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José Felix Silva Junior

Consultor da Copersucar, Unica e Ietha

Op-AA-11

Especificações e métodos para o etanol anidro combustível

O etanol, como biocombustível, está se tornando uma commodity internacional, mas, para isto, ainda demanda a padronização de suas especificações e métodos. Havendo uma linguagem comum, automaticamente se estabelecerá as facilidades de entendimento, viabilizando a livre comercialização deste produto. Atualmente, as especificações são tão confusas, que é necessário um tradutor técnico para colocar as informações em uma base única e coerente, e assim assegurar o entendimento do que está sendo solicitado, e, finalmente saber se é possível disponibilizar o produto desejado.

Uma solução é promover a criação de uma Comissão Internacional para Uniformização de Especificação e Métodos para o Etanol, envolvendo todos os stakeholders, para definir uma especificação factível, usando métodos e unidades compreendidas por todos.

Especificações: A definição e a implementação de uma especificação é uma tarefa complexa, que deve envolver os técnicos e especialistas de toda a cadeia do negócio, do produtor ao consumidor. No Brasil, as especificações para o etanol anidro e hidratado foram definidas na década de 80, com participação dos players do mercado - produtores, governo, montadoras e outras indústrias pertencentes à cadeia.

Muitos estudos foram realizados para definir os parâmetros essenciais e determinar os métodos analíticos, garantidores da aplicação do etanol como combustível, viabilizando seu manuseio e utilização, até a chegada ao usuário final. A especificação brasileira para o mercado interno é emitida e controlada pela ANP, Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, e a última foi oficializada pela Resolução nº 36, de 6 de dezembro de 2005, como mostra resumidamente a tabela em destaque.

Esta especificação tem sido bastante adequada para os carros brasileiros, produzidos para usar gasolina C, contendo entre 20 e 25% de etanol anidro, e para carros com motores a álcool e flex-fuel, que usam etanol hidratado puro ou em misturas com gasolina. A experiência brasileira indica que nenhum outro parâmetro é preciso para evitar corrosão ou entupimento do sistema de injeção de combustível em motores produzidos hoje em dia, ou mesmo para os tanques de armazenamento, nas instalações do produtor.

Nesta direção, é importante, antes de tudo, definir os tipos de etanol no mercado:

 

  • Etanol anidro/hidratado desnaturado: etanol no qual se adicionou um produto, tornando-o impróprio para bebida ou outros fins.
  • Etanol anidro/hidratado não-desnaturado: etanol puro, sem qualquer aditivo.

Este último tipo é o produzido em todas as instalações industriais do setor produtivo brasileiro. Existe uma diferença significativa nos dois tipos de álcool, inclusive nas determinações analíticas empregadas para caracterizá-los, que são mais simples no etanol não-desnaturado, por não ter interferência de produto adicionado.

Outros países e compradores têm especificações com diferentes características, como por exemplo: ASTM, NYBOT, Europa (em aprovação).

E algumas delas, até onde conhecido, não poderiam causar danos aos carros que usarão gasolina com 5 a 10% de etanol anidro. A tabela demonstra algumas especificações comparadas com aquelas da ANP.

Avaliação das especificações: Avaliando os parâmetros e valores da tabela, são vistas unidades em volume e massa, que fazem uma grande diferença em valores, por exemplo, em acidez ou cloreto, por causa da densidade de etanol anidro. Outros pontos são:


Teor de água: Se o etanol não é desnaturado, o teor de água pode ser indicado, com boa precisão, como 100 menos o teor alcoólico medido por densimetria, sem necessidade de análise por Karl Fischer.
Metanol e C3-C5: Se o etanol será misturado com gasolina, qual o significado destas características na quantidade de 5000 e 20000 mg/L? Estes componentes são queimados nos motores, sem produzir aumento de poluição.
Enxofre: A variação é de 5 vezes, entre duas especificações.
Fósforo: O teor exigido é 0,5 mg/L e quando misturado com gasolina a 5 ou 10%, a quantidade passaria a ser de 0,0025 e 0,005 mg por litro de combustível. Qual o significado destes poucos miligramas?
pHe: Qual o significado de pH em um etanol a 99,7% em massa?

Se os compradores e vendedores não concordarem em ter uma especificação mais racional para etanol anidro combustível, com características realmente importantes para misturar com gasolina, este nunca será uma commodity mundial.

Métodos: Depois que a especificação está definida, é necessário medir as características envolvidas, com confiabilidade aceita por toda a cadeia do mercado.

Vários métodos, indicados na tabela, foram desenvolvidos para outra matriz, com a exceção dos padrões NBR, e estão sendo usados para etanol, sem validação publicada, testes colaborativos, de proficiência e comparação entre eles. Algum esforço deve ser feito para unificar os métodos, unidades de medida e a apresentação do certificado, de modo que sejam facilmente compreendidos pelos agentes do negócio. A solução para resolver este conflito será usar métodos simples e suficientes para qualificar o etanol combustível, a ser misturado com a gasolina.

Atualizações de métodos padrões: Os padrões de etanol anidro e hidratado, combustíveis, estão sendo revisados e atualizados, por um comitê técnico da ABNT, com prioridade para os métodos da especificação ANP.

No momento, os métodos de acidez, condutividade e pH de etanol hidratado, foram atualizados e publicados, após considerar todas as sugestões recebidas, durante o período de consulta pública. O Comitê está avaliando as demais determinações, na busca de métodos simples, que posam ser usados pelos laboratórios das usinas e controle do produto, sem perda de confiabilidade.

Outras entidades, como a IETHA, International Ethanol Trade Association, recentemente constituída com membros sediados em 7 diferentes países, envolvendo produtores de etanol, tradings, transportadores marítimo, distribuidores de combustíveis, e entidades como a UNICA e Copersucar, que estão preocupados e colaborando para obterem um padrão de especificação e métodos, que possam ser utilizados mundialmente.

O que devemos fazer? Este artigo não tem a pretensão de apresentar todos os problemas envolvidos no mercado de etanol, relacionados com especificação e métodos de análise, mas é uma simples lista de dificuldades, que têm sido encontradas pelos técnicos do setor, preocupados em atender o mercado com um produto de qualidade, para seu uso como combustível. Um programa de qualidade para o produto é necessário e poderia incluir os seguintes tópicos:

 

  • Definir as características críticas e desejáveis e os limites aceitáveis e racionais para usar etanol como um combustível.
  • Trabalhar para unificar as unidades e a temperatura de medida.
  • Encorajar e patrocinar o desenvolvimento de estudos e pesquisas, para a obtenção de material de referência e métodos de análises.
  • Desenvolver métodos simples, que possam ser executados pela indústria, e sistema de distribuição, mesmo com uma baixa precisão, mas comparável a métodos instrumentais complexos.
  • Estudar medidas específicas e sua importância, como a medida de pHe, em etanol anidro.
  • Definir métodos para álcool desnaturado e não-desnaturado, separadamente.
  • Prover testes interlaboratoriais internacionais, para comparação e validação de metodologias.
  • Qualificar laboratórios, para analisar etanol com confiabilidade.
  • Encorajar a formação de uma Comissão Internacional para Uniformização da Especificação e Métodos de Análises para Etanol, ou proporcionar condições para que a ISO produza as normas desejadas.