Edelclaiton Daros

Professor Titular do Dpto de Fitotecnia e Fitossanidade da UF-PR, Ex-Coordenador do PMGCA/UFPR/RIDESA e da RIDESA

Op-AA-060

A modernidade está agora nos anos 1970
O título de um artigo deve chamar atenção, caso contrário todo o seu esforço pode não valer nada. Isto é o que, nos 22 anos de orientações de mestrado e doutorado, meus orientados sabiam que seriam cobrados. Inicialmente, procurei o significado da palavra  “moderno”. O dicionário diz que é o que pertence ao tempo presente, atual, que tem pouco tempo. O sinônimo cita: novo, recente, atual e sofisticado. Para fazer o contraponto, cito o antônimo que diz que é o velho, conservador, antigo e antiquado. 
 
A partir dessas contestações, confesso que fiquei confuso, pois, quando recebi o convite para escrever sobre o que é moderno na área agrícola do sistema sucroenergético, tinha em mente uma linha de pensamento, no que estava se fazendo de moderno, na produção de cana-de-açúcar, dentro das diferentes etapas, desde o seu plantio até a sua colheita, identificando o que de moderno foi aplicado no aumento da produção e como consequência na redução de custos. 
 
Comecei a listar o que de moderno estava sendo feito nas lavouras de cana-de-açúcar e verifiquei que o cenário para a palavra moderno, estava mais representativo, de fato, para o seu antônimo, ou seja, o velho, o antigo. Muito bem, para se ser atual e recente, é necessária muita pesquisa, conhecimento e comprovação adequada, que é exatamente o que nós não temos hoje na cultura da cana-de-açúcar. 
 
Gostaria de lembrar que o grande avanço da cultura da cana-de-açúcar, no País se deve grandemente a duas instituições, a Copersucar e o Planalsucar, que, nas décadas de 1970, 1980 e 1990, consolidaram a pesquisa com a cultura no Brasil e com grande contribuição mundial, consolidando o setor no País.

Infelizmente, este País com memória curta e sem reconhecimento, deixou que elas fossem extintas na década de 1990 (Planalsucar), e a Copersucar, com grande dificuldade financeira, transforma em CTC, em 2003. Os prejuízos não foram maiores devido à abnegação de alguns pesquisadores e, no caso específico do Planalsucar, à absorção de todo o seu acervo pelas universidades federais, criando a Ridesa. 
 
Portanto, em nível de País, não temos mais uma instituição com a responsabilidade de gerar pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar, extremamente representativa com relação ao aporte de divisas, alternando entre o terceiro e o quarto lugar de importância. O que temos de pesquisa são trabalhos esparsos por instituições e universidades, pontuais e específicos, dentro de uma determinada região, com artigos, teses e dissertações. “O que se ouve muito no setor e ouvi em vários momentos a expressão:” o setor precisa ter juízo”. 
 
Notem que, até o presente momento, ainda não entrei no “moderno”, como ação para aumento da produtividade e diminuição de custo. Os ganhos que se conseguiram com o moderno, na realidade é uma implantação de ações e técnicas, que, pelo conceito, é, de fato, velho e antiquado. 
 
Vamos ao “moderno” plantio de mudas e não de cana-de-açúcar, portanto a volta do tratamento térmico, o uso de técnicas de propagação gema a gema, hoje denominado no mercado de MPB (mudas pré-brotadas); a racionalidade do plantio de meiosi, amplamente estudado, está de volta como novas técnicas de plantio, enfim, poderia ficar citando uma série de coisas “modernas”, que estão sendo implantadas. 
 
Na realidade, o que está faltando é leitura, lembrem que as duas instituições citadas deixaram muito material escrito, basta ir buscar a informação e adaptá-la a sua situação ou talvez promover modificações, aí talvez pode ser que você se aproxime do “moderno”. Merece uma reflexão os porquês de deixarem todo esse acervo para trás, sabendo que, para frente, não teremos mais instituições com aquele porte para realizar a pesquisa que o setor precisa e merece. 
 
Neste momento, está havendo no setor muito ruído com relação às técnicas de manejo, novas nomenclaturas sendo usadas, uma nova roupagem; se isso é “moderno”, como dizia um personagem deitado em uma cama de hospital, ”por favor, tire o tubo”, do grande humorista Jô Soares. Reparem em tudo isso que estão dizendo que é “moderno”; ainda estamos com dificuldade de aumento de produtividade, e agora merece nova reflexão o porquê de não estamos conseguindo aumentos de produtividade. 
 
Tem-se à disposição das unidades do setor um grande elenco de variedades e, portanto não é falta, nos parece que todas têm grande potencial, que não tem sido expresso a campo nas unidades, é agora, é motivo de nova reflexão para o setor. O grande investimento que o setor faz nas instituições pública federal (Ridesa) e estadual (IAC) e na obtenção de variedades, como se o problema da baixa produtividade fosse causado pela variedade. 
 
Nesse aspecto, gostaria de comentar a nomenclatura de variedades “modernas” e variedades “antigas”, ao cúmulo de influenciar até no financiamento agrícola menor nas variedades “antigas”, para uso maior das variedades “modernas” mais produtivas; só no papel, não no campo. 
 
Justifica-se sem conhecimento da região, por meio de um censo varietal, cuja baixa produtividade no estado do Paraná é causada pelo uso de variedades antigas, sem conhecer os problemas do estado. A que ponto se chegou, meus amigos, precisamos ter um pouco de modernidade até para falar. 
 
Com relação à questão de variedades, estou também sugerindo uma nova nomenclatura para ser analisada pelo setor. Prefiro classificar e sugerir a nomenclatura de "variedade funcional". Ao verificarmos a teoria geral dos sistemas, veio quebrando paradigmas de simplicidade, estabilidade e objetividade, colocando pressupostos de complexidade, instabilidade e intersubjetividade, constituindo em uma visão sistêmica.

O conceito de sistema se refere ao modo como acontecem as relações ou as conexões entre os diversos componentes de produção e as relações dentro deles. Não existe variedade moderna ou antiga. Existe, sim, um ambiente e um manejo adequado para que a variedade possa se desenvolver funcionalmente, isto é, cumpra a sua função, de se adaptar, ser estável, resistir às doenças e pragas, aos estresses ambientais presentes todos os anos e ainda ser produtiva. 
 
Cabe às unidades e ao seus corpos técnicos perceberem se a variedade é funcional e aprender o manejo dentro da unidade, nos seus ambientes de solo, de clima e de produção. Com certeza, cada unidade produtora tem e terá as suas variedades funcionais, que é o que tem garantido a sustentabilidade da unidade.
 
O desafio proposto é que cada unidade, dentro do seu manejo, identifique, conheça e execute o plantio e o manejo de suas variedades funcionais, trazendo segurança e estabilidade a essa produção agrícola da unidade. Observem como pega essas “modernas” invenções, mais de palavras do que de resposta no campo, influencia-se todo um setor, com qual finalidade, para quem, quem tem ganho, quem leva vantagem. 
 
Não poderia, como professor, ficar só no contraditório do que estou vendo no setor, portanto novamente insisto em uma proposta para o setor, que, com certeza, depois de alguns anos, poderá escrever sobre a modernidade do setor. Volto a insistir, precisamos ter juízo e rever a pesquisa no País, com programas em todas as áreas de conhecimento, com instituições trabalhando junto em suas competências, para tentarmos resolver os problemas do setor e não das instituições. 
 
Se começarmos agora, talvez, em dez anos, tenhamos alguma resposta. Precisamos urgentemente estabelecer um programa a nível nacional em todas as áreas de pesquisa, para que possamos dar segurança a esse setor e ao País. Esse é o nosso desafio, nas universidades e nas instituições de pesquisa, há competência para encaminhar uma solução dos problemas e auxiliar a consolidação efetiva do setor sucroalcooleiro no País, produzindo mais, melhor e, como consequência, com menor custo. 
 
Porém quem financia a pesquisa é o setor sucroenergético, e este também precisa repensar as suas prioridades e seus investimentos em pesquisas, pois só variedade não resolve o problema de produzir mais, melhor e com menor custo. Assim, com esse espírito, por que não reunir todas as instituições de pesquisa e de produção e fazer um programa nacional de pesquisa com a cultura da cana-de-açúcar, preservando as suas competências?

O desafio está lançado. Gosto muito de uma frase de uma música de Chico Anísio, que diz “Não há considerações gerais a fazer, está tudo aí para quem quiser ver”