Gonçalo Amarante Guimarães Pereira

Professor do Instituto de Biologia e Coordenador do Laboratório de Genômica e Bioenergia da Unicamp

Op-AA-63

Sisal: biomassa para o sertão e para o futuro
Vivemos, hoje, uma grande controvérsia com relação às mudanças climáticas. Em vista de a atmosfera ser um bem compartilhado, todos têm uma opinião e, frequentemente, um interesse a defender. Para tratar do assunto de forma racional, temos que analisar os dados. Temos, hoje, informações da concentração de CO2 de cerca de 1 milhão de anos, obtidas nas profundidades das calotas polares do gelo eterno (pelo menos até agora). A análise dessas informações nos mostra – sem precisar de se emitir qualquer opinião – que a concentração de CO2 correspondeu a cerca de 0,025 a 0,030% dos gases da atmosfera nesse longo período (250 a 300 ppm). 
 
Entretanto a história do nosso planeta começa há cerca de 4,5 bilhões de anos, com praticamente 100% de CO2 na atmosfera, que foi sendo paulatinamente reduzido a partir do surgimento da fotossíntese e da morte e do sepultamento dos diversos organismos, que foram convertidos nas atuais reservas fósseis de carbono. Elas, ao serem utilizadas, estão nos trazendo de volta a uma atmosfera primitiva, algo que o planeta já experimentou (temos, atualmente, uma concentração de 410 ppm). Ou seja, o planeta está acostumado com concentrações muito mais altas de CO2  do que as atuais e ele não vai acabar.  Portanto qual a preocupação com o CO2? 

A primeira é que o homem habita o planeta há cerca de apenas 150 a 200 mil anos. Portanto desenvolvemos a nossa civilização em um ambiente com concentração de CO2 bastante estável. Nunca enfrentamos as altas concentrações desses gases e elas podem ter consequências catastróficas. A razão é que o CO2 faz parte da categoria dos chamados gases de efeito estufa, cujo aumento de concentração tem um grande potencial de mudança no aquecimento dos oceanos e de várias áreas do planeta, o que pode alterar o regime de ventos e, consequentemente, o de chuvas e as temperaturas. O resultado é a possibilidade de alteração das nossas zonas climáticas, nas quais desenvolvemos uma série de atividades econômicas, em particular aquelas relacionadas com a agropecuária.

Assim, as mudanças climáticas deverão levar à mudança na forma de vida das pessoas e à migração dos atingidos para zonas menos afetadas. Esses são ingredientes explosivos para a nossa civilização que temos que desarmar a partir de políticas públicas, como os esforços internacionais (por exemplo, as COPs organizadas pela ONU), para evitar o uso de combustíveis fósseis, e do desenvolvimento científico e tecnológico. Temos que ser capazes de produzir, de forma sustentável e eficiente, alimentos e biocombustíveis, mesmo nas mais inóspitas condições do nosso planeta: tanto nas já existentes, como naquelas que possivelmente virão. Trazendo essa reflexão para o nosso país, e pensando no presente, temos, na nossa geografia, a belíssima região do Sertão, um ecossistema único, com 750 mil km² (o dobro da área da Alemanha) e povoado por muitos milhões de compatriotas.
 
 
Essa região, embora extraordinária, sofre com o problema da irregularidade das chuvas, o que tem provocado, ao longo de nossa história, frequentes ondas de migração da população local para o sul do País, com graves consequências para todos. A solução para esse problema não é simples e envolve diversas frentes. É fundamental que sejam desenvolvidas atividades econômicas de alto desempenho para trazer a riqueza para a região, evitando que ela dependa de ações mitigadoras. 

Pensando nisso, uma das soluções poderia ser o desenvolvimento das culturas de sisal, plantas do gênero Agave, que têm enorme flexibilidade fisiológica. De forma semelhante à nossa cana, em que temos espécimes que cobrem um largo espectro de composição fibra/açúcar solúvel (desde a cana-energia até a cana-de-açúcar), existem diferentes variedades de sisal, desde o sisal-fibra (Agave sisalana), cujo maior produtor mundial é o Brasil,  até o sisal-açucareiro (Agave tequilana e Agave americana), empregado no México para a produção da tequila e ainda não cultivado no Brasil.

Como sabemos, a fotossíntese é a conversão de moléculas de CO2 + H2O em glicose, utilizando, para isso, um pequeno espectro da luz solar e liberando oxigênio como subproduto. As plantas são normalmente classificadas em C3 (ex. arroz e cevada) ou C4 (ex. milho e cana), de acordo com sua eficiência em capturar o CO2 e evitar o processo de fotorrespiração. No caso do sisal, foi “evoluído” um tipo de metabolismo fotossintético especial, denominado CAM, que é uma estratégia para lidar com climas secos.

Nesse caso, os estômatos dessas plantas (espécie de “boquinhas” das folhas) ficam fechados durante o dia, evitando, assim, que o vapor d’água saia da planta (para cada molécula de CO2 capturada, a planta libera cerca de 400 moléculas de água; 95% da água é utilizada na evapotranspiração). À noite, sob menores temperaturas e maior umidade do ar, essas “boquinhas” são abertas, capturando o CO2 e o fixando sob a forma de um ácido. Durante o dia, esse ácido libera fluxos de CO2 concentrado, que são, então, empregados na produção de açúcar.

O fato é que, nas plantas de sisal, esse mecanismo CAM é extremamente eficiente e pode levar a uma produção de biomassa muito elevada sob condições que o senso comum, acostumado com a agricultura irrigada e amplamente adubada, consideraria impossível. Plantas de sisal açucareiro podem chegar a pesar, após 5 anos, 150-200 kg, utilizando 30% da água que seria necessária para a cana.

Os plantios comerciais, no México, têm 5.000 plantas por hectare, o que perfaz cerca de 880 t/ha. Se anualizarmos, isso daria 176 t/ha (massa seca variando entre 10 a 25%), capazes de gerar 140 t de açúcar ou cerca de 66.000 litros de etanol. É importante mencionar que o açúcar aqui produzido é um polímero de frutose, que não serve para a produção do açúcar de mesa. Entretanto é absolutamente adequado para a produção de etanol. 

Nesse cenário, podemos começar a juntar as peças. Temos, hoje, no Nordeste, cerca de 70 usinas, a sua maioria no litoral, todas com dificuldade para obter cana. Isso faz com que as usinas operem abaixo da sua capacidade e que a região não produza etanol suficiente nem mesmo para o abastecimento da frota local, o que acarreta a vergonhosa importação do produto. Por outro lado, essas usinas são muito próximas do sertão e poderiam, com pouco esforço tecnológico, utilizar o sisal açucareiro para a produção de etanol, gerando emprego e renda e resolvendo os mais diferentes problemas da região a partir de uma atividade perene e previsível. 

Isso não é sonho, é projeto. Em 2005, um agrônomo australiano, o Don Chambers, resolveu investir na ideia. Criou a empresa Ausagave, que selecionou as variedades mais produtivas, desenvolveu novas variedades e criou sistemas para multiplicação de mudas, manejo e colheita da planta. Fundamos, agora, a Sertão Bioenergia, para, em parceria com a Ausagave, promover a cultura no sertão brasileiro e implantar essa inovação para empresários dispostos a assumir o risco e aproveitar o potencial dessas incríveis plantas. Hoje, falamos do sertão, mas sabemos que, com as mudanças climáticas, as zonas de plantio dessas espécies devem se expandir muito para áreas hoje bastante improváveis. 

Temos que dominar esse futuro.