2. CURTAILMENT E CONSTRAINED-OFF
3. COMPLEMENTARIDADE ENTRE CICLOS HIDROLÓGICOS E GERAÇÃO DE BIOMASSA

Durante a crise, a geração de biomassa cresceu 23% em 2014 e 6% em 2015, atingindo picos de 4.061 MW em agosto, período que coincide com o pico de escassez das hidrelétricas. Uma história de resiliência que parece ter sido esquecida.
Hoje, o desperdício tem nome técnico: curtailment (corte deliberado quando o sistema não absorve a energia) e constrained-off (restrição operativa por gargalos na rede). Em 2025, aproximadamente 20% da geração eólica e solar foi descartada, representando prejuízo econômico de R$ 6,5 bilhões.
Em resposta, a ANEEL e o ONS implementaram um plano emergencial que restringe usinas de biomassa em períodos de carga mínima, buscando mitigar riscos da geração distribuída descontrolada. Contudo, a solução penaliza o ativo mais controlável. Essa ineficiência reflete uma arquitetura de mercado que não remunera adequadamente os serviços ancilares necessários para integrar recursos variáveis. O problema é duplo e estrutural.
A primeira frente é a concentração geográfica de grandes usinas eólicas e solares no Nordeste, distante dos principais centros de carga (Sudeste e Sul), que gera excedentes massivos em períodos de alta disponibilidade. A segunda frente é a expansão não regulada de geração distribuída sem mecanismos adequados de controle de frequência e tensão.
O cenário crítico emerge quando fatores de demanda se alinham desfavoravelmente: feriados prolongados, dias ensolarados com temperatura fria, domingos e períodos de baixa atividade econômica. Quando essas condições coincidem com alta geração eólica ou solar, a carga líquida do sistema atinge níveis críticos, acionando um plano emergencial de restrição.
Nessas situações, o risco não é apenas o desperdício de energia, mas potenciais desligamentos programados de usinas de biomassa, reduzindo a inércia síncrona disponível exatamente quando o sistema está mais frágil.
A causa fundamental do problema é frequentemente negligenciada. A falta de crescimento econômico sustentado reduz o consumo de energia, perpetuando a condição de carga mínima. Crescimento econômico é condição necessária mas não suficiente: mitiga o problema de demanda mínima, mas não resolve o risco estrutural de regime hídrico baixo.
A contradição fundamental do plano emergencial é evidente: restringe a biomassa, que é controlável e fornece inércia síncrona, enquanto a geração distribuída permanece sem controle. O despacho da ANEEL autoriza restrições, mas não resolve o problema estrutural. Enquanto reguladores e operadores buscam soluções, a verdadeira causa raiz continua negligenciada.
No Centro-Sul, região de maior densidade econômica, encontra-se concentrada 90% da capacidade instalada em biomassa (18 GW), aglutinando geração e demanda. Este atributo geográfico reduz perdas de transmissão e aumenta a eficiência alocativa.
A biomassa oferece dois atributos complementares: geração síncrona que fornece inércia natural; e complementaridade hidrológica, com o setor de celulose oferecendo geração contínua durante todo o ano e o setor sucroenergético concentrando a safra no período seco (abril a novembro), quando os reservatórios de água atingem níveis críticos.
A biomassa é mais que energia. É estabilidade. É a inércia rotacional que protege o sistema de um colapso em cascata. É o controle de frequência e tensão que mantém os parâmetros operacionais dentro de limites seguros. É soberania. Cada parafuso, cada turbina, cada emprego, é nosso. O argumento central não é a substituição de fontes intermitentes por biomassa, mas a otimização econômica de um portfólio diversificado. Eólica e solar reduziram significativamente o custo marginal da energia.
Contudo, a integração eficiente desses recursos requer investimentos crescentes em infraestrutura de transmissão, armazenamento e serviços ancilares. A biomassa, ao fornecer esses serviços de forma integrada e locacional, reduz o custo total de operação do sistema.
Evidência empírica: em 2025, mercados europeus com alta penetração de intermitentes (Espanha: 500 horas com preços negativos; Alemanha: 573 horas; Bélgica: preços atingindo €462/MWh) enfrentam custos crescentes de geração intermitente. Estes custos refletem a ineficiência de um sistema sem adequada remuneração de capacidade.
Para viabilizar a biomassa no longo prazo, é necessária uma reforma no desenho de mercado que separe explicitamente a remuneração de energia focando a potência disponível destes empreendimentos. Leilões de capacidade remuneram a disponibilidade de geração, garantindo viabilidade econômica. Separação de serviços ancilares permite precificar inércia, controle de frequência e tensão, criando receita adicional para geradores síncronos.
As medidas necessárias incluem: igualdade de tratamento para geração distribuída (seguir as mesmas restrições das usinas com modalidade operativa Tipo III), suspensão de novas outorgas e autorização de novas operações em regiões críticas, reenquadramento de usinas de biomassa como despacháveis firmes, e reforma do desenho de mercado com leilões de capacidade.
O Brasil possui uma oportunidade histórica de demonstrar que é possível conciliar descarbonização com confiabilidade operativa através de uma matriz energética verdadeiramente integrada.
Não se trata de escolher entre eólica, solar ou biomassa, mas de otimizar o portfólio para que cada fonte contribua com seus atributos específicos. A biomassa não é um resquício do passado, mas um ativo estratégico para o futuro.
A pergunta que se coloca aos reguladores, operadores e investidores é fundamental: construiremos um desenho de mercado que remunera explicitamente os atributos técnicos necessários à confiabilidade, ou continuaremos a subsidiar implicitamente a integração de recursos variáveis através de custos ocultos de operação e investimento em infraestrutura, ao mesmo tempo em que restringimos o ativo que mais contribui para a segurança sistêmica?
A resposta determinará se o Brasil liderará uma transição energética verdadeiramente sustentável ou continuará a reagir a crises com soluções emergenciais.
PARADOXO ENERGÉTICO (O CONTRASENSO ENERGÉTICO e A SOLUÇÃO ESTRUTURAL)