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Luiz Henrique Guimarães

Presidente da Cosan

Op-AA-64

A chave do futuro

A escalada do novo coronavírus tomou de assalto a atenção do mundo inteiro. Preocupações com a saúde e com a vida dominam a pauta de todos. Qualquer outro assunto parece secundário se comparado ao número de casos que cresce a cada dia e ignora fronteiras -- e o número de mortes de centenas de milhares de pessoas. E todos entendem que as medidas necessárias para conter o alastramento da doença estão afetando de forma relevante a economia global e local e o futuro de todos. 
 

Quem não perdeu emprego conhece alguém que perdeu. Mercados financeiros derreteram ao redor do mundo afetando a poupança de todos. Comércios e indústrias fecharam as portas. Não se sabe quantos vão ficar pelo caminho.
 
Convivemos, agora, com uma sensação de vulnerabilidade real e com uma crise econômica que vem a reboque, sem ter nem a quem culpar, nem que seja para aliviar a tensão. Teorias conspiratórias à parte, essa é uma pandemia que apareceu na natureza e que atingiu a todos, sem distinção de classe, credo, cor, preferências políticas ou geografia.

Para piorar, líderes ao redor do mundo parecem incapazes de trazer algum alento na forma de coordenação global, além do uso político vergonhoso de uma crise sem precedentes e  justificativas para anseios de poder adormecidos.

Mas a história mostra que sempre há luz no fim do túnel. Especialmente se focarmos rapidamente nas lições aprendidas, em mapear os próximos desafios e em estar mais bem preparados para enfrentá-los. O tema é extretamente amplo e complexo se quisermos tratar de todas as questões envolvidas em nível global, ou mesmo pensar na economia do Brasil como um todo. Mas podemos usar o tema do aquecimento global e o papel do etanol brasileiro como um bom exemplo. Uma amostra estatística que poderia ser extrapolada para uma série de outras questões.

Até bem pouco tempo, aquecimento global era uma discussão mais restrita aos meios acadêmicos e aos fóruns internacionais focados no assunto, além das ONGs. Um mundo mais conectado, informações disponíveis para quem se interessar ou novas gerações mais conscientizadas e preocupadas com o futuro do planeta são, certamente, boas explicações para esse tema ter ganhado tanta atenção recentemente. Mas nada como a realidade batendo à porta, aliada a sinais econômicos corretos.
 
Podemos começar pela forma inclemente como esta pandemia abalou as estruturas globais, colocando o mundo diante de uma escolha dificílima entre a extensão do isolamento social para salvar vidas e o impacto do isolamento na economia mundial, que vai afetar as vidas de todos no futuro. 

Ignorar a probabilidade de que não fazer nada para reduzir emissões de gases de efeito estufa na atmosfera agora vai implicar ter que fazer escolhas tão ou mais complicadas no futuro seria um erro enorme.

Mas como seguir promovendo a utilização do etanol quando a pandemia reduz o consumo de petróleo em 35-40% da noite para o dia, e a dificuldade de entendimento político entre países produtores impede uma ação mais ordenada do lado da oferta, derrubando os preços da commodity a patamares impensáveis (chegando a cotações até negativas) e levando junto os preços de gasolina? Como fazer com que o consumidor esteja disposto a pagar pelo combustível limpo, justo no momento em que as economias ao redor do mundo estão extremamente afetadas, com queda de renda e aumento do desemprego?

Primeira boa noticia: essa geração preocupada com o futuro do planeta ganhou muitos adeptos. O susto com a pandemia foi grande demais para ser ignorado. As pessoas, tendo sido forçadas a rever muitos dos seus hábitos e valores, vão sair dessa pandemia muito mais conscientes de suas reais prioridades. Ainda que da janela, todos puderam experimentar a sensação de respirar um ar mais puro e ver o céu de novo azul. Estima-se que o lockdown na China tenha reduzido as emissões de carbono em aproximadamente 25%, com queda de 40% no consumo de carvão usado nas principais termelétricas.

A poluição do ar em Nova Iorque caiu pela metade em função das restrições à circulação. O que dizer da Índia, onde, de repente, se enxergam as montanhas do Himalaia a 150 km de distância, um país tão relevante na produção mundial de açúcar e onde o governo gasta tanto em subsídios a essa cultura, chegando a distorcer o equilíbrio global dos preços dessa commodity? 

Um programa ordenado de produção de etanol naquele país resolveria três problemas gigantes de uma vez só: diversificaria e melhoraria a rentabilidade dos agricultores, reduziria o déficit de balança comercial, dado que a Índia é importadora de petróleo, e ainda contribuiria, de forma relevante, para redução da poluição nos centros urbanos daquele país e para a saúde da população.

Segunda boa notícia: o Brasil está na vanguarda na utilização de fontes renováveis de energia, já tendo, inclusive, ultrapassado metas estabelecidas no acordo de Paris. O compromisso do Brasil era de chegar em 2030 com participação de 18% em biocombustíveis na matriz energética. Já chegamos a 17,3%. A meta de participação de 45% de energias renováveis na matriz, também em 2030, já foi ultrapassada neste ano (45,3%), mesmo excluindo a geração hidrelétrica dessa conta – a meta era 28%, e estamos em 32,7%.

A geração hidrelétrica pode ser considerada uma dádiva da natureza no Brasil, aliada a uma política de grandes obras governamentais, num momento da economia em que isso era possível ou fazia sentido. Mas nosso protagonismo na participação de biocombustíveis na matriz energética é fruto da organização e do esforço da iniciativa privada, a despeito do planejamento energético errático ou do uso dos preços de gasolina como instrumento macroeconômico até bem pouco tempo.

Some-se a isso a volatilidade dos preços internacionais de açúcar e de petróleo que afetam diretamente a receita dos produtores de cana-de-açúcar e crises financeiras que seguem dificultando a vida de um setor cujo endividamento segue alto, em função das sucessivas crises enfrentadas.

Mais uma lição da pandemia que muito se aplica a essa questão. Não existe uma solução única para uma questão tão abrangente. Cada país deve buscar a solução que melhor se adéqua à sua realidade, à sua economia e à sua vocação natural.

Um carro movido 100% a etanol hidratado no Brasil é mais eficiente, em termos de emissão de dióxido de carbono (84 gCO2/km), considerados todos os elos da cadeia, do que qualquer alternativa disponível, mesmo os veículos elétricos usados na Noruega (90 gCO2/km), onde 98% da energia consumida para carregar as baterias vêm de fontes renováveis. Na China, o mesmo veículo emite quase 4x mais, em função de a matriz energética daquele país ser baseada em carvão. E criamos uma estrutura pioneira de incentivo ao consumo de etanol no Brasil, através de um sistema de créditos de carbono que serão comprados por distribuidores de combustíveis fósseis, o RenovaBio. 

Instituições financeiras estão trabalhando para desenvolver uma plataforma para comercialização desses créditos, junto com a bolsa de valores (B3). No futuro, a venda desses créditos fora do Brasil pode se tornar um mecanismo de aumento de liquidez e de globalização do etanol.

Se vale o ditado de que há males que vem para o bem, o mundo vai sair desta crise muito mais consciente da importância de temas como aquecimento global para o futuro e de que cada um tem um papel importante nas mudanças necessárias à construção desse futuro. Seremos consumidores mais exigentes, dispostos a valorizar produtos e cadeias produtivas comprometidas com a sustentabilidade do planeta e com o bem-estar das gerações futuras.

O etanol brasileiro tem um papel importantíssimo no protagonismo do Brasil no uso de energias renováveis, através de uma solução prática, viável e econômica. Cabe a nós, atores privados e protagonistas do desenvolvimento da indústria de etanol no Brasil, e tendo vencido tantos desafios, garantir que mais essa oportunidade não se perca.