Miguel Rubens Tranin

Presidente da Alcopar, Sialpar, Siapar e Sibiopar

Op-AA-46

É hora de pensar o futuro do setor
O planejamento estratégico é uma das ferramentas mais importantes de uma empresa moderna. É a partir dele que se traça aonde se quer chegar e o que será feito no curto, médio e longo prazo, balizando a tomada de decisão. É preciso se adiantar ao mercado e prever tendências. Uma empresa que não tem planejamento se move ao sabor do acaso e não se sabe onde ela pode parar.

É preciso ter objetivos e saber focar as questões estratégicas. Se isso for negligenciado, a empresa vai perder o rumo, ficar estagnada, desaparecer. Mergulhado em uma de suas maiores crises e a mais duradoura, o setor sucroenergético perdeu o rumo, tamanhas são as dificuldades. Estamos muito centrados na grave situação e não estamos tomando o cuidado de ver um pouco além. Não podemos nos tornar uma espécie de bombeiro e ficar apagando “incêndios” toda vez que um novo problema surge.

É preciso também buscar as origens desses problemas, traçar estratégias, estabelecer metas, questionar uma série de aspectos. Pensar o setor e buscar saber precisamente a resposta para as perguntas certas pode fazer toda a diferença. É preciso sim pensar em medidas de curto prazo, como o retorno da Cide sobre a gasolina, nos mesmos níveis de quando foi criada, e um refinanciamento da dívida das usinas, e, no médio prazo, com o investimento em cogeração, recuperação da produtividade e em eficiência logística.

Mas não podemos deixar de lado as medidas de longo prazo, como a definição da matriz energética, a inserção do etanol no mercado mundial, tornando-o uma commodity, além de outras opções tecnológicas e de políticas públicas que assegurem os investimentos, pois um combustível renovável e ecologicamente correto como o etanol é estratégico a qualquer nação. Há quantos anos estamos com veículos que consomem um litro de combustível a cada 6, 7 ou 10 quilômetros rodados?

Evoluiu-se muito pouco nesse ponto. Naturalmente, em função do tamanho da frota de veículos a combustão, que, hoje, ainda é grande, e a rede de abastecimento necessária para se viabilizar qualquer alternativa, será necessário um bom tempo até a substituição desta por outra matriz energética ou tecnologia, dentre as que têm surgido no mercado. Mas esta virá e é preciso planejamento para isso.

 
Na última reunião do G-7, os países integrantes assumiram o compromisso de promover o uso de energia limpa, e certamente todos buscarão limpar seu combustível. Vemos aí uma grande oportunidade de o etanol emplacar como aditivo, limpando o combustível fóssil. A escala de produção do etanol já é significativa, e, com a tecnologia etanol de segunda geração, as perspectivas são ainda maiores. Creio que o crescimento da frota a combustão continuará ainda por um bom tempo, demandando muito aditivo. Porém o uso do etanol puro acaba sendo um luxo. 
 
Será que não devemos nos adequar ao modelo utilizado no mundo todo, que é como aditivo? É preciso pensar num cenário com um combustível único, um E70 ou E80, com a possibilidade de flexibilizar essa mistura durante a safra, pois a agricultura depende de condições climáticas que nem sempre são favoráveis. E, conforme o aumento da frota nacional, reduzir de forma gradativa essa mistura até os 27%, transformando o etanol em um aditivo nobre, que tem reconhecidos seus benefícios ambientais e para a saúde e que seja precificado como aditivo que melhora e limpa o combustível fóssil.

Quanto ao açúcar, este tem sofrido severas críticas de produtos concorrentes, que não são tão saudáveis quanto dizem. Também tudo indica que, em breve, haverá uma retomada nos preços da commodity no mercado internacional. E aí, é preciso lembrar que nós produtores temos a responsabilidade de assegurar o abastecimento de etanol, planejando a produção com equilíbrio para evitar transtornos na oferta de etanol ou incorrer no risco de arrasar o mercado de açúcar, a credibilidade do setor e, consequentemente, as empresas. 

 
Mas, mesmo que a situação melhore, não podemos fechar os olhos e nos acomodarmos com o “queijo” que nos é oferecido. Todos sabem que o desenvolvimento do carro elétrico sempre foi tolhido, por interesse das grandes montadoras e das petroleiras. No passado, nos anos de 1960/1970, a GE já tinha um protótipo de um carro elétrico desenvolvido. Mas este foi comprado por aquelas e literalmente derretido. Hoje, temos outros atores nesse cenário.

Na era digital, da indústria da informática, com grande poder econômico e intelectual, os avanços tecnológicos caminham num outro ritmo. Essas empresas estão investindo fortemente em um veículo elétrico movido por energia solar. Já o fizeram. É uma questão de tempo para torná-lo viável comercialmente, com autonomia de 400/500 km e recarga rápida, bem como baterias menores e mais leves. O SmartCar ou iPhone com rodas. Quanto tempo ainda temos? O que faremos? Todos os participantes dessa cadeia produtiva precisam se unir e pensar o futuro. E, com as metas estabelecidas, agir, deixando de apagar incêndios.