Manoel Pereira de Queiroz

Gerente Sênior de Relacionamento do Rabobank

Op-AA-58

Ainda teremos que esperar
No início do ano, em espaço na Revista Opiniões, fazendo o disclaimer usual do quanto é difícil fazer qualquer previsão sobre o futuro do setor sucroenergético, listei quatro pontos que considero fundamentais para a retomada do crescimento da produção do lado da oferta. A saber: 
 
1. Existência de uma política clara para o setor  de energia, com um marco regulatório bem definido; 
2. Reconhecimento das externalidades dos biocombustíveis; 
3. Investimento em pesquisa e em desenvolvimento de tecnologias disruptivas que reduzam custos e aumentem a produtividade; 
4. Capacidade financeira para investir. 
 
Ainda no mesmo texto, opinei que os três primeiros pontos estavam relativamente bem endereçados, mas que o último estava longe de ser resolvido. Citei, no mesmo artigo, que enxergávamos uma consolidação silenciosa no setor, pois, apesar do número de unidades industriais paradas (93, segundo levantamento recente da RPA Consultoria), a produção não decresceu e estabilizou-se ao redor de 600 milhões de toneladas por ano nas últimas 5 safras.

Nossa opinião não mudou no que tange aos 4 pontos citados, mas mudou em relação à continuidade da consolidação silenciosa, infelizmente para pior. Tentarei expor por que acreditamos que o setor sucroenergético no Brasil irá encolher antes de viver um novo ciclo de investimentos e consequente crescimento, em que pese o entusiasmo de alguns com a mudança de governo.
 
A primeira coisa a termos em mente é que o setor é altamente heterogêneo. Tanto do ponto de vista de dados operacionais, quanto do ponto de vista financeiro, média nesse setor significa muito pouca coisa. Há no setor empresas muito bem posicionadas, com ótima estrutura de capital, baixo endividamento e excelente liquidez, para ficar em apenas três pontos que olhamos para avaliar a saúde financeira das companhias. Essas são as empresas que cresceram nos últimos anos, a maioria delas através de investimentos marginais, absorvendo a cana das unidades que pararam ou diminuíram sua moagem. 
 
Essas empresas são as que se encontram no que chamamos de círculo virtuoso: tem boa liquidez, dívida sob controle e boa estrutura de capital; consequentemente, têm abundância de oferta de crédito longo e barato e conseguem, com isso, manter-se em dia com a renovação dos canaviais e tratos culturais, mantendo um canavial novo e produtivo, obtendo, consequentemente, uma forte geração de caixa ano a ano, que permite que ela ou invista ou diminua dívida e aumente a liquidez, obtendo, assim, para fechar o ciclo, crédito mais abundante e mais barato. 
 
No outro extremo, as empresas que entraram em um círculo vicioso: tem baixa liquidez, alto endividamento e estrutura de capital inadequada. Essas, por apresentarem maior risco aos financiadores, só têm acesso a crédito caro e limitado, não conseguem ter caixa suficiente para investir na proporção de que gostariam, ficando com o canavial mais velho e menos produtivo ano a ano, o que afeta sua capacidade de gerar caixa e, consequentemente, de reinvestir e diminuir dívida e assim por diante.
 
Ao longo dos anos, observamos que algumas empresas, por algum erro estratégico ou má gestão financeira, passaram do círculo virtuoso para o círculo vicioso, mas, infelizmente, não observamos nenhum caso em que tenha ocorrido o oposto. 
 
Temos observado também, nesse período, aumentar o gap entre as empresas virtuosas e as empresas viciosas. As empresas que se encontram no círculo virtuoso são, em sua grande maioria, empresas familiares, de porte médio, conservadoras na gestão financeira e, portanto, com potencial limitado para expansão significativa. 
 
Observamos também que essas empresas têm preferido investir prioritariamente em melhoria de eficiência ao invés de expansão de canavial. Resumindo, acreditamos que o potencial de diminuição de moagem por parte das empresas em dificuldade é maior que o potencial de expansão das empresas em boas condições.
 
Uma solução sempre lembrada para as empresas que se encontram em dificuldade é a saída via operações de fusão e aquisição, utilizada com sucesso após a crise de 2008. Naquela época, no entanto, havia um grande número de empresas estrangeiras, sobretudo do setor de petróleo e de trading, interessadas em adquirir os ativos de açúcar e etanol. Passados 10 anos, o tempo mostrou a esses novos entrantes que a gestão, sobretudo agrícola, era muito mais complexa do que eles imaginavam. 
 
Hoje, grande parte deles está mais interessado em sair do setor do que crescer, e outros novos eventuais interessados vão levar em conta essa experiência negativa antes de se decidirem por um investimento desse porte. Fato é que, hoje, com boa parte das empresas em dificuldades, o mercado é muito mais vendedor que comprador. 
 
Há mais de uma dúzia de mandatos de venda nas áreas de fusões e aquisições dos bancos, mandatos esses que já estão contratados há mais de 2 anos, sem que nenhum deles tenha resultado em uma operação efetivada. Houve somente uma operação de aquisição em 2018 e apenas 3 em 2017, sendo que, dessas quatro, três foram aquisições de unidades produtoras independentes (UPIs), ou seja, ativos comprados através de leilão em processos de recuperação judicial ou falência.
 
Há ações que o governo possa tomar para mudar essa realidade e permitir a retomada de investimentos? No curto e no médio prazo, não, entretanto, no longo prazo, acreditamos que talvez. A primeira ação importante seria manter a política de reajustes da gasolina de acordo com a variação dos preços do mercado internacional. 
 
A segunda, não menos importante, é realizar reformas que resolvam nosso problema fiscal, simplifiquem e estimulem o ambiente de negócios no País e incentivem a concorrência. 
 
Em terceiro lugar, definir e implementar uma política energética de longo prazo clara e que reconheça as externalidades dos biocombustíveis (aqui entra como parte o RenovaBio). Em quarto lugar, combater duramente, via OMC, subsídios e barreiras ao açúcar no mercado internacional. 
 
Enfim, pelos pontos acima expostos, infelizmente não enxergamos, no futuro próximo, uma retomada de crescimento no setor, mas sim uma provável retração estrutural. Por outro lado, olhando mais à frente, o amadurecimento de novas tecnologias que vêm sendo desenvolvidas, aliado a uma eventual melhoria das condições econômicas e de um melhor ambiente de negócios, pode servir de estímulo para que esse crescimento possa ser retomado.