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Mário Campos Filho

Presidente do Fórum Nacional Sucroenergético e da Siamig - Associação das Indústrias Sucroenergéticas de MG

OpAA71

A arte de driblar as adversidades extremas
Seca severa, geada brusca e grande quantidade de incêndios no Brasil. Chuvas “mortais” na Europa e inundações “relâmpagos” nos Estados Unidos. Fenômenos extremos já são percebidos em todo o mundo e são fortemente creditados pelos cientistas às mudanças climáticas. E, se tem um dos setores mais atingidos por esse “caos” climático da natureza, é a agricultura, que tem arcado com perdas de lavoura, aumento no custo de produção e necessitado de investimentos para controlar e prevenir danos ainda maiores.
 
O setor sucroenergético sentiu, drasticamente, no ano passado, o que os extremos climáticos podem provocar na produção e, hoje, carrega um custo muito mais pesado e tem que implementar medidas de recuperação e prevenção a prováveis riscos ambientais no futuro. A seca prejudicou o desenvolvimento dos canaviais; as geadas agravaram o estado da cana que estava para ser colhida e principalmente as rebrotas, além de intensificar a propagação do fogo nos meses de agosto e setembro de 2021, afetando grandes áreas plantadas, com impacto nas próximas safras.
 
Nesse cenário complexo, com menor quantidade de cana, a oferta de etanol ficou bem restrita comparada à safra 20/21, ocasionando uma forte queda do share do biocombustível no mercado nacional. De outro lado, isso contribuiu para que o produto tivesse bons preços na usina, com uma alta no preço médio nos 12 meses de 61,5% em comparação ao ano de 2020. O preço do açúcar no mercado internacional bateu recordes em reais, puxado por uma soma de fatores, como da recuperação do preço em dólar, juntamente com a moeda nacional, mais desvalorizada. No mercado de energia, em função da severa seca, também foi possível verificar uma valorização dos preços, contudo nem todas as usinas conseguiram se beneficiar, devido à redução da biomassa disponível.
 
Os produtores não puderam, porém, comemorar os preços melhores para seus produtos na atual safra, pois enfrentam uma das maiores altas dos custos de produção nos últimos anos, principalmente de fertilizantes, defensivos, diesel, maquinário e peças de reposição, acentuados, neste momento, pelo grande aumento da taxa de juros básica da economia, elevando o custo do dinheiro para capital de giro e financiamento.
 
Os efeitos da pandemia, como a desorganização das cadeias de suprimento, o aumento da inflação e a alta do dólar, impactaram também, fortemente, os preços dos insumos, além de tornar alguns deles escassos. Nas rodas do setor, as conversas sobre o preço dos insumos ficaram muito comuns em 2021. Talvez, o maior exemplo seja do ácido sulfúrico usado na produção de etanol, cujos valores explodiram. Mas não foi o único, o efeito foi generalizado. A partir de abril, quando os balanços das empresas começarem a ser publicados, teremos uma visão mais clara de quem foi o ganhador na safra 21/22: se foi a alta do preço dos produtos ou a alta dos custos.
 
Ficam, portanto, os aprendizados e a necessidade de olhar para frente. O primeiro desafio é recuperar o canavial. As chuvas, até o momento, se mostraram adequadas para o bom desenvolvimento da cana, mas os problemas enfrentados em 2021 ainda permanecerão nos próximos anos. A sequência de seca, geada e incêndios deixou muitas áreas com falhas e com atraso de desenvolvimento, sendo que muitas delas já foram replantadas, ou precisarão ser reformadas mais cedo. A mesma chuva que ajudou as áreas de cana, até agora, atrasou o cronograma de plantio, pressionando ainda mais o calendário do setor. O início da safra 22/23 está sendo muito discutido, com forte tendência de ser mais tardio.
 
Outros desafios a serem enfrentados é na prevenção de riscos, como os investimentos na irrigação, seja de salvamento ou plena para o período mais seco. Apesar de tudo, a expectativa é de uma recuperação da moagem na safra 22/23, mas não alcançando, ainda, o recorde de 2020. Com a melhoria da condição financeira, o produtor deve olhar para todas essas medidas visando ao aumento da produtividade, de uma forma diferenciada para cada usina, de acordo com suas peculiaridades. Se tirarmos também o efeito climático, os resultados do canavial ao longo dos últimos anos estão progressivamente melhorando de forma generalizada pelo País.
 
A manutenção da política de preços para derivados de petróleo no Brasil, o RenovaBio, as discussões sobre o futuro da mobilidade sustentável no País, somadas aos grandes resultados do combate às reduções de subsídios ao açúcar em países concorrentes, têm gerado um ambiente positivo para investimento no setor.

Minas Gerais, por exemplo, foi um dos estados mais atingidos pelos “extremos do clima” no ano passado, principalmente com os episódios de geada nas áreas de cana do Triângulo Mineiro, deixando um grande rastro de destruição. Com isso, mesmo apresentando um aumento da área de moagem em 2021, com potencial de 72,3 milhões de toneladas de cana, a safra mineira 21/22 não deverá passar dos 64 milhões de toneladas. 

Mas, com ganhos melhores no ano passado, os produtores mineiros se mostram otimistas com o futuro do setor e apresentaram, no final do ano de 2021, um plano de investimentos para o governador do estado, Romeu Zema. O grande desafio, hoje, é ter cana, e, para isso, o estado contará com forte investimento no aumento da área plantada e crescimento na produtividade, com investimentos anunciados de R$ 6 bilhões nos próximos oito anos. Até lá, a expectativa é se tornar o segundo maior produtor de cana-de-açúcar do Brasil, chegando a moer cerca de 95 milhões de toneladas/safra.

O crescimento da moagem de cana se reverterá numa produção maior de etanol e açúcar, podendo chegar a 5 bilhões de litros de etanol e a 6 milhões de toneladas de açúcar. Além disso, a geração de energia tem um potencial de dobrar, alcançando os 6 milhões de MWh, o que daria para abastecer 2,2 milhões de habitantes, mais de 10% do total da população de Minas Gerais. A geração de novos empregos diretos e indiretos poderia alcançar 58 mil, que se somariam aos 167 mil atuais. Há também um grande potencial de produção de biogás/biometano, com investimentos que já estão sendo analisados no estado.

A agricultura tem que mostrar seu valor, pois é um dos mais importantes setores da economia e influência, decisivamente, o desenvolvimento dos países. É preciso dar todo o apoio e valorizar esse segmento, um dos mais atingidos pela mudança climática e que se têm mostrado resiliente no drible desse fenômeno. Cada um tem que fazer a sua parte para conter esses extremos, contribuindo com o uso de produtos menos poluentes e sistemas mais sustentáveis. No Brasil, o consumidor já encontra disponível na bomba dos postos o etanol, biocombustível limpo e renovável, e poderá contar, num futuro próximo, com mais disponibilidade da energia verde. Não podemos desanimar frente às dificuldades, e o setor sucroenergético continuará dando sua grande contribuição ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, com sustentabilidade.