João Paulo Pivetta

Consultor Independente do sistema sucroenergético

Op-AA-060

Agricultura digital: um caminho sem volta
O plantio de cana-de-açúcar data de 1532, época da colonização do Brasil pelos portugueses, que trouxeram as primeiras mudas, tendo como objetivo único produzir açúcar para o consumo e também os escambos com outras mercadorias, principalmente da Europa.
 
Depois de muitos anos, por volta de 2006, houve um avanço no plantio e na colheita mecanizada, que trouxe grandes conquistas ao setor, e, naquele momento, a mudança tecnológica também trouxe uma demanda muito intensa nos processos agrícolas, na gestão dos recursos humanos e financeiros e, também, uma mudança de mindset, ou seja, o modo diferente de fazer as coisas, de tal forma que estivessem adaptadas ao novo mundo do setor sucroenergético.
 
Ao mesmo tempo que acontecia a escalada do avanço tecnológico, vários fatores bióticos e abióticos que compõem a equação da produtividade dos canaviais passaram a ter uma interação maior entre si impactando de forma muito direta na construção do retorno esperado que, sob a ótica da área agrícola, são as toneladas de cana por hectare.
 
De modo geral, houve uma evolução dos processos de manejo agrícola, como preparo do solo para o plantio mecanizado, manejo varietal adequado, manejo das soqueiras em ambiente de colheita mecanizada, e muita tecnologia foi gerada em busca da melhor assertividade no uso dos recursos disponíveis para a produção de cana.
 
Em seguida, por volta de 2007, chega ao mercado uma tecnologia “disruptiva” com o plantio de “Mudas Pré-Brotadas” (MPB), com diversos sistemas de uso, quebrando toda uma tradição de altos volumes de muda por hectare, trazendo, assim, um método mais sustentável, com material sadio, menor quantidade de material por hectare, redução de mão de obra, maior controle da operação e que, novamente, trouxe a necessidade de adaptação de processos agrícolas operacionais, no sentido de acolher e ter assertividade na nova tecnologia.
 
Recentemente, um método da década de 1980, a “Meiosi” (Método Intercalar-rotacional Ocorrendo Simultaneamente), voltou com força total como opção de sistema de plantio, congregando o método em si com material genético sadio proveniente de MPB ou de materiais de qualidade produzidos pela própria usina. Um fator chave para o retorno dessa modalidade, proporcionando maior assertividade no campo, foi, sem sombra de dúvidas, a evolução da agricultura de precisão, tornando, assim, o método uma verdadeira “obra de arte”.
 
Entretanto, nesse período de avanço dos modelos de produção de cana, associados às novas técnicas de manejo fitossanitário, nutricional e fisiológico da cana-de-açúcar, visando a incrementos na produtividade, a evolução quanto ao uso das ferramentas digitais foi muito interessante, porém, aquém daquilo que se faz necessário para o momento atual, face à grande disponibilidade das mesmas no mercado, para serem utilizadas em benefício do setor.
 
Por outro lado, temos uma produtividade média dos canaviais em queda nas últimas 4 safras, ficando em torno de 73 ton/ha, muito longe dos tão desejados 3 dígitos. Projeções apontam para a safra 2019/2020 uma tendência de aumento de plantio de ano e meio, em torno de 2%, que impactará diretamente na diminuição de aproximadamente 1% na área colhida, com pequena redução no envelhecimento do canavial, o que manterá a produtividade com pequenos ganhos se levar em consideração o mesmo nível de investimento tecnológico atual, podendo ser revertido positivamente pelas boas perspectivas de clima.  A literatura mostra, em vários trabalhos, que o potencial de produtividade da cana pode chegar a 370 ton/ha.
 
Nesse contexto quanto à evolução dos processos agrícolas de manejo da cana-de-açúcar, preparo de solo, plantio, tratos culturais da cana planta, colheita e tratos culturais da cana-soca ainda estão sendo realizados muitas vezes de forma tradicional, orientados pela percepção de cada produtor ou decisor que esteja à frente de cada processo. 
 
Felizmente, caminha-se para uma rápida evolução quanto ao uso de ferramentas modernas, que vêm ao encontro da grande disponibilidade de insumos modernos para nutrição, aceleradores de germinação e enraizamento, inseticidas para sulco de plantio e aplicações tópicas, herbicidas seletivos modernos, fungicidas com efeito fisiológicos, maturadores e inibidores de florescimento e isoporização, insumos estes que nunca foram tão abundantes como nos dias atuais, possibilitando aos gestores das usinas e fornecedores a melhor decisão para cada caso em suas áreas produtivas.
 
Mas a receita é simples assim? Obviamente que não! A tomada de decisão pelo uso de insumos modernos requer um diagnóstico de cada situação embasado em dados confiáveis, cruzados com todos os parâmetros que interferem na produtividade para que a escolha possa ser a mais assertiva, de tal forma que possa capturar toda a potencialidade de cada tecnologia em prol do ganho de produtividade com sustentabilidade.
 
Hoje, não bastam apenas conhecimentos empíricos, recomendações empacotadas, levantamentos de rotina no campo que não são devidamente analisados e interpretados, trabalhar com percepções ou escolhas pela emoção, mas, sim, entrar na era do que é de mais moderno no agro, ou seja, lançar mão da “agricultura digital”, em que as tomadas de decisões poderão ser mais pela razão, usando a tecnologia digital como aliada e fundamental na interpretação dos dados, fazendo, assim, o uso da “internet das coisas” e não mais somente para as pessoas.
 
Para cada momento do ciclo da cana-de-açúcar, existem ferramentas digitais para suportar as maiores tomadas de decisões, entre as quais podemos citar alguns exemplos mais usuais: 
 
• Análise de dados meteorológicos: o clima tem impacto em todas as fases da cultura, bem como sobre a maioria dos fatores que equacionam a produtividade. Como forma de mitigação dessa variável, existem, hoje, ferramentas disponíveis na versão web e outros aplicativos instalados em dispositivos móveis;
 
• Uso de drones ou VANT (veículos aéreos não tripulados): equipamentos dotados de um computador, um GPS e uma câmera fotográfica que possibilitam fotos e filmagens em alta resolução. Essas imagens podem ser usadas na identificação de problemas como: falhas no canavial, incidência de doenças, plantas daninhas, presença de reboleias com ataque de pragas, entre outros;
 
• GPS: Dispositivo que mensura informações de latitude e longitude das áreas cultivadas. Quando embarcadas nas máquinas de campo, possibilitam diversidade de automação e análises gerenciais das operações. Dentre algumas aplicabilidades do GPS no campo, tem-se o piloto automático, a telemetria, o modo automático nas pulverizações terrestres e aéreas e o uso de sensores que mensuram condições climáticas e também aqueles de altura que auxiliam na avaliação da topografia, ajustando as barras de pulverização ao longo da aplicação;
 
• Softwares: programas que coletam informações geográficas e que, integrados com os dados de campo, possibilitam a confecção de mapas e relatórios, facilitando as tomadas de decisões;
 
• Rede 4G no campo: essa tecnologia realmente será o grande sonho de consumo do agro, onde todo o campo, seja o ambiente, a topografia, a planta, as máquinas,  o clima e as outras variáveis estarão conectadas entre si e centralizadas em uma plataforma de dados a qual possibilitará o processamento por ferramentas digitais baseadas em Big Data e inteligência artificial.
 
Empresas produtoras de insumos e as startups buscam ampliar o acesso do produtor, independente do seu tamanho, às tecnologias digitais impulsionadas por uma agricultura mais sustentável. Estima-se um investimento em internet das coisas no meio rural em torno de R$ 100 milhões na safra de 2018/2019, segundo a Associação Brasileira da Internet das Coisas - Abinc.
 
A agricultura digital será o que há de mais moderno na área agrícola do setor sucroenergético, por meio de um monitoramento confiável das condições climáticas que interferem no processo produtivo; no monitoramento de pragas, doenças, plantas daninhas, equilíbrio nutricional e eventos fisiológicos da cana, como florescimento e isoporização; no controle detalhado no uso de insumos e na redução de custos com mão de obra; assim, será possível elevar os níveis de produtividade com sustentabilidade, pela otimização dos processos e dos custos.
 
A era digital será um divisor de águas entre o novo e o velho no que diz respeito à modernidade em produzir cana, independentemente do tamanho do produtor ou da área cultivada.