Alexandre Andrade Lima

Presidente da Feplana - Federação dos Plantadores de Cana do Brasil

Op-AA-63

O setor sucroenergético vive um período de esperança
O setor sucroenergético brasileiro é o maior do mundo. Ele é uma potência global na produção de açúcar e de etanol. Começa a despontar também na produção nacional de energia através da biomassa da cana. A previsão da Companhia Nacional de Abastecimento – Conab, é de que sejam produzidas 642,7 milhões de toneladas de cana nesta safra 2019/2020. Isso representa um acréscimo de 3,6% em relação à anterior. Também cresce a expectativa para a produção de etanol e de açúcar. Devem ser fabricados 33,8 bilhões de litros de etanol e 30,1 milhões de toneladas de açúcar. Em comparação à última safra, corresponde a um acréscimo de 4,6% e 3,8%, respectivamente. 
 
A única redução observada pela Conab é na área total de cana plantada no País. Terá 8.481,12 hectares, uma redução de 1,3% diante da safra passada. Apesar dessa queda, houve um crescimento da produtividade. Elevou para 75.783 kg/ha, ante 72.234 kg/ha na safra 2018/2019. Parte considerável dessa superação se deve à aplicação de novas tecnologias (transgenia da cana e o uso de máquinas).

As pesquisas e as variedades de cana desenvolvidas pela Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor (Ridesa) são majoritárias nos canaviais do Brasil. A variedades RB966928 e RB867515, por exemplo, foram plantadas em 17% e 16%, respectivamente, dos canaviais em 2017/2018. Nesse período, a RB867515 e a RB 966928 já eram cultivadas em 25% e 12%, respectivamente. 

Embora o setor sucroenergético tenha enfrentado uma das maiores crises nos últimos anos, em função, sobretudo, de políticas equivocadas, levando ao fechamento de usinas e outras dezenas em recuperação judicial, além do encolhimento das plantações, o cenário é de esperança diante da mudança política no Brasil. O momento é de reformas na legislação e o advento de políticas públicas promissoras (o RenovaBio, a reformulação do zoneamento agroecológico da cana, etc.), mas também de iniciativas adotadas pelo setor sucroenergético através do sistema de cooperativa.
 
O RenovaBio, que é o Programa Nacional de Biocombustíveis, a política do Brasil para cumprir com as metas firmadas no Acordo Global de Paris, tende a contribuir para a reestruturação do setor sucroenergético. O programa consiste no estímulo da produção e da comercialização de combustíveis limpos, a exemplo do etanol, reduzindo o gás carbônico na atmosfera. A cadeia produtiva da cana e outras culturas agropecuárias passarão a receber o pagamento de CBIO (crédito de descarbonização). A medida deve estimular o aumento da oferta e da procura pelo etanol. 
 
O Governo Federal, através do Ministério da Agricultura, com o apoio dos setores que compõem a cadeia produtiva sucroenergética, a exemplo do fornecedor de cana para as usinas, tomou outra decisão política relevante para estimular o aumento da produtividade canavieira. A reformulação do zoneamento agroecológico da cana vai possibilitar que a cultura seja permitida em locais antes proibidos, o que não fazia sentido. Um dos efeitos positivos da ação, em especial, permitirá que, no estado do MT e no entorno, o etanol de cana também possa ser produzido, como já era o de milho. Outro exemplo será no oeste baiano. Haverá aumento de produtividade com a liberação da irrigação e a expansão de novas áreas. 

O setor sucroenergético vive um período de esperança, embora tenha que enfrentar grandes problemas acumulados com a equivocada política de combustível do passado. Os efeitos podem ser verificados sobre as usinas, mas também nos demais segmentos dessa pujante cadeia produtiva agroindustrial. Os atuais 60 mil fornecedores independentes de cana também enfrentam grandes dificuldades para se manterem. Os pequenos/médios produtores, inclusive agricultores familiares, são ainda mais suscetíveis economicamente para suportarem essas instabilidades. 

Contudo, apesar dos vários desafios colocados, o segmento canavieiro continua resistindo no Brasil. Os fornecedores independentes de cana mantêm um peso importante na composição da safra brasileira. Foram responsáveis por cerca de 30% dos 642,7 milhões de toneladas de cana na safra atual, sendo, portanto, os responsáveis por um terço de todo o etanol (33,8 bilhões de litros: 10,2 bilhões de anidro – usado na mistura da gasolina – e 23,6 bilhões de hidratado) e açúcar (30,1 milhões de toneladas) fabricados pelas usinas do Brasil. 

Os números são expressivos. Também é significativa a quantidade de postos de trabalho gerados por esse segmento. O número de trabalhadores diretos e indiretos em todo o Brasil é impressionante. Na região Nordeste, é ainda maior, contribuindo para a esfera socioeconômica naqueles estados. Apesar disso, o setor enfrenta grande transformação.

O número de pequenos agricultores vem diminuindo frente à conjuntura colocada. Estima-se que, nos últimos anos, milhares de produtores deixaram a cultura da cana. Ainda assim, a produção canavieira está crescendo no segmento por causa dos grandes fornecedores. Também cresce devido aos canaviais das usinas. Todavia, diante dessa realidade, observa-se que está havendo uma grande concentração dentro do setor. Apesar das políticas públicas direcionadas para o setor sucroenergético na atualidade, o segmento dos fornecedores de cana passa por grandes transformações. 
 
Também tem se modificado frente às novas exigências do uso das inovações tecnológicas para se manterem competitivos, sobretudo diante do corte da cana crua. Tais aparatos tecnológicos têm demandado a aplicação de grande volume de recursos, o que destoa da realidade econômica do pequeno e médio agricultor. Embora o desafio seja grande, a superação é possível. E a solução está na organização deles mesmos através das suas entidades de classe e também por meio de cooperativas. Sem isso, o fim dos fornecedores de cana é inevitável. 
 
No NE do Brasil, onde a previsão da Conab estima acréscimo de 12,6% da safra de cana atual em relação à anterior, a produção deve atingir uns 50 milhões de toneladas. Os fornecedores de cana tiveram papel importante nesse incremento. Como 90% do corte da cana continua manual, em função do relevo acidentado dos canaviais, os pequenos agricultores ainda conseguem se manter.
 
E a expectativa dos preços da cana para a próxima safra é positiva devido à baixa produção de açúcar na Europa, Índia e no Brasil, o qual priorizou o etanol na safra atual.  Além disso, o Nordeste tem promovido uma experiência positiva para a manutenção dos fornecedores de cana e de todo o setor sucroenergético.

Desde a safra de 2014/2015, mesmo com o fechamento de usinas no País, em função da equivocada política do governo sobre os combustíveis, a Associação dos Fornecedores de Cana de PE (AFCP) e o Sindicato dos Cultivadores de Cana de PE formaram cooperativas para arrendarem e reabrirem usinas fechadas no estado, a exemplo da antiga Pumaty, em Joaquim Nabuco, e Cruangi, em Timbaúba. Ambas continuam abertas e crescendo bastante, superando seus recordes produtivos a cada safra.
 
Por sinal, a Cruangi, administrada pela Cooperativa dos Associados da AFCP (Coaf), liderou a produtividade e o rendimento dentre as usinas de PE na safra 2018/2019. Ela deve esmagar mais de 800 mil toneladas de cana na safra atual. E, neste ano, recebeu uma autorização para instalar três termoelétricas e vender a energia elétrica produzida da queima do bagaço da cana. Uma outra usina deve ser reaberta em PE pelo mesmo modelo de cooperativa na próxima safra. E uma outra usina fechada já foi reaberta também em Alagoas. 
 
O setor mostra soluções eficazes. A usina cooperativada, além de pagar o preço justo da cana, contribuindo para que outras usinas valorizem esse segmento, ainda agrega valor à cana fornecida, pois o agricultor passa a receber também pelo etanol, cachaça, açúcar e energia, a exemplo da usina Coaf/Cruangi-PE.