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Ismael Perina Junior

Produtor Rural

Op-AA-64

Quando a experiência de vida vale muito pouco
Passados alguns dias do início desta tormenta que estamos vivendo, me liga o amigo William fazendo o convite para que eu escrevesse um artigo a respeito de um tema nada comum: qual seria  o conselho que eu poderia apresentar que desse alguma referência, algum Norte, que ajudasse o sistema sucroenergético, bem como a própria Nação, neste momento de completa escuridão, a achar alguma direção de conduta, quando tudo isso passar ?
 
Por várias vezes fui convidado para escrever artigos para a Revista Opiniões, todos técnicos e sobre temas do cotidiano de minha vida profissional de produtor rural do setor sucroenergético. 

Confesso que, desta vez, de bate-pronto, a ideia foi não aceitar o convite. Seguindo o seu jeito de ser, ele começou a alinhavar o assunto, a apresentar as razões pelas quais estava me convidando, propondo a cobertura de alguns  assuntos, sugerindo a abordagem de alguns aspectos, informando quem seriam os meus parceiros convidados para a montagem do time daquela edição especial, e me convenceu a topar a parada e escrever sobre algo que nunca imaginei na vida. 

Agora estou aqui, na frente do computador, com a tarefa de imaginar como será o nosso day after e, depois de imaginar este novo Planeta, propor caminhos e conduta que, avalio, sejam coerentes e seguros para balizar a condução do nosso setor. Como  boa parte dos brasileiros, venho vendo, lendo e ouvindo uma massa imensa de informação, dentro de um turbilhão de notícias que chegam por todos os meios, a todo instante, com referenciais técnico-científicas de saúde e de economia, impregnadas de interesses políticos e ideológicos.

O prazo da entrega do artigo está vencendo, e a dificuldade de escrevê-lo é realmente muito grande. Quando as notícias começaram a chegar, acho que não tínhamos a dimensão do problema com a pandemia e muito mais, a dimensão que isso traria para as economias da maioria dos países, principalmente aqui para o Brasil.

O que assistimos, até então, com a mudança de governo, era um país com fome de se arrumar, com reformas acontecendo e outras por vir, e, de repente, nos vemos numa situação econômica deplorável, com ajustes e medidas que, certamente, comprometerão nosso desempenho por anos. E, pior, na área da saúde, com necessidade de lockdown, freando assustadoramente o desempenho das atividades, o que, certamente, promoverá muitas dificuldades às empresas e, consequentemente, aos trabalhadores.

Conclusão básica. Preservação de vidas e volta ao trabalho para que a economia volte a rodar. E como fazer? Talvez o artigo mais interessante que tenha lido seja do economista Paul Romer, que recebeu o prêmio Nobel de Economia de 2018, o qual propõe a volta urgente ao trabalho, com segurança, e, para isso, os esforços têm que obrigatoriamente estar concentrados em produção de equipamentos de proteção e de materiais de teste, acompanhando e separando as pessoas infectadas, para dar segurança a quem continua trabalhando, com permanência em quarentena dos grupos de risco.

Isso posto, me atrevo a comentar um pouco sobre os últimos eventos relacionados às posturas políticas dos diversos representantes em todas as esferas, onde a necessidade de aparecer foi uma constante, esquecendo que o momento atual exige concentração de esforços para diminuir os efeitos de uma pandemia e não usar o momento para ganhos políticos e econômicos, visando a eleições futuras. Realmente uma vergonha.

O que falar do futuro? Realmente, muito complexo, pois não temos praticamente certeza alguma de como esse processo se desenvolverá. Mas, com absoluta certeza, alguns ensinamentos essa crise nos trará, e da maneira como vínhamos conduzindo, uma infinidade de temas sofrerão mudanças que se farão necessárias urgentemente. Globalização, autonomia de países, segurança alimentar, protecionismo, relações de trabalho, terceirização, home office, videoconferências, reuniões à distância e tantos outros, que impactarão na nova retomada à vida normal. Mas, sem sombras de dúvidas, o grande cuidado a partir de agora, principalmente para o nosso País, é como e o quão mais rápido possível colocar a economia para rodar e dar atividades a milhares de pessoas que necessitam de trabalho e ajudar a colocar o País nos trilhos.
 
Neste momento, eu me atreveria a falar um pouco de nosso setor sucroenergético, que sofrerá muito por uma série de eventos além da pandemia, e alguns pontos importantes que julgo interessante comentar. Chegou junto com a pandemia, uma grande queda dos preços do petróleo, que atingiu em cheio o mercado de etanol e o de produção de energia.

Esse cenário fez com que os preços da gasolina viessem abaixo, e o volume, consumido – em grande parte pela paralisação da atividade econômica – e isso acontecendo no momento de entrada na nova safra, quando a necessidade de caixa das usinas vem da 
venda de etanol.

E aí o problema aumentou muito. Felizmente, até o momento, embora com dificuldades, a grande maioria das empresas deu início à safra e à manutenção de empregos, o que é muito benéfico para que os impactos sejam menores. No meio disso tudo, a iniciativa privada tenta fazer sua parte.
 
Nesta hora, é fundamental que o poder público constituído aja com competência para auxiliar também esse grande setor, que produz divisas, emprego e renda, além de ter no etanol o melhor programa de combustível alternativo do mundo, que, aliado a suas características ambientais e de saúde pública excepcionais, tem que ser tratado com cuidado. É urgente uma revisão de sua tributação, nas esferas federal e estadual, pois abrir mão de impostos e taxas significa manutenção de emprego e renda, promovendo benefícios para a sociedade como um todo, já que o número de municípios abrangidos por esse setor é muito grande.

Para finalizar, talvez uma das únicas certezas que tenho é a de que o Brasil continuará sendo um potencial produtor de alimentos e energias renováveis, o que muito nos ajudará nesta difícil travessia que teremos que enfrentar. 

Felizmente, até o momento, apesar das dificuldades, com uma ação muito forte do Ministério da Agricultura, a ministra Tereza Cristina, juntamente com outros ministérios envolvidos, o abastecimento vem sendo possível, o que certamente minimiza, e muito, problemas que poderiam estar acontecendo. 

O que nos resta, neste momento, é realmente torcer para que as coisas voltem ao normal o mais rapidamente possível e que o Brasil possa promover os acertos para nos tornarmos, definitivamente, uma grande potência.