Marcelo de Almeida Pierossi

Consultor da Lidera Consultoria e Projetos

Op-AA-060

Palha de cana: quando aproveitaremos o seu potencial?
Com o avançar da colheita mecanizada, o setor sucroenergético começou a ver a palha remanescente no campo com outros olhos. Estudos de seu potencial começaram a ser realizados em universidades e centros de tecnologias, deixando muito claro que a quantidade de biomassa adicional disponibilizada ao setor poderia ser uma fonte interessante de receita. Entretanto, anos passaram-se, e o setor ainda engatinha em sua utilização, apresentando até uma diminuição na taxa de adoção dessas tecnologias.
 
A quantidade total de palha produzida no Brasil em cada safra é de cerca de 100 milhões de toneladas, sendo que entre 30 a 40 milhões de toneladas são transportadas às usinas junto com a cana picada, na forma de impurezas vegetais. Das 60 a 70 milhões de toneladas restantes, estima-se que, no máximo, entre a 1 e 3 milhões estejam sendo aproveitados como combustível adicional através do enfardamento ou da colheita com limpeza parcial no campo e separadas em estações de limpeza a seco na indústria.

Considerando-se as recomendações agronômicas para a manutenção parcial da palha no campo, temos, então, disponíveis, cerca de 30 milhões de toneladas de palha por safra que poderiam gerar 20 TWh de energia elétrica por safra, dobrando a geração realizada com bagaço na safra 2018.
 
Qual então é a razão que impede tal utilização? Será que a tecnologia de recolhimento e aproveitamento disponível atualmente não apresenta o desenvolvimento técnico adequado, não trazendo confiança às usinas? Ou será que sua aplicação em geração de energia elétrica tem um mercado que trava o seu crescimento através de problemas de regulação e inadequação de preços? 
 
Na minha opinião, fica claro que o motivo não é tecnológico, mas sim de adequação ao mercado de energia elétrica. Atualmente, o mercado elétrico não remunera de forma adequada e possui regulações que não reconhecem as características únicas do setor e os seus benefícios à sociedade; além disso, o outro mercado potencial para a palha, etanol de segunda geração, encontra-se ainda em fase de escalonamento das tecnologias industriais, impedindo um aumento da demanda no curto prazo da palha para a substituição do bagaço, matéria-prima fundamental da indústria do etanol celulósico.
 
As tecnologias de recolhimento e aproveitamento da palha vêm sendo estudadas por universidades e centros de tecnologia desde os meados da década de 1990, e ocorreram evoluções significativas na cadeia de suprimento. A correta quantificação da palha, que pode ser recolhida de forma a garantir a sustentabilidade da produção canavieira, a forma mais economicamente viável dentre as rotas de recolhimento para cada unidade industrial e a forma de processamento e limpeza da palha para uma queima sem causar danos às caldeiras encontram-se testadas à exaustão e disponibilizadas comercialmente para os empreendedores que queiram entrar no negócio da bioeletricidade movida a palha de cana.
 
O desenvolvimento mais recente do aproveitamento da palha coincidiu com o início do desenvolvimento dos projetos de etanol de 2ª geração (E2G), e muito do que foi realizado considerava a palha como combustível substituto ao bagaço na geração de energia elétrica, visto que parte do bagaço seria direcionado à produção de etanol. Entretanto os projetos não apresentaram a velocidade anteriormente projetada, e a palha voltou-se exclusivamente para a geração adicional de energia elétrica, complementar à energia gerada pelo bagaço. 
 
Isso fez com que grande parte da energia fosse comercializada no ambiente de mercado de curto prazo, mercado volátil regido pelo valor do PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), valor calculado semanalmente e com grande variação, visto que depende de fatores climáticos, entre outros. Essa variação impede o planejamento de investimentos para o recolhimento da palha, uma vez que a compra de equipamentos agrícolas e industriais precisam de escala para viabilizar o investimento.  Torna-se difícil o investimento de altos montantes, baseado em janelas de oportunidade no curto prazo.
 
Somado a essa dinâmica, o mercado de curto prazo vem passando por um sério problema de inadimplência, em que liminares, devido ao risco hidrológico, estão sendo deferidas, ocasionando dívidas na faixa de R$ 7 bilhões, diminuindo ainda mais o interesse na venda de energia elétrica para esse mercado.
 
O tema biogás tem estado em destaque no setor sucroenergético nos últimos tempos, através da construção da primeira termoelétrica de biogás produzido a partir da vinhaça. A palha tem um grande potencial de produção de biogás a partir da biodigestão. De acordo com dados de Elia Neto (2014), 49% do potencial total de produção de biogás dos resíduos canavieiros (palha, bagaço, vinhaça e torta de filtro) viria da palha. Esse potencial é cerca de 10 a 12 vezes maior do que o da vinhaça e representaria cerca de 20 bilhões de m3 de biometano por ano, equivalente a 20 bilhões de litros de óleo diesel. 
 
A utilização da palha nos biodigestores solucionaria um dos gargalos atuais na sua utilização: a remoção das impurezas vegetais (teores que variam de 5% a 10%) e a trituração da palha. Entretanto essa aplicação encontra-se em desenvolvimento inicial, necessitando maiores estudos técnicos e econômicos.
 
Além da utilização na produção de biogás, outro fator que pode trazer alento à utilização da palha é o RenovaBio. Esse programa governamental visa incentivar a produção de biocombustíveis por meio da comercialização de créditos de descarbonização (CBIOs), que serão comprados pelas distribuidoras de combustíveis como forma de atender o compromisso do Brasil com o Acordo de Paris para a redução dos gases de efeito estufa.

Os CBIOs são gerados pelas empresas produtoras de biocombustíveis e são calculados a partir da eficiência na sua produção. Sua quantificação é realizada através da ferramenta RenovaCalc, que considera as emissões na produção agrícola e industrial, transporte e uso dos biocombustíveis.
 
O aproveitamento da palha na geração de energia elétrica contribui na fase agrícola, pois a palha deixada no campo é responsável por aumentar as emissões de N2O, e na fase industrial, com o aumento da energia elétrica, comercializada. Dessa forma, o aproveitamento da palha trará incremento na quantidade de CBios que a usina poderá vender ao mercado.

Com base no cenário descrito, as tecnologias para quantificação da palha a ser recolhida, as rotas de recolhimento e as formas pelas quais a palha é processada nas unidades industriais estão bem definidas e sendo utilizadas por algumas usinas, entretanto a complexidade regulatória, a instabilidade dos preços no mercado de curto prazo, entre outros fatores, estão impedindo o maior aproveitamento do potencial energético da palha. Cabe ao setor divulgar o potencial da palha e lutar por um ambiente mais favorável, onde todo o potencial seja aproveitado pela sociedade.