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Miguel Ivan Lacerda de Oliveira

Diretor do Dpto. de Biocombustíveis da Secretaria de Petróleo e Gás do Ministério de Minas e Energia

Op-AA-64

A parábola do homem que queria atravessar o rio
Naquele tempo, um homem viu um lindo campo na outra margem do rio. O campo era promissor, parecia ter um solo humoso que, com uma boa e trabalhadora mão a cultivá-lo, seria capaz de produzir muitos frutos por um bom tempo.
 
Mas tinha que atravessar um rio... um rio grande! Porém aquele homem era experiente o suficiente e já tinha atravessado outros rios parecidos na região e sabia que poderia encarar a empreitada para alcançar a outra margem.
 
Juntou suas melhores sementes e ferramentas em suas duas mochilas. A bagagem estava pesada, mas pensou consigo mesmo que todo o peso seria aliviado pela água e que, portanto, não seria tão difícil carregá-lo. Além do mais, tudo que levava foi cuidadosamente escolhido para poder usufruir ao máximo daquela oportunidade que estava a uma mera travessia de distância. 
 
Olhou uma última vez para a margem na qual estava e, decidido, deu seu primeiro passo nas águas daquele rio. A primeira coisa que veio a sua mente foi repensar em todas as coisas que decidiu levar, para conferir se não tinha esquecido algo. Mas, em pouco tempo, mudou de ideia e passou a imaginar tudo o que iria produzir naquele campo fértil. Sua mente, igualmente fértil, imaginou a colheita e os frutos abundantes que aquela terra produziria.
 
Alguns passos mais e começou a sentir a água do rio subir em seu corpo. A água estava em seu joelho quando sentiu o primeiro solavanco da corrente. Firmou seus pés, reequilibrou-se com cuidado e seguiu vagarosamente a travessia. Em poucos metros, a água já estava em sua cintura. Conseguia enxergar os pés e olhou mais uma vez para a outra margem como um prêmio que era apenas questão de tempo.
 
Alguns metros a mais e a água atingiu a sua bagagem que carregava nas costas. Ele sentiu o alívio no peso que carregava. Mas, alguns passos depois, sentiu a correnteza forte que se escondia debaixo daquelas margens plácidas, no meio da travessia.
 
Firmou seus pés para compensar a força da água e buscava dar passos rumo a seu destino. Sentiu o peso da água e percebeu claramente que não avançava como antes. Parecia que, a cada passo que dava, as águas o empurravam outros dois para trás!
 
A água já batia em seu peito quando constatou que o rio era mais caudaloso e profundo do que todos os que já tinha atravessado antes. Pela primeira vez, sentiu medo e imaginou que talvez tivesse que voltar, desistindo do sonho de alcançar a outra margem.
 
Deu mais um passo e, num susto, não mais sentiu o fundo do rio. Bateu os braços tentando recuperar o fôlego e não se afogar. As mochilas encharcadas pesavam mais com a força da correnteza. Tomou a difícil decisão de largar uma delas para terminar a travessia. O terreno do outro lado era muito promissor para que desistisse dele. Naquela altura de sua jornada, aquele pedaço de chão valia sua própria vida.
 
Assim o fez, largou uma mochila e prosseguiu com o que lhe restou, com o essencial. Decidiu ir em frente, mesmo correndo o risco da travessia. De fato, o rio era mais profundo do que imaginou no início. Com a água no limite de sua respiração, avançou mais alguns passos quando percebeu que começava a afundar. Encheu os pulmões e desceu até o fundo do rio. Quando lá chegou, seus pés puderam firmar-se para o impulso que deu com as suas últimas forças rumo a outra margem. E, com ele, voltou à superfície, perto o suficiente para agarrar-se às raízes expostas da árvore do outro lado. Finalmente, graças a Deus, chegara a seu destino.
 
Safra 2020/2021
No último mês de abril, o Brasil inaugurou sua safra 2020/2021, a primeira safra que presenciará a plena vigência do RenovaBio. Esse homem da parábola é o setor sucroenergético, um homem calejado, vivido, experiente, competente, que sofreu muito para construir o parque industrial responsável pelo fornecimento, hoje, de 18% da oferta interna de energia do País. O homem da parábola vislumbra o outro lado da margem: o RenovaBio. 

O RenovaBio é o campo fértil capaz de gerar muitos frutos para quem tem a visão e a competência para cultivá-lo. Quem percebeu o potencial do programa de descarbonização mais ambicioso e inteligente do planeta sabe que seu futuro tem tudo para ser brilhante.
Mas, como tudo que presta nesta vida, o RenovaBio não seria uma conquista sem sacrifícios, sem dor. O desafio de implementá-lo é como esse rio grande que tem de ser atravessado. Olhamos o rio e, de modo confiante, nós nos pusemos a atravessá-lo. Juntamos nossa bagagem. Nossa bagagem são todos os instrumentos que foram concebidos para extrair o máximo que o programa poderia produzir em termos de resultados para a sociedade. 

Nessa travessia dos últimos dois anos, quando o RenovaBio foi sendo, aos poucos, implementado, várias foram as conquistas: metas de descarbonização para os próximos dez anos; certificação do processo produtivo; e, a joia da coroa, o CBio foi criado. 

Tivemos que nos livrar de alguns dos instrumentos que trouxemos conosco quando o programa foi concebido, porque a correnteza que se opunha à nossa travessia foi forte e nos obrigou a fazer a escolha de trazer apenas o essencial. Cedemos para cumprir todos os prazos legais necessários. 

Temos muitos desafios. A travessia está sendo mais dura do que imaginávamos, ou alguém poderia supor que o mundo enfrentaria as consequências de uma crise sem precedentes neste ano? 

Façamos como o homem da parábola, que puxou seu último fôlego para buscar o impulso necessário para alcançar a outra margem.  Não podemos e não iremos desistir, principalmente agora, quando estamos a um passo da outra margem. 

Lembro-me agora também de um episódio verídico que me é muito caro neste momento. Muitos se recordam das referências que já fiz ao “Endurance”, o navio de Shackleton, um navegador inglês que convocou sua tripulação em 1914, em um anúncio de jornal, que entrou para a história. Ele recrutou homens para a lendária expedição rumo à Antártida para chegar ao polo Sul. Depois de meses e meses à deriva no gelo flutuante que destruiu seu navio, toda a tripulação regressou sã e salva à terra firme.

Quando finalmente retornou à Ilha Elephant, depois de ter navegado em um bote por 16 dias, para buscar resgate, Shackleton tinha muito a contar, tanto para seus companheiros quanto para o mundo exterior. Mas a carta que ele escreveu às pressas para sua esposa só dizia o essencial:
“Consegui! 
Não perdi nenhum homem, e atravessamos o inferno”.