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Roberto Rodrigues

Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV

Op-AA-64

Horizonte plúmbeo
Não há a menor dúvida de que o capítulo do agronegócio mais afetado pelo coronavírus no Brasil tem sido o sucroenergético, por razões bastante estudadas. Em primeiro lugar entre elas, estão os reflexos sociais e econômicos determinados pela grande área cultivada com a cana no País, superando 9 milhões de hectares. Essa extensão toda gera milhares de empregos, que entraram em risco com a pandemia.
 
Em segundo lugar, o setor vinha de crises sucessivas nos últimos anos. Sob o governo Rousseff, sofreu demais com a política oficial de combate à inflação através do engessamento dos preços dos derivados de petróleo. Tal fato levou à quase destruição da Petrobras, da Eletrobras e, pela perda de condição competitiva do etanol com a gasolina, também da agroenergia.
 
Nos anos subsequentes, alguns países asiáticos, especialmente a Índia, resolveram subsidiar pesadamente a cultura de cana-de-açúcar, o que levou a uma superoferta de açúcar no mercado global e à consequente queda dos preços, o que refletiu pesadamente na cadeia produtiva brasileira.

Mas, em 2020, se esperava uma reação do setor. O consumo de etanol estava aquecido graças à recuperação da economia, e os estoques mundiais de açúcar haviam caído em função de safras menores na Índia, com melhora dos preços. Além disso, graças ao clima favorável no Centro/Sudeste, a produtividade agrícola também seria maior do que nos anos anteriores. Os produtores se preparavam para fazer investimentos em mais equipamentos e em novas tecnologias quando a conjugação de coronavírus com o petróleo barato caiu sobre tais expectativas e as transformaram em fumaça.
 
Em terceiro lugar, com o isolamento das pessoas, houve uma forte queda do consumo de combustíveis líquidos: no caso do etanol, chegou a até 45% em algumas regiões do País. Evidentemente, a tamanha redução da demanda correspondeu uma sensível diminuição de preços na bomba e também nas unidades industriais. 

Esse fenômeno foi potencializado com o estranho desentendimento entre Arábia Saudita e Rússia, que culminou com uma drástica redução dos preços do petróleo e com a correspondente perda de competitividade do etanol em relação à gasolina.Em quarto lugar, houve uma redução do consumo de açúcar: com o adiamento/cancelamento de todo tipo de evento, congresso, festa, cerimônia, caiu drasticamente a demanda por refrigerantes, sucos, docinhos. Até a Páscoa teve muito menos ovos de chocolate do que o normal.
E, em quinto lugar, tudo isso aconteceu na “boca da safra”, isto é, quando todo mundo se preparava para iniciar a “recuperadora” moagem de 2020/2021. 
 
A doença teve efeito na oferta da mão de obra para a safra, no transporte, e a lentidão oficial para tomar decisões que mitigassem a grande crise acabou levando a uma certa insegurança. As unidades fabricantes de açúcar, que já tinham vendido no mercado futuro boa parte da produção, estão mais ou menos salvaguardadas. Mas quem só faz etanol está em situação muito pior, até porque a capacidade de estocagem de muitas usinas não aguenta mais de 3 a 4 meses de fabricação sem escoamento. Em suma, uma profunda crise setorial, talvez a maior desde a do final dos anos 60 do século passado.
 
Quando esta revista estiver circulando, talvez algumas medidas defendidas pelo setor tenham sido adotadas, como o uso da Cide, a entrada em vigor dos CBios do RenovaBio, a suspensão de cobrança do Pis/Cofins, prorrogação de dívidas, crédito para estocagem do etanol, crédito para custeio da safra e outras, e isso poderá ter reduzido o desastre iminente. Mas ficou muito clara a fragilidade institucional dessa poderosa máquina agroindustrial diante de uma catástrofe como a que começou em fevereiro passado.

Aliás, esta é a grande lição da Covid-19: a fragilidade! Quando se imaginaria que um “mísero” vírus poderia causar uma crise global dessa envergadura? É certo que os mecanismos de controle sanitário globais e nacionais são absolutamente insuficientes e que é preciso subir muito a régua desse ponto fundamental na estrutura das nações. Ressaltou-se a fraqueza da Organização Mundial da Saúde – OMS, e de outras organizações multilaterais.
 
Por exemplo, qual será a capacidade da Organização Mundial do Comércio – OMC, de impedir uma explosão protecionista dos países produtores/importadores de alimentos? É mais do que óbvio que a segurança alimentar se transformou em um fator político dominante em todos os países. Se, por um lado, o mundo inteiro agora entendeu a importância transcendental da atividade rural como produtora de alimentos e, mais do que isso, que essa atividade não pode parar jamais, não está claro que também é fundamental manter permanentemente estruturadas as cadeias de distribuição. Mais ainda: deve ter ficado evidente que a produção agropecuária é determinada por um fator sobre o qual o homem não tem a menor influência, que é a natureza. 

É ela que estabelece a época de plantio, de tratos culturais, de colheita, de inseminação artificial e de vacinação. 
Portanto a própria organização dos sistemas de transporte, embalagem e industrialização, bem como os de distribuição, precisa se adaptar a essa maestrina poderosa, a natureza.

Mas também está claro que a desinformação e o desentendimento entre as chamadas lideranças políticas de todos os níveis acabaram reduzindo a capacidade de os agentes da cadeia de distribuição suprirem os supermercados e outros pontos de venda aos consumidores: ora prefeitos proíbem entrada de caminhões em seus municípios, ora governadores fecham postos de gasolina nas estradas, ora aeroportos nacionais são fechados, numa desorganização institucional que cria grande confusão. 

Uns mandam ficar em casa; outros querem acabar com o isolamento; e há os que pregam o meio termo. Enquanto isso, milhões perdem os empregos, ficam sem renda alguma e mal conseguem se alimentar. Uma grande angústia envolve a humanidade. A tragédia não perdoa ninguém. Mais cedo ou mais tarde, todos serão atingidos com maior ou menor penalidade. E isso produz um efeito dramático: a perda de confiança nas instituições, nos governantes, na sua capacidade de deter os impactos da calamidade, já que a de prevê-la não existiu.
 
É chegada, então, a hora de olhar o day after. O que virá quando esse vírus tiver passado?
O que ficará como ensinamento para o futuro? A questão do controle sanitário ganhará dimensão muito maior do que tinha até agora.
Mas e quanto ao comportamento da sociedade, nos seus diversos segmentos?
Qual será a nova forma de trabalho doravante, já que todo mundo aprendeu a trabalhar longe do escritório, do consultório, da gestão?
Qual será o novo padrão de consumo, depois que todo mundo aprendeu a comer e a vestir menos, mais fácil e mais barato?
Qual será o novo sistema de mobilidade social, já que todo mundo está precisando muito menos de veículos motorizados?
Qual será a melhor forma de governo, visto que ficou claro que a insegurança dos atuais governantes não deu conta de mitigar a pandemia?
Como ficarão as regras de comércio mundial de alimentos?
Qual será a parcela de responsabilidade da academia e da ciência de encaminhar soluções para questões dessa envergadura? 
E será que as populações urbanas darão ao campo o respeito que deve ter por ser o único supridor do que realmente é essencial à vida, o alimento?
Enfim, será que uma nova postura dos povos, de maior solidariedade e fraternidade será mesmo alcançada?

Para muito além dos desastres atuais na saúde, na área social, na economia, na política, nas organizações multilaterais, é preciso mergulhar fundo no que emergirá depois de amanhã, em busca de lições que permitam ao mundo uma maior equidade entre os homens, com base na justiça e no amor.