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Miguel Angelo Mutton

Professor do Departamento de Produção Vegetal da Unesp

Op-AA-05

Maturação e maturadores

A cana-de-açúcar é uma das espécies vegetais cultivadas que apresenta maior eficiência fotossintética, o que determina sua produtividade agrícola de modo quantitativo (toneladas de colmos/ha), bem como qualitativo (percentagem de açúcares). Quanto ao seu desenvolvimento, a planta caracteriza-se por apresentar uma forma de crescimento bimodal, seguindo uma curva sigmóide característica, onde três estádios bem distintos podem ser identificados:

Estádio inicial de crescimento lento, que ocorre após o plantio da cultura ou do rebrote, após corte realizado por ocasião da colheita;
Estádio de crescimento intenso, que determina grande percentagem da sua produtividade quantitativa, que coincide com as condições de temperatura, precipitação e luminosidade mais adequadas e favoráveis à atividade fotossintética;
Estádio final de desenvolvimento em que a taxa de acúmulo de matéria seca da planta é novamente lenta, que coincide com condições climáticas restritivas ao crescimento, porém, fase em que há uma intensificação na taxa de armazenamento e acúmulo da sacarose nos internódios do colmo. Este estádio é definido como de maturação da cultura, onde a produtividade qualitativa define-se.

No estádio de maturação interferem vários fatores como os de natureza genética (variedades), ambiental (temperatura, precipitação, estresse hídrico, etc) e de manejo da cultura (ciclo, idade, adubação, irrigação, dentre outros). A maioria das regiões canavieiras do Brasil apresenta condições favoráveis e satisfatórias ao amadurecimento natural da cultura.

Entretanto, o início da safra mais precocemente, significa realizar a colheita de uma planta com maturação natural deficiente (mesmo com variedades de maturação precoce), uma vez que as condições ambientais reinantes ainda são mais favoráveis ao crescimento do que ao acúmulo de sacarose nos colmos. Assim, esta situação leva a um pior resultado econômico, tanto na fase agrícola como na industrial.

Uma das tecnologias utilizadas que permitem induzir a maturação artificialmente é a utilização de produtos químicos denominados maturadores, que são aplicados nos períodos em que a maturação natural é deficiente, quer pela disponibilidade de variedades, quer pelas condições edafoclimáticas predominantes, quer pela época estabelecida para início do seu processamento industrial.

Esta tecnologia é empregada comercialmente há vários anos nos mais variados países, tendo se intensificado no Brasil, a partir do final da década de setenta e inicio da de oitenta, quando também se ampliou a disponibilidade de produtos para tal finalidade. As respostas observadas da interação entre produto empregado, variedade, época de aplicação e condição edafoclimática caracterizam a potencialidade de emprego, que apresentam melhor adaptabilidade às especificidades de cada empresa agrícola.

A eficiência na utilização de cada maturador depende do adequado conhecimento do efeito de cada molécula no processo fisiológico da cultura. Via de regra, os produtos empregados interferem em maior ou menor intensidade na partição dos fotoassimilados pela planta, direcionando-os mais para armazenamento/acúmulo de sacarose nos colmos do que para formação de estruturas de crescimento. Para o emprego adequado de um maturador deve-se avaliar se o mesmo apresenta algumas características como:

 

  • Boa regularidade de respostas e amplitude de efeito nas variedades;
  • Boa magnitude e manutenção de efeitos na qualidade e na valorização da matéria prima e/ou no aproveitamento industrial, sem ocorrência de deteriorações no período indicado como seguro para processamento;
  • Favorecimento do processo de colheita, quer pela melhor eretabilidade dos colmos, ou por propiciar desponte mais alto, ou promover menor nível de impurezas vegetais, ou resultar em maior peso de colmos e/ou maior quantidade de açúcar transportado por carga;
  • Bom retorno econômico agrícola e agro-industrial, com boa relação custo/benefício;
  • Efeito residual no ciclo seguinte, neutro ou positivo na brotação, enraizamento, perfilhamento, crescimento e produtividade;
  • Menor impacto ambiental.

Uma outra situação que se tem empregado os maturadores é no final do período de safra, quando ocorrem condições climáticas que promovem a retomada do crescimento da cultura e conseqüente redução na concentração de açúcares. Nesta condição, estes produtos têm a função de restringir este crescimento dos colmos, desse modo, impedem a queda natural, que ocorreria nos níveis de sacarose, mantendo por um maior período os colmos, com valores mais elevados.

Assim, mantendo a qualidade da matéria prima a ser industrializada, mantém os benefícios agroindustriais alcançados. Dentro destes enfoques, os maturadores químicos tem se caracterizado como importantes aliados no planejamento da colheita, principalmente, no início da safra, objetivando maximizar a produtividade qualitativa e antecipar a colheita e manter a qualidade da matéria prima, no final da safra.