Haroldo José Torres da Silva

Gestor de Projetos do Pecege (Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas da Esalq-USP

Op-AA-059

O desafio da gestão no setor sucroenergético
O desenvolvimento da indústria de biocombustíveis, em especial do etanol, como fonte de energia sustentável, abre espaço para o fortalecimento do setor sucroenergético nacional. No entanto, apesar da intensa tradição do País nesse setor, existem importantes estrangulamentos tecnológicos que permanecem no topo da agenda empresarial de cada empresa.
 
A partir de 2012, os desafios para a expansão da produção de açúcar e etanol se concentraram na necessidade de incremento de produtividade agrícola (afinal, o rendimento do canavial, em t ATR/ha, esta? abaixo do potencial e da própria média histórica do setor), na redução dos níveis de impureza mineral e de vegetais levados do campo à indústria e nas tecnologias para a produção de etanol de segunda geração. Isso evidencia que ainda há potencialidades e novos desafios no sistema de inovação do setor, cujo desenvolvimento deverá se pautar em novos instrumentos e tecnologias de baixo impacto ambiental e baixas emissões de carbono.
 
A despeito desse cenário, o movimento das empresas ainda é relativamente lento no enfrentamento dos novos desafios tecnológicos, com ênfase para os biocombustíveis. O setor de açúcar e etanol se caracteriza, simultaneamente,  como competitivo e conservador em relação à inovação.
 
No caso desse último, os esforços das empresas são modestos, bem como as adaptações das estruturas internas com vistas à ampliação da capacidade tecnológica. A produção de cana-de-açúcar e de seus derivados (açúcar e etanol) tem seguido estágios de produção cada vez mais integrados, com maiores níveis de mecanização, utilização de insumos químicos, capacidade de transporte e substituição de mão de obra por processos intensivos em capital. 
 
Em alternativa, trata-se de um setor bastante heterogêneo, tanto em aspectos técnicos quanto econômicos, o que faz com que as empresas desse setor tenham níveis de eficiência bastante distintos entre si. As usinas não estão no seu potencial máximo, havendo espaço para se obter a máxima eficiência, considerando a alocação ideal dos recursos disponíveis.
 
O alto grau de heterogeneidade na alocação dos insumos produtivos entre as usinas de açúcar e etanol no Brasil reflete-se em diferentes níveis de custos de produção, num setor cuja rentabilidade é definida por um modelo de liderança de custos, dada a baixa diferenciação dos seus produtos. 
 
Nesse cenário, dilatou-se a amplitude dos níveis de eficiência, refletindo num aumento do hiato entre as empresas do setor naquilo que diz respeito à eficiência. A diferença tem se intensificado, de forma que coexistem empresas tecnologicamente atrasadas e com baixos níveis de eficiência, em oposição a empresas com modernas práticas de gestão e de tecnologias produtivas, resultando em elevados níveis de eficiência. 
 
Isso reforça que a competitividade do setor e, consequentemente, a segurança de produção dependem, cada vez mais, de uma gestão eficiente das usinas. Apesar da sua relevância no âmbito do agronegócio brasileiro, o setor carece de políticas públicas e privadas com vistas ao desenvolvimento tecnológico e à difusão de melhores práticas produtivas e de gestão entre as unidades. 
 
Caso contrário, o que se observará é um processo de aprofundamento do gap entre as empresas e acomodação do mercado às custas de um desequilíbrio dos níveis de performance das usinas. Ao longo da última década, o setor sucroenergético brasileiro perdeu eficiência e produtividade, cujo quadro se agravou pela expectativa frustrada por melhores preços de açúcar e etanol nos últimos anos. 
 
Dessa forma, no curto prazo, há pouco entusiasmo para uma nova onda de expansão, e as usinas brasileiras estão dando prioridade para investimentos que melhoram as margens operacionais e a eficiência de seus ativos, seja na área agrícola ou na indústria. Há possibilidades de expansão do setor sucroenergético brasileiro no médio e no longo prazo, principalmente em função das metas estabelecidas pelo País na 21ª Conferência das Partes – Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP21) –  e que se refletiram em novas políticas de estímulo aos biocombustíveis no País, tal como o RenovaBio. 
 
No entanto, no curto prazo, ainda há problemas que, potencialmente, limitarão o crescimento e que impulsionarão uma consolidação baseada em fusões e aquisições, dada a intensa heterogeneidade técnica e econômica entre as empresas. O crescimento desse setor ainda perpassa por programas de treinamento e capacitação, de incorporação de novas tecnologias que impulsionem a recuperação da produtividade dos fatores de produção e da melhoria nas práticas de gestão e de organização das empresas que induzam à alocação adequada dos insumos. 
 
Apesar da condição financeira difícil, o setor produtivo precisa manter os esforços para a redução de custos e a ampliação da eficiência produtiva. Portanto a robustez e a geração de caixa das empresas desse setor estarão associadas a uma gestão focada em operações mais eficientes e em custos de produção mais baixos.