Gerd Sparovek e Gustavo Casoni da Rocha

Coordenador-geral do GT-InovaSolo da Esalq-USP e Professor de Conservação de Solo da Esalq-USP, respectivamente

Op-AA-58

Conservação do solo no setor canavieiro
 “A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar das ideias antigas, pois, para aqueles que foram criados como a maioria de nós, essas ideias se ramificam em todos os cantos da mente.” [John Maynard Keynes] 
 
Situação atual e desafios: O solo saudável é essencial para a produção agrícola, mas, para além de um substrato produtivo, o solo tem funções ambientais fundamentais na regulação de diversos ciclos da natureza, como o da água, de nutrientes minerais e do carbono. Os benefícios da conservação do solo devem ser para além da manutenção da capacidade produtiva e de seus custos endógenos, devemos ter o solo dentro de uma perspectiva de serviços ecossistêmicos complexos e essenciais para o bem-estar do homem.
 
Nos últimos 10 anos, o setor sucroenergético passou por uma grande mudança em seu sistema produtivo, saindo de um percentual de aproximadamente 34% de área de cana-de-açúcar colhida de maneira mecanizada, sem o uso de queima como método pré-colheita em 2007, para um total de aproximadamente 97,5% de área de cana-de-açúcar colhida de maneira mecanizada, sem o uso da queima em 2017.
 
Os problemas de conservação de solo aumentaram nos últimos anos. As vantagens da colheita mecanizada são evidentes, em diversos aspectos, como nas emissões de carbono, de planejamento e gestão, de saúde pública, entre outros. Mas essa mudança trouxe uma consequência negativa: o aumento da compactação dos solos. A compactação altera o regime hídrico local, diminuindo a capacidade de infiltração da água no solo e aumentando o seu escoamento superficial. Essa alteração não foi prevista na maioria dos sistemas de conservação utilizados. 
 
É preciso acabar com a dicotomia conservação de solo e a maior eficiência operacional. Um bom rendimento operacional pode ser benéfico para o solo, gerando menos pisoteio na área, diminuindo os carreadores, reduzindo a compactação e gerando tiros de plantio longos. Alternativas técnicas em que as duas partes ganham já existem, mas ainda carecem de escala e de novos processos de inovação. Cabeças precisam pensar de forma diferente, decisões precisam ser tomadas de outra forma, pessoas precisam ser convencidas e treinadas.
 
O setor tem desenvolvido inciativas de forma isolada e internamente. Por isso carece de uma reflexão sobre sua aplicabilidade em outras regiões e por atores externos. São alguns exemplos:
 
1. sistemas de escoamento superficial difuso, baseados em drenagem e canais escoadouros;
 
2. sistemas de terraceamento de base larga com sulcação passante, que possibilitam intervenções mais suaves na paisagem e um efetivo controle de tráfego;
 
3. planejamento e execução criteriosa da colheita/preparo/reforma por meio de matrizes complexas (relevo, solos, clima).
 
O poder público exigiu um avanço significativo da eliminação da queima da cana-de-açúcar, mas, por outro lado, não se observou, nesse mesmo período, um movimento similar e de mesma intensidade na área de pesquisa em conservação de solo. As principais perguntas a serem respondidas:

Acreditamos que esta conjuntura levou a uma reflexão profunda de todos os setores envolvidos:
• Órgão governamental (ambiental, fiscalização ou extensão rural): a forma de fiscalizar está sendo eficiente? O desenvolvimento de ferramentas de estímulo à conservação do solo não teriam efeito maior? Há projetos de educação/difusão de técnicas adequados?"
• Universidades e Institutos de pesquisa: as linhas de pesquisa em conservação têm gerado conhecimento para subsidiar decisões técnicas no campo? Há um engajamento institucional (Fapesp, Departamentos de Solos de Universidades, etc.) que entenda o problema como ele ocorre no campo e direcione soluções?
• Setor produtivo: as estruturas de contenção de enxurrada são feitas, e, mesmo assim, o problema de erosão persiste. Onde está o erro? Há esforços em planejamento/replanejamento a fim de estabelecer um cronograma de reformas de menor risco? Há apoio (financeiro ou logístico) a institutos de pesquisa para colaborar na formulação de novas soluções?
• Sociedade civil: se há um problema, potenciais soluções e recursos financeiros, por que faltam iniciativas integradoras nesse sentido? As grandes erosões e as multas aplicadas não estão resolvendo o problema?

Um possível caminho para as soluções: 
A construção de processos inovadores consistentes requer tempo, reflexão e visões distintas do problema e gestão conjunta dos processos envolvidos. Há novas ideias circulando e iniciativas promissoras em diversas usinas e produtores. Quando se analisa o conjunto das ações, percebe-se que é mais fácil assimilar novas ideias do que se livrar das antigas.
 
Vale citar a organização de um pioneiro evento pela Stab, em 2013, que reuniu pesquisadores, acadêmicos, consultores, produtores, órgãos do estado, ministério público e especialistas. Foi um esforço analítico dos problemas históricos e caminhos possíveis, foi um reconhecimento coletivo da carência de informações técnicas e de pesquisas acadêmicas sobre a nova realidade produtiva do setor.
 
Como um dos resultados desses debates e articulações, foram publicadas, em 2016, as Recomendações Gerais para a Conservação do Solo na Cultura da Cana-de-açúcar, uma publicação da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, que reúne o conhecimento mais atualizado possível sobre o tema. 
 
Em 2017, foi dado mais um passo. Usinas, Unica – União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, iniciaram uma conversa para um ambicioso projeto: constituir um grupo de trabalho (GT) que integrasse diferentes instituições ligadas ao setor no tema Inovação & Conservação de Solo. 
 
Nasceu, assim, o Grupo de Trabalho em Inovação e Boas Práticas em Conservação de Solo (GT-InovaSolo). Os objetivos são: fomentar e articular pesquisa científica por meio de rede de colaboração entre universidades e unidades produtoras e entre as universidades; colaborar para a atualização da publicação da Secretaria de 2016 e formar corpo técnico capaz de elaborar projetos de conservação baseados no manual SAA, por meio do oferecimento de um curso de difusão.
 
Uma primeira edição de um curso de aperfeiçoamento, ligado à USP-Esalq, já ocorreu em 2018, com metodologia inovadora, baseada na troca de experiências exitosas entre os alunos e na discussão de temas a partir das próprias dificuldades e virtudes. Criou-se uma rede de apoio entre os alunos e os professores, em que questões técnicas eram (e são) discutidas na prática.
 
Quanto ao fomento à pesquisa, ainda faltam os recursos para colaboração efetiva entre as unidades produtoras e universidades, além das condições para que a equipe do GT se dedique ao apoio à atualização das recomendações. Para isso, ainda falta fortalecer algumas ações efetivas, numa agenda pré-competitiva e colaborativa entre as usinas e sua representação, as universidades e o Governo, mas continuamos otimistas com essa possibilidade.
 
Novas oportunidades: A Política Nacional de Biocombustíveis, o RenovaBio, que está em fase de regulamentação, tem gerado expectativas positivas do setor ambiental e do setor produtivo. Além da resolução dos problemas que impactam a produção e a natureza local, a conservação do solo oferece serviços ecossistêmicos pouco discutidos, como as emissões evitadas de GEE na atmosfera. A primeira etapa do processo erosivo é o desprendimento da partícula; esse processo facilita a decomposição da matéria orgânica e a transferência do carbono do solo para a atmosfera (GEE). 
 
A ideia de punir o causador do dano ao solo pode ter um efeito na diminuição dos problemas, mas é apenas um dos caminhos. Mecanismos de estímulo ao bom uso do solo é outra via possível, e o RenovaBio é uma oportunidade para o setor. A conservação de solo, pela sua abrangência e importância nas emissões de GEE, pode e deve ser uma variável de entrada no RenovaBio. Há, entretanto, a necessidade de avanço no conhecimento técnico e científico da relação entre conservação do solo e emissões de GEE para as condições de manejo da cana brasileira.
 
Mas, voltando ao início do texto com a frase de Keynes, no caso da conservação do solo e o setor canavieiro, escapar das ideias antigas não significa apenas aprender novos conceitos técnicos. Significa entender que alguns temas complexos e de elevado interesse social devem ser tratados como uma agenda pré-competitiva e colaborativa por todos: setor, governo, universidades.