Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio

Diretor do Grupo Alto Alegre

Op-AA-58

O tempo faz mais convertidos do que a razão
A tentativa de qualquer visão prospectiva do agronegócio canavieiro desde o segundo governo Lula vinha sendo uma missão impossível, dada a escuridão ou a espessa névoa que as políticas dos governos do PT impuseram ao setor sucroenergético nacional. Após o impeachment da Presidente Dilma, a luz volta a penetrar no ambiente escuro de Brasília com o governo Temer e, principalmente, com a elaboração e a aprovação da lei do RenovaBio. 
 
Aliás, o governo Temer será lembrado como a salvação da lavoura após intensa revoada de gafanhotos vermelhos arrasando as plantações. As eleições de outubro de 2018 foram, de fato, um novo despertar. Com elevada substituição do Legislativo, governadores de estado e do Presidente da República, o ambiente político no Brasil mudou completamente e de forma muito relevante. As reações no mercado são de retorno da confiança, e os indicadores macroeconômicos apontam isso. 
 
Há um raro e positivo cenário caso as ações levem às reformas essenciais apoiadas pelos candidatos eleitos. A construção do RenovaBio mostrou uma série de aspectos essenciais ao setor da biomassa energética, em que a ênfase na descarbonização dos combustíveis tem peso relevante, sempre na análise de todo o ciclo de vida do produto considerado.

Criado com base em intensa interação público-privado, o RenovaBio consegue passar por todas as fases do processo democrático para chegar à promulgação da lei, em tempo que se pode considerar recorde e, mesmo assim, com muitas posições contrárias. A beleza do processo foi o enfrentamento técnico-econômico das questões todas, sempre mantendo a lógica que levou o apoio brasileiro ao chamado Acordo de Paris, visando à redução das emissões de carbono na produção.
 
A natureza humana tem dificuldade em aceitar a sua rápida passagem pelo planeta e divide, sempre, seu tempo em passado, presente e futuro. Disse Einstein que “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente” na lógica da evolução inexorável da humanidade.
 
O RenovaBio é, para o caso canavieiro, uma evolução admirável a uma lógica que passou, do “passado” ao “futuro”, por duas fases: a) Produtividade física + qualidade da cana + longevidade, que persistiu até 2018/19; b) Produtividade total dos fatores + emissão de carbono (a partir de 2020).
 
A partir de 2020, haverá a evolução para que se chegue o mais rápido possível ao enquadramento de todos ao novo sistema, com as distribuidoras recebendo os CBIOs dos produtores auditados e qualificados em prêmios (ou não) e com o sistema financeiro viabilizando esses papéis no mercado. 
 
É claro que a valorização desses papéis e a estrutura toda terão tudo a ver com o sucesso dos biocombustíveis no grande e crescente mercado de combustíveis brasileiros. O ano de 2019 será, portanto, essencial. Será dele o restante da regulação do RenovaBio. Mas, junto com isso, há toda uma grande questão anterior e macro, que é a posição brasileira frente à nova realidade geopolítica mundial.
 
Vale iniciar comentando a nova realidade da guerra comercial entre EUA e China e a posição brasileira; a volta do protecionismo que fragiliza a OMC, que é tão importante a países como o Brasil; a nova realidade dos preços do petróleo hoje, comandando o preço das commodities agrícolas e as ações que venham a manter esses preços do petróleo ao redor de US$ 70/barril, ou que possam reduzi-los; os limites do planeta e a crescente dependência global de alguns países com grandes possibilidades de expansão sustentada na oferta de alimentos e de energia renovável como o Brasil, na medida em que, na média, a produtividade agrícola global vem estagnada.
 
Ao olharmos com foco no negócio canavieiro, há alguns pontos do “presente” que merecem comentários: a) Verifica-se o envelhecimento dos canaviais; b) Verifica-se perda de áreas; c) Queda, na média, da produtividade agroindustrial em relação há 10 anos; d) Elevado endividamento setorial (análise do Rabobank); e) Poucas unidades industriais com efetivo acesso ao crédito.
 
Esses pontos permitem antever, no curto prazo, um processo de estagnação de oferta, independentemente de ser ou não um novo processo de consolidação setorial. A relevância do RenovaBio e de sua eficácia pode determinar, para o médio prazo, uma mudança importante no cenário produtivo:
a) Recuperação da produtividade agroindustrial, com uso de tecnologias e administração eficientes da produção, além de um processo mais integrado das operações, com redução dos custos de produção;
b) Implantação de novas tecnologias, com o uso integral da biomassa, novos cultivares e uso intensivo dos solos de forma mais sustentável e com melhorias na sua biodinâmica;
c) Expansão da oferta de etanol de 1ª e 2ª gerações e valorização dos açúcares via agregação de valores.
 
Esse cenário, positivo, acompanharia o crescimento da economia de cerca de 3% ao ano, apoiada pelo lançamento em escala de carros flexíveis híbridos, atendendo ao crescimento do ciclo Otto e uma entrada cada vez maior de irrigação mais tecnificada no setor canavieiro. As projeções do RenovaBio indicam, para 2028, ou seja, em dez anos, um crescimento de aproximadamente 30 bilhões de litros de etanol para 48 bilhões de litros, considerando, nesses dados da Unica, ganhos de produtividade agroindustrial canavieira, crescimento efetivo da oferta de etanol de milho e aumento na produção de etanol de 2ª Geração. 
 
Por outro lado, o açúcar cresce, mas com perda no share global de oferta. O tamanho desse crescimento, sobre a base de 2018, seria de 4,92% ao ano.Esse cenário não será, no entanto, linear. Haverá um período de estagnação ou encolhimento para posterior crescimento. A visão otimista do RenovaBio é, no entanto, fundamental, pois traz incentivo à recuperação da produtividade, base para a capacidade competitiva da biomassa e aos investimentos fundamentais em pesquisa e desenvolvimento.
 
De qualquer modo, os últimos 8 anos foram de estagnação de oferta e de perda da produtividade média do setor, como consequência dos erros das políticas setoriais e da condição da lavoura e das mudanças no processo de mecanização do plantio e da colheita. Sair dessa fase é urgente e requer um esforço que terá no RenovaBio importante mecanismo de mudança e estímulo.
 
Um olhar ao passado mostra ciclos negativos do açúcar se revezando aos positivos (mais curtos) com a mudança introduzida no Brasil, na década de 1970, com o etanol carburante em larga escala. Depois de tantos anos, é o que salvou a lavoura canavieira em 2018 e, provavelmente, salvará em 2019. Os outros países canavieiros, com honrosas exceções, seguem com açúcar, mel residual e outros produtos de menor valor. Sobrevivem às crises com mecanismos de proteção ou de sustentação de seu mercado.
 
Voltando à visão do passado, já vimos filmes parecidos antes, e sempre é bom torcermos pelo sucesso com os olhos ligados às ações do presente. As definições do novo governo com os apoios do Agro, com as reformas essenciais ao País (primeiro e urgente a Previdência, depois a Tributária, a Política e outros aspectos do Custo Brasil) serão um importante indicativo do que virá.
 
De qualquer modo, vivemos uma primavera chuvosa, e se espera um verão quente em um El Niño com chuvas. Que a produção e a criação sejam contempladas também com políticas públicas ao “futuro”. Afinal, como disse Schopenhauer, “vista pelo jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve”.
 
Os próximos 4 anos terão uma importância extraordinária para o Brasil se firmar como potência econômica, partindo com condições básicas positivas preparadas pelo governo Temer, como inflação e juros em condições favoráveis ao desenvolvimento sustentável. As reformas urgentes, a começar pela Previdência, serão imprescindíveis em 2019 e o RenovaBio também. 
 
As chances são grandes, mas deve-se lembrar de todas as dificuldades que se terá com um Congresso Nacional dividido e um novo governo sem grande experiência executiva. Afinal, como disse tanto tempo atrás Victor Hugo, nada neste mundo é tão poderoso como uma ideia cuja oportunidade chegou.