Tarcilo Ricardo Rodrigues

Diretor da Bioagência

Op-AA-58

O setor sucroenergético tem pressa
Perdemos um tempo precioso em nosso País discutindo ideologias que não nos levaram a lugar nenhum e tiraram o nosso protagonismo como um País que ainda luta para se mostrar viável. Temos vários exemplos na nossa própria história de acertos e desacertos a que fomos submetidos, seja por pura inépcia ou enganação com propósitos outros, que atrasam em demasia a nossa necessidade de ajustar a nossa sociedade e corrigir as desigualdades geradas ao longo de tantos anos. Precisamos ajustar as nossas engrenagens e ter um projeto de País a ser desenhado, seguido e executado com urgência. O mundo não nos dará uma segunda chance de provarmos aquilo que sabemos e que temos muitas virtudes encobertas.
 
O planejamento desse complexo processo tem uma chance de começar a ser executado. Estamos diante de um novo governo, que, embora não agrade a uma significativa parcela da população, foi eleito de forma democrática e tem todas as credenciais para governar para todos. Não temos tempo a perder, e a sua importância estratégica em um mundo globalizado, onde os fluxos de capitais se movem em megabytes, produzindo deslocamentos de mercados e de produções em velocidades nunca vistas, podem trazer o caos a diversos segmentos da economia, se não tivermos uma base bastante sólida e confiável.
 
Países que priorizaram o planejamento estratégico, criando bons ambientes de negócios, respeito às regras de mercado e direcionando investimentos em infraestrutura, para atender não apenas às demandas atuais, mas capacitando-se a absorver significativos incrementos de fluxos comerciais, saem na frente. Sem as amarras ideológicas e um liberalismo de resultados, estaremos prontos para dar esse importante passo rumo ao mundo civilizado.
 
O mundo está mais hostil do que há uma década. Novas lideranças mais conversadoras assumiram o poder e vão construindo seu mundo mais fechado e isolado. Perdemos algumas décadas de liberalismo econômico, que impulsionaram as principais economias na última década. A impressionante recuperação econômica dos Estados Unidos, impulsionada pela drástica redução dos custos de energia, a existência de uma infraestrutura complexa e diversificada, capaz de absorver esse crescimento de forma segura, eficiente e econômica, que, somadas à oferta de mão de obra qualificada e centros de pesquisas de excelência privados e em universidades por todo o País, atraem vários e importantes segmentos industriais, ao mesmo tempo em que o País trava uma guerra comercial com seus principais parceiros.
 
Tudo isso nos coloca em um caminho sem volta, pois sabemos o quanto estamos despreparados e suscetíveis às alterações de humores da economia mundial. Nossa atratividade se limita a poucos setores onde ainda somos competitivos. Um país com vocação para o agronegócio, que investiu em uma matriz de energia sustentável, não pode ser refém de uma possível volta de uma política de combustíveis equivocada, responsável pelo fechamento de dezenas de unidades de produção de açúcar e etanol no País, que deixou pelo caminho ganhos substanciais que poderiam ser revertidos para toda a sociedade.
 
As condições econômico-financeiras do setor sucroalcooleiro, reflexos desse modelo anacrônico de gerenciamento de preços da gasolina, de alguns anos atrás, associados a anomalias climáticas sem precedentes na história recente, nos levou a uma estagnação da oferta de açúcar e etanol, que seguirá por mais alguns ciclos.
 
Temos uma grande oportunidade com a aprovação do RenovaBio no ano passado, e a sua regulamentação quase toda completada neste ano. Dependemos do andamento desse projeto junto às esferas do poder federal para a sua efetiva implantação já no final de 2019. Muito foi feito, e deve-se dar o mérito à equipe do governo, principalmente do Ministério das Minas e Energia, que assumiu o projeto e o fez tornar-se realidade em um curtíssimo intervalo de tempo. Há muito ainda por fazer até a sua completa efetivação.
 
O problema dos combustíveis é muito grave e importante, e o entendimento por parte da nova equipe de governo é fundamental para resolvermos todos os nossos gargalos. O País deverá voltar a crescer, e a demanda por combustíveis também deverá ter incremento significativo, pois estamos consumindo o mesmo volume de 5 anos atrás. Não temos as refinarias que precisaríamos ter para atender à totalidade da demanda, não só de gasolina, mas também de óleo diesel. 
 
E o setor sucroalcooleiro brasileiro, hoje, está processando cerca de 600 milhões de toneladas de cana, produzindo 32 milhões de m³ de etanol e pouco mais 28 milhões de toneladas de açúcar, e, mesmo com o mercado de açúcar em um de seus piores momentos, o direcionamento da cana à produção do adoçante é da ordem de 35%.

A estagnação da produção de cana nos levará a preços mais remuneradores para o açúcar, proporcionando uma maior competição entre açúcar e etanol nos próximos anos, que poderá agravar ainda mais a oferta do biocombustível. Tanto o mercado de açúcar quanto o mercado de etanol têm em seus horizontes perspectivas de crescimento, sendo que a diferença é que, para o açúcar, não existe um limitador de preços tão expressivo como os preços da gasolina para o etanol. 
 
A equação é bastante complexa e requer uma visão de futuro e um projeto para o setor de combustíveis como um todo, e não enxergar o setor sucroalcooleiro como apenas um apêndice desse processo. Caso a demanda não seja suprida pelo setor, haverá a necessidade de se importar toda essa demanda adicional de combustíveis, compartilhando a limitada infraestrutura de importação e exportação de combustíveis líquidos, agravada pela enorme extensão territorial de nosso País, a consequência natural serão os aumentos dos custos e a desotimização de toda a cadeia. 
 
A importação de combustíveis é uma realidade nesse processo e também deve ser contemplada. Não podemos prescindir da importação de derivados e de etanol, e há uma urgente necessidade de uma legislação que harmonize e torne claras as regras para o abastecimento nacional. Precisamos de um modelo duradouro e eficaz. 
 
Deve haver um envolvimento da sociedade, de que se trata de algo bastante positivo para o País. O nosso setor tem uma capacidade enorme de gerar empregos diretos e indiretos, assim como toda a cadeia de abastecimento de combustíveis do País, e de incentivar o desenvolvimento de novas áreas de produção, para que possa desencadear o desenvolvimento de toda a indústria de combustíveis, em sua longa cadeia de suprimento.
 
As relações com as diversas esferas de governo precisam ser efetivas. Há interfaces com os governos federal, estadual e municipal que interferem na atividade sucroalcooleira, em diversos níveis. A relação com o legislativo federal também é de suma importância para garantir políticas de Estado e não somente de governo. 
 
A política de combustíveis do País, e, no caso, a falta dela, poderá nos levar a um caos no abastecimento de combustíveis, com prejuízos enormes a toda a sociedade. Não temos, neste momento, novos projetos de usinas capazes de aumentar a oferta no curto prazo. O setor tem pressa e precisa de uma política duradora para voltar a investir e está preparado para isso. Não podemos ter um retrocesso em tudo que foi feito até agora, e, da mesma forma que para o País, é agora ou nunca mais.