Roberto Luis Troster

Economista

Op-AA-059

A macrogestão e o setor sucroenergético
Nesta década, o setor atravessou uma crise, foi o que é conhecido como uma tempestade perfeita – uma rara combinação de eventos não favoráveis. Ao todo, foram seis motivadores dos problemas. Dois são exógenos, que estão fora do controle dos empresários e do governo: são o clima e os preços das commodities nos mercados internacionais.

Seu impacto poderia ter sido absorvido com alguns custos, todavia foi agravado por quatro fatores endógenos, aqueles que estão sob o controle do governo. Note-se que adversidades do clima e dos preços internacionais podem voltar a ocorrer. Portanto é necessário entender a dinâmica do que aconteceu para evitar outra tormenta no futuro, prejudicando as empresas, os empregos e o País.

É importante para o balanço de pagamentos, o emprego e a matriz energética. O clima pode ser um aliado ou um oponente ao desempenho do setor. Na média, há uma compensação entre adversidades climáticas e preços de commodities no mercado internacional. Mas, apenas na média, o que aconteceu no ano passado com a soja ilustra o caso.

Houve uma quebra de safra de 30% na Argentina, aumentando os preços nos mercados internacionais, favorecendo o Brasil, mas prejudicando os vizinhos do sul. No período pré-crise, os anos de 2010 a 2015, o preço do açúcar teve oscilações bruscas nos mercados internacionais. Em algumas situações, caiu até a metade do valor, em dólares.

Na média dos três mercados mais importantes, o valor caiu 9%, como reflexo principal do clima no mundo. A oferta mundial deve ter aumentado. No Brasil, o efeito do clima na produção de cana-de-açúcar foi negativo. A produção por hectare caiu de 80,2 toneladas, em 2009, para 74,6 toneladas, em 2015. 
 
A área colhida aumentou 17%, mas a produção, 8%. O setor foi afetado adversamente pelo clima e pelos preços do açúcar caindo nos mercados internacionais. O preço do petróleo nos mercados internacionais é um fator determinante do preço da gasolina no Brasil, o que, por sua vez, afeta o preço do álcool combustível no mercado interno.

Na média, os quatro tipos de petróleo mais comercializados no mundo tiveram uma queda, em dólares, de 18%, no período pré-crise. As variações dos preços das commodities têm um impacto diferente em cada país, dependendo de ser um exportador ou importador. 
Enquanto a queda do petróleo teve uma influência positiva nas economias mais avançadas, reduzindo custos de transporte e de energia em geral, a redução prejudicou o setor sucroenergético, que é produtor.
 
O quadro foi agravado pela política econômica adotada nesses anos, mais especificamente as políticas cambial, inflacionária, creditícia e de competitividade. O tripé câmbio flutuante, metas de inflação e responsabilidade fiscal foi a base da política macroeconômica desde 1999 e objetivava um círculo virtuoso entre os instrumentos macroeconômicos.
 
Os superávits fiscais baixariam os juros induzindo a um câmbio mais depreciado, o que impulsionaria o crescimento e a arrecadação tributária, sem pressionar a inflação, facilitando o desempenho orçamentário. Gradativamente, a partir de 2006, esse tripé sofreu ajustes na sua execução, com a adoção do neodesenvolvimentismo, uma combinação de expansão do consumo, uma política de crédito irresponsável, um controle de preços arbitrário, um populismo monetário e uma valorização do câmbio.

É uma política inconsistente intertemporalmente, como mostrou a realidade. Na política cambial, a estratégia de acumular divisas tinha dois efeitos de curto prazo. Um era de conter a inflação, pressionada pelo aumento dos gastos públicos, e o outro, dar mais segurança a investidores estrangeiros, atrair mais ingressos de divisas, pressionando a cotação do dólar para baixo.
 
O Banco Central adotou uma política mercantilista, mantendo estável o estoque de reservas, como sinalização de solvência. Induziu a uma hipertrofia ainda maior do segmento financeiro do mercado de câmbio em detrimento da competitividade dos setores não financeiros em geral e, mais especificamente, do setor sucroenergético.
 
Em política monetária, viveu-se a reintrodução do populismo inflacionário, uma experiência em três etapas. Na primeira, com os preços em elevação acompanhada de uma queda artificial dos juros, ocorre a redução dos salários reais, o aumento de margens das empresas, mais empregos e mais lucros − é a fase da satisfação.
 
A segunda etapa começa com a disputa pela recuperação da remuneração dos trabalhadores e do aumento da pressão dos preços, com a economia mais vulnerável a choques de oferta. Termina na terceira, que é a dos juros mais altos e de menor crescimento − é a fase da amargura. Resumidamente, troca-se crescer um pouco a mais no presente por bem menos no futuro.
 
Para controlar a inflação, o governo utilizou o mecanismo mais antigo, o “tabelamento de alguns bens e serviços”, incluindo a gasolina e a energia elétrica. O impacto no setor sucroenergético foi negativo, num momento em que o clima e os preços internacionais também afetavam adversamente. O resultado da Petrobras ilustra como a política adotada afetou o setor: partiu de um lucro de R$ 35,2 bilhões, em 2010, para um prejuízo de R$ 34,8 bilhões, em 2015.
 
Mais um agravante para o setor sucroenergético foi a política de crédito irresponsável. Colocou a economia num redemoinho perverso de juros cada vez mais altos, uma oferta de financiamentos encolhendo e a inadimplência subindo e induzindo as empresas a diminuir estoques, a cortar custos, a atrasar tributos e fornecedores e, em alguns casos, a demitir e até a fechar.

Os indicadores de inadimplência aumentaram na economia nesses anos. Para o indicador base 100 em 2009, chega a 157 em 2015.  Nesse período, 56 usinas foram desativadas, atestando a gravidade dos problemas. É fato que os fatores exógenos afetaram adversamente o setor sucroenergético, todavia foi a política econômica que potencializou os problemas e catalisou a crise.

Não foi o único setor. A indústria de transformação como um todo sofreu consequências graves. Sua participação no PIB caiu de 13,1% para 10,5% no período pré-crise. Há também fatores estruturais tirando a competitividade da economia brasileira, como tributação, custos de observância e burocracia. No ultimo ranking do Foro Econômico Mundial, o Brasil perdeu três posições, mostrando que, em termos relativos, está perdendo competitividade.
 
A análise acima aponta que o clima e os preços nos mercados internacionais desfavoreceram o setor, mas o que catalisou a crise foi a macrogestão, mais especificamente as políticas inflacionárias, creditícia, cambial e de competitividade. A visão dominante entre os analistas é de que a recessão iniciada em 2015 foi catalisada pela política fiscal.
 
Não se sustenta com os números. De dezembro de 2009 a dezembro de 2014, último ano de crescimento antes da crise, a relação dívida bruta/PIB caiu 5% e, nos quatro anos seguintes, aumentou 36%. Portanto foi consequência e não causa dos problemas. Solucionar a questão fiscal é condição necessária para voltar a crescer, mas não suficiente. É necessário mais.
 
Houve avanços na política inflacionária e anúncios de mudanças na de competitividade. Todavia a política creditícia continua a mesma: atualmente, um novo recorde de empresas com anotações de atraso foi alcançado, 5.577.543 CNPJs com dificuldades de conseguir crédito comercial. A política cambial continua igual há mais de uma década. Desassossega.