Sebastião Henrique Rodrigues Gomes

Diretor da Oportuninvest Operações Digitais e do CEISE-Br

Op-AA-059

A era do compartilhar
As características e peculiaridades do setor sucro energético nos dão uma certeza, a de que não há uma receita pronta e funcional para todos os empreendimentos. Ingressei nesse setor no ano de 1971, egresso da maior metalúrgica fornecedora de equipamentos pesados, a  Zanini.

Mesmo com algum conhecimento de equipamentos, posso afirmar que, ao longo de todos esses anos, nenhuma safra foi exatamente igual à outra. Sempre havia  um novo desafio pela frente, e isso nos dava mais e mais estímulos para conhecer os processos e buscar soluções para as questões que se apresentavam. Não é exagero dizer que esse ambiente preparou muitos profissionais, que, por essa “força”, passaram a ter mais facilidade de se adaptar às muitas adversidades que vivemos no Brasil e no mundo, onde a velocidade das exigências passou a imperar nas organizações. 
 
Vivenciamos vários ciclos nesses 42 anos de atuação direta. Ciclos positivos e ciclos negativos. A intensidade dos negativos tinha maior peso no gerenciamento do negócio e na sua superação, o que fez com que as empresas fossem buscar alternativas e tecnologias para reequilibrar e viabilizar as suas atividades, numa verdadeira corrida contra o tempo. Infelizmente, alguns sucumbiram. 
 
E, por falar em tempo, vamos direto a um dos pontos que mais impactaram os resultados do setor sucroenergético: as atividades agrícolas, como enfatiza a máxima conhecida pelos que atuam nesse segmento: “o açúcar é fabricado no campo, e a indústria busca as melhores práticas para extraí-lo e recuperá-lo”. As evoluções que se conseguiram nessa cadeia de produção foram muito importantes para a sociedade, quer no sentido ambiental, quer no econômico.

O agronegócio foi quem sustentou a nossa balança comercial nos últimos anos. Imaginem o quanto a atividade sucroenergética consome de investimentos com a implantação, os tratos culturais e a renovação de canaviais, além de sistemas, máquinas, capital humano e tecnológico necessários para manter uma produtividade adequada em todas as etapas do seu processo produtivo.

Por esse motivo é que consideramos que a gestão dos negócios, mesmo não atingindo os padrões desejados, evoluiu em muitos aspectos e até se superou em alguns empreendimentos. A atividade agrícola é, sem dúvida, o ponto nevrálgico e o que requer maior atenção por parte da administração, pois o seu ponto de maturação e equilíbrio, se não estiver sob total controle, não apresenta o resultado compatível frente aos investimentos. 
 
Mas a dinâmica que impera hoje aponta para a necessidade de se reinventar e se orientar para uma gestão modelada em pesquisas e em exploração de produtos de alto valor agregado, com processos e sistemas integrados e tecnologias sustentáveis. Alguns denominam esse modelo como uma biorrefinaria, é uma nova tendência para diversificar o portfólio com novos produtos e atuação em novos segmentos de negócios, como indústria farmacêutica, indústria têxtil, gás, alcoolquímica e sucroquímica, além dos mercados atuais de alimentos, combustível e energia. Mas como desenvolver isso sem uma estabilidade econômica e políticas de governo definidas, tanto para as exportações quanto para o mercado interno?
 
Esses são os desafios que se apresentam para as lideranças, tanto institucionais quanto empresariais. Há que se desenvolver um esforço conjunto para equacionar o futuro; disciplina, persistência e perseverança são pontos básicos, mas precisa-se de muito mais que isso: gestão dos recursos adequados e gestão do conhecimento, meritocracia (tão em voga hoje), integração e coesão, segregação das atividades estratégicas das transacionais e tecnologia para mensurar os benefícios (métricas), e tudo vai exigir investimentos e foco. É possível atingir esses propósitos? 

Se olharmos no entorno, vamos encontrar muitos avanços em outras indústrias, como o carro elétrico, o carro autônomo, Internet das Coisas (IoT), indústria 4.0, além de outras inovações que afloram em oportunidades, revolucionando a tecnologia e estabelecendo uma nova era, a era do compartilhar. Mas o setor está preparado ou tem cultura para isso? Sempre há um início para as mudanças, e para dar o primeiro passo é preciso ter decisão; os meios para se chegar a um processo de evolução estão disponíveis no mundo corporativo: as possibilidades de convênios com universidades, P&D no campo e processos em PPP (Parceria Público-privada), Inteligência Artificial para análise crítica profunda dos pontos de desperdício de recursos, além de outros. E todas essas ferramentas e métodos já são realidades no mercado, não se trata de doutrina filosófica e sim de tendência para o ideal.
 
O setor ainda precisa otimizar a sua organização e ter maior força junto ao governo. Já houve grande melhora nesse campo, devendo neutralizar os eventuais pontos conflitantes. Divergências e disputas não levam a nada, gestão integrada e compartilhada conduz a bons resultados. Há um longo caminho a ser percorrido, mas possível de ser atingido se for dada a partida agora.