Sizuo Matsuoka

Cientista da Vignis

Op-AA-060

Um sério olhar para o futuro
Terminada mais uma safra, vem a decepcionante constatação: produziu-se menos do que na safra anterior. Mas, qual safra? Já há várias safras que se repete tal fato. Essa regressão ocorre não apenas no total de cana moída, mas também na produtividade. Nesse quesito, lembrou um analista, estamos ao nível do início do Proálcool, ou seja, de 40 anos atrás. E o pior é que o custo de produção vem aumentando ano a ano. E os analistas apontam que, para que a atividade seja remunerada positivamente nesse atual patamar de custo, seria preciso aumentar a produtividade em 12 t a 14 tpor hectare, pelo menos. Mesmo assim, se estará abaixo da meta de produtividade de três dígitos almejado por muitos. 
 
O que fazer? Obviamente que todos estão dando o melhor de si para suplantar esse óbice e sempre esbarram num obstáculo comum: a variedade. Sem ela não há melhoria agronômica que possa resolver. E, então, muitos esperam pela variedade milagrosa que possa trazer o tão almejado salto em produtividade. Pragmaticamente, os milagres não acontecem. 
 
No caso, a questão é genética, como tivemos oportunidade de analisar nesta mesma revista há cinco anos (nº 40, de abr-jun de 2014, p. 48-49) e, para não ser repetitivo, vamos desenvolver o tema mais genericamente, enfocando o princípio que rege a produtividade das variedades. Então, as variedades de cana são as reais culpadas? 
 
Absolutamente. Elas são boas. Os especialistas em irrigação que o digam. Quando adequadamente irrigadas, sob condições de solo e irradiação apropriadas, elas produzem mais do que o triplo da média em situação de sequeiro, este que é a maioria da cana produzida no Brasil, ou seja, chegam muito próximo ao potencial teórico da espécie. Eureca! Então a culpada é a seca.

Sim, mas a seca é apenas uma delas, ainda que possa ser a mais significativa, na maioria das vezes. Porém há outros culpados, como sempre os analistas reconhecem. Todos esses réus atuam, na verdade, integrados e não isoladamente e se constituem os chamados estressores, aqueles que causam estresse. Sim, as variedades, como qualquer ser vivo, sofrem estresses.

Todo agrônomo aprende nos bancos escolares que, no processo de melhoramento genético, os candidatos à variedade são submetidos a testes em variados ambientes, e anos, para se determinar sua adaptabilidade aos ambientes específicos e sua estabilidade em diferentes anos, justamente porque os fatores ambientais mudam de local para local e de ano para ano no mesmo local, ou seja, essas variações causam estresses em diferentes níveis.

Aqueles que mostrarem melhor desempenho naquelas condições são os que têm melhor adaptabilidade e melhor estabilidade, ou seja, maior resiliência. Resiliência significa a capacidade que tem um ser, ou material, ou sistema, em retornar total ou parcialmente ao seu estado anterior após sofrer um estresse qualquer, a seca sendo um caso recorrente e chamativo; em casos extremos, não há volta. 
 
No caso da seca, todos sabem que as variedades se diferenciam entre si quanto ao seu efeito, tanto em duração como em intensidade e, ainda, se diferenciam na capacidade de recuperação. Em suma, elas se diferenciam em níveis de resiliência. Em um século de melhoramento genético, se estabeleceu um paradigma de dualidade de características: baixo teor de fibra e alto conteúdo de sacarose.

Em grande medida, essas duas características são antagônicas, ou seja, a fibra é necessária para dar maior resiliência, contrariamente à sacarose, que traz consigo os genes de menor resiliência. No equilíbrio entre fibra e sacarose que se quer das variedades (entre 10% e 12% de fibra e mais de 14% se sacarose, a grosso modo), limita-se muito a resiliência e, consequentemente, a produtividade em condições de sequeiro. Tirando-se a trava da fibra, ou seja, aceitando-se teores de fibra acima de 15%, é possível se ter variedades com maior resiliência, maior teor, maior resiliência, genericamente falando, podendo-se chegar acima de 25% de fibra; nesse caso, com teor de sacarose insignificante. 
 
Intrinsicamente, o que regula o teor de fibra é a participação do genoma de espécies selvagens de Saccharum, especialmente de S. spontaneum, uma espécie que, na natureza, evoluiu enfrentando todo tipo de estresse, tanto de regime hídrico, de clima, de solo, etc. Nas variedades de cana-de-açúcar, a participação relativa é de cerca de 80% de genoma de S. officinarum, a espécie sacarina, de baixa fibra, e 20% de S. spontaneum, a espécie fibrosa, mais rústica, ou seja, mais resiliente. Em variedades de cana, pequenas variações nesses teores, dentro daqueles limites estabelecidos, é que conduz às variações de resiliência que se observa na prática. 
 
Porém, para romper o patamar de produtividade a que se chegou nas variedades convencionais (não apenas no Brasil, mas no mundo todo), não basta aquelas pequenas variações, é preciso aumentar significativamente a resiliência. Não há outro recurso. E fazer isso é relativamente fácil: não é promessa para futuros 10 ou mais anos, a tecnologia já está disponível no melhoramento genético convencional. E, porque ele é corriqueiro, não se dá o devido valor.  Em qualquer sociedade, quebrar um paradigma centenário é sempre muito difícil.  Arraigou-se o conceito de que o bom é o baixo teor de fibra, e quebrar esse paradigma requer banir o conservadorismo, ou seja, requer um espírito revolucionário, inovador.
 
Embora a cana-de-açúcar, como a própria denominação aponta, sempre foi explorada pela sacarose que ela produz, não é de hoje que a fibra tem mostrado seu valor como gerador de energia, tornando as indústrias sucroalcooleiras autossuficientes em energia térmica e elétrica e até gerando excedente elétrico para injetar na rede pública. Aliás, o setor tem dado exemplar contribuição ao esforço nacional e internacional de mitigação dos gases de efeito estufa com a geração de energia através do bagaço como suplemento à energia renovável, o etanol.

Mas pode dar muito mais. Com variedades de mais alto teor de fibra, será possível mais do que duplicar a capacidade geradora de eletricidade e, ainda, contribuir para, definitivamente, viabilizar a produção de etanol de segunda geração (E2G), porque haverá muito mais bagaço à disposição e, inclusive, folhas, com esse novo tipo de cana. Convencionou-se chamar esse novo tipo de cana de cana energia, justamente porque, energeticamente falando, se tem mais energia final por unidade de área, considerando todas as diferentes formas de energia que ela fornece, além da energia alimentar. 
 
Em verdade, é uma cana multiuso, como também se tem nomeado. Aqui, há necessidade de se fazer uma ressalva. Criou-se a ideia de que a cana energia tem muito baixo teor de sacarose, imprestável mesmo para se fazer etanol. Isso não é verdade. Através do melhoramento genético, tem sido possível criar variedades que têm, no mínimo, 100 de ATR, mantendo as outras características conhecidas da cana energia.

Essas variedades permitem rendimento de etanol de primeira geração (E1G) por área até maior do que as variedades convencionais, além da já mencionada maior produção de bagaço. Melhor ainda, e isso é surpresa para todos, já foram criadas novas gerações que têm ATR comparável ao das variedades convencionais, com teor de fibra relativamente elevado. Estas certamente serão as primeiras variedades desse novo tipo de cana a abrirem a cancela dessa grande avenida da inovação que está para acontecer. 
 
Se a cana-de-açúcar é considerada uma grande contribuinte ao esforço mundial de mudança de paradigma da civilização do petróleo para uma ambientalmente mais sustentável, a cana energia pode aumentar ainda mais essa contribuição. Nessa nova forma, ela acrescentará não somente mais combustível líquido renovável e mais energia térmica e elétrica, como também inúmeros outros produtos e subprodutos a partir de outras substâncias químicas produzidas diretamente pela planta, ou indiretamente por transformações laboratoriais dos produtos básicos, como o exemplo concreto do plástico biodegradável, o biogás, enfim, abrir a porta da alcoolquímica, sem falar em produtos para a química fina, em fármacos, etc.

Enfim, a grande revolução será mesmo as indústrias sucroalcooleiras se transformarem em biorrefinarias, tão grandiosas como são as petrolíferas, porém descentralizadas, o que traz vantagens econômica, estratégica e social. É um sério olhar para o futuro, como me expressei naquele artigo. A decisão está com o setor − e urge.