Antonio Cesar Salibe

Presidente executivo da Udop

Op-AA-63

Que o canto da sereia não nos iluda novamente
Iniciamos nosso artigo ressaltando, uma vez mais, a máxima que há muito é propagada em nosso setor: “Se Deus é brasileiro, seguramente também é produtor de cana-de-açúcar ou executivo do setor”. Falo isso porque, em meio a tantas notícias ruins no mundo moderno, comemoramos, nesta entressafra, pelo menos dois fatos de importância singular que impactarão, com certeza, o presente e o futuro de nosso segmento.

O primeiro deles, e talvez o mais importante, é a entrada em vigor do RenovaBio, a Política Nacional dos Biocombustíveis, tão esperada e almejada por décadas por todos aqueles executivos que nos precederam. Afinal, estamos falando da segurança necessária e da previsibilidade tão essencial, para que possamos estruturar nossos investimentos e crescer de forma sustentável.
 
O outro fator, esse mais divino do que humano, são as chuvas que se precipitaram de forma regular e em níveis acima das médias, que podem trazer uma melhora e pujança à nossa principal matéria-prima: a cana-de-açúcar. Mas vamos por partes. Afinal, muita coisa ainda precisa ser feita. No primeiro quesito, o RenovaBio, a notícia de que as emissões de CBIOs têm crescido de forma considerável, com mais de 200 usinas já participando do processo, há de ser comemorada. Mas pergunto: será que estamos tirando todo o proveito da cana para a composição de nossa nota de eficiência energética?

A resposta é seguramente não! E faço esse alerta para que não nos acomodemos com os índices hoje observados e deixemos de fazer nossa lição de casa.  A equação é simples. Tomemos como exemplo uma usina com uma nota de eficiência na casa de 60 pontos, que colha, em média, 75 toneladas de cana por hectare. Imagine se, nessa mesma unidade, aumentássemos nossa produtividade para 100 toneladas de cana por hectare, ou seja, um crescimento de 25% a mais na produção. Isso significaria, no mínimo, 25% a mais de CBIOs por litro de etanol produzido, considerando que todos os parâmetros seriam impactados positivamente.
 
E isso é possível? Sim. Não só possível como exequível hoje em algumas usinas, que mantêm suas produções linearmente na casa dos três dígitos, com aplicação de expertises há muito esquecidas por várias unidades. Entendo que o mundo de oportunidades que hoje o RenovaBio nos apresenta é muito maior do que aquele que, de fato, estamos explorando. E vou além, agora com um alerta mais veemente: nosso índice de satisfação não pode, jamais, ficar apenas na quantidade de CO2 que somos capazes de capturar no comparativo com os combustíveis fósseis. Temos que ir além. Explorar de forma consistente os desafios que se apresentam à nossa frente.

Temos que nos estimular e ganhar muito mais com uma maior produtividade. Uso como exemplo a experiência exitosa que tivemos nas décadas de 1970 e 1980, quando nossa produtividade crescia a média de 1% ao ano. Algo ocorreu, e paramos de crescer nas décadas seguintes. Ouso dizer, inclusive, que, na década de 2000, qualquer pífio crescimento que tivemos um ano ou outro tenha sido fruto de aspectos exógenos, muito mais alojados em fatores climáticos do que em qualquer ganho real. Resumindo, em condições “normais”, de estresse hídrico, por exemplo, nossa produtividade teria caído ano a ano. E como virar a página e embarcarmos de vez na rota da prosperidade sustentável? 

Na Udop, só conseguimos enxergar uma saída: precisamos de pesquisa científica aplicada, com dados estatísticos. Hoje, algumas usinas arriscam enveredar na área de experimentos, mas o fazem sem bases científicas e sem análises estatísticas, levando-se em conta as diferentes variáveis. O resultado é sempre o mesmo, ficamos andando em círculo, sem chegar a lugar algum.

Para que isso aconteça, (que existam pesquisas científicas aplicadas), precisamos de uma aproximação das universidades e institutos de pesquisa com o setor, a fim de que haja um trabalho conjunto unindo a necessidade (demanda) das usinas com o corpo científico altamente preparado para os desafios que se nos apresentam. Hoje, uma parte das pesquisas que existem vão apenas estampar as páginas de alguma revista científica.

Continuamos fazendo sempre o mesmo e esperando resultados diferentes... o que muitos atribuem, erroneamente, ao grande Albert Einstein, no que ele teria chamado de insanidade humana. Bem, se a autoria não é do gênio, o que é muito provável, a mensagem não deixa de ser importante. Imaginemos, hipoteticamente, que todo o conhecimento científico de Einstein tivesse sido, apenas, para que ele obtivesse respeito e idolatria mundiais. Talvez a humanidade estaria um passo atrás em seu processo de evolução. Sabemos que seus conhecimentos, por mais complexos que fossem, em alguns casos, eram e são aplicados até hoje, trazendo inúmeros benefícios a toda a raça humana.
 
Voltando ao setor, precisamos estimular, sugestionar e participar, de forma efetiva, no processo de escolha de pesquisas, no suporte técnico aos pesquisadores, por vezes transformando nossas usinas em laboratórios ao ar livre, e, por fim, na busca de resultados aplicáveis, com todas as variáveis possíveis e que nos impulsione para uma nova era.

Pensando nisso, a Udop tem firmado, já há pelo menos 5 anos, sólidas parcerias com universidades de renome, com centros e institutos de pesquisas, com órgãos governamentais e com a sociedade civil, sempre com essa visão de que esta seria uma solução importante para nossos problemas, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, onde as universidades fazem pesquisas dirigidas para as indústrias.

É nossa crença de que, se assim o fizermos, poderemos obter não apenas um aumento de produtividade de tonelada de cana por hectare, mas sim um aumento real de produtividade, saindo dos atuais 5 a 7 mil litros de etanol por hectare para 10 a 12 mil litros por hectare. Não nos deixemos ser iludidos, uma vez mais, pelo canto da sereia, com os resultados que, em se mantendo as condições de hoje, veremos no aumento de produtividade média de nossos canaviais neste ano, graças a São Pedro, mas nos esforcemos, sim, para diminuirmos, cada vez mais, nossas dependências externas e, de forma concreta, construirmos o futuro a partir de agora! Que venham os próximos desafios!