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Adhemar Toshimassa Kajita

Diretor de Project Finance do Unibanco

Op-AA-02

Como transformar lixo em dinheiro

Como um dos líderes do mercado na estruturação e financiamento de projetos, em função do conhecimento que se obriga a ter para o bom desenvolvimento de seu trabalho, o Unibanco acaba tendo uma privilegiada visão do mercado e com isto, conhecendo a maioria das oportunidades dos bons investimentos. No desenvolvimento cotidiano destes cenários de investimentos, o Unibanco percebeu na cogeração uma excelente oportunidade para a redução de seus próprios custos operacionais e resolveu capitanear um projeto para a instalação da maior usina de gás de aterro sanitário do mundo, com 22 MW, no aterro Bandeirantes na cidade de São Paulo.

O Aterro Bandeirantes é uma concessão municipal da Prefeitura de São Paulo para a Biogás, que opera no projeto como a fornecedora do gás ao Unibanco. Neste local são armazenadas 7 mil toneladas de lixo/dia, cerca de 50% dos dejetos produzidos pela cidade, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do município.


Com este projeto, o banco conseguiu, não apenas a sua independência energética, mas também conquistou um fruto secundário de grande valor de marketing: a simpatia que tais atitudes emprestam à imagem institucional das corporações, enquadrando-se como uma empresa preocupada com as questões sócio-ambientais, que contribui direta e efetivamente para o meio ambiente, amenizando as causas do efeito estufa e do aquecimento global. Um valor difícil de quantificar, mas certamente muito positivo para a imagem da instituição.

Sem considerar tais benefícios, com o retorno do negócio em si, a cogeração proporcionou ao Unibanco uma economia entre 10% e 15% das despesas com energia, considerando as instalações de todas as suas unidades espalhadas pelo país, onde se inclui suas 1500 agências. De uma forma prática, o Unibanco está trocando os custos das contas de energia elétrica pelas despesas com o gás, operação, manutenção e remuneração de ativos da planta de geração.

O projeto tecnológico foi desenvolvido em parceria com a Biogás, responsável pela operação de captação do gás e com a Sotreq, responsável pelo projeto da geração da energia. Completa o quadro de investidores os parceiros financeiros, que foram chamados a investir diretamente na constituição do capital da empresa, sob o regime tradicional de equity investments.

Considerando a fase de concepção, aprovação técnica e financeira, o projeto foi desenhado e implementado em 4 meses, gerando cerca de 300 empregos. O projeto requereu o investimento total de R$ 60 milhões, dos quais R$ 48 milhões aplicados no sistema de geração de energia e de R$ 12 milhões nos sistemas de captação do gás, parte do projeto de responsabilidade técnica e financeira da Biogás.


A Usina Bandeirantes é a maior planta de cogeração de energia elétrica do mundo que opera exclusivamente com gás metano oriundo da decomposição de aterro sanitário. A produção do gás metano, CH4, ocorre por liberação natural, quando da decomposição de matéria orgânica enterrado de forma racionalizada.

O gás metano é altamente inflamável e um dos principais agentes formadores do efeito estufa, sendo obrigatório o procedimento de queima ao invés de liberado livremente na atmosfera. O metano é um dos grandes vilões do efeito estufa, pois tem poder de aquecimento 23 vezes superior ao do dióxido de carbono, CO2. Se liberado na atmosfera, o gás metano produzido no aterro Bandeirantes geraria, até 2012, o equivalente a 10 milhões de toneladas de CO2. Queimá-lo, portanto, dentro das câmaras dos motores, com o objetivo de gerar energia elétrica, passa a ser um ganho ambiental considerável.

A queima perfeita do metano, mesmo sem estar associada à geração de energia, transforma-se em um rentável negócio por conta dos chamados créditos de carbono. Os países industrializados, que de acordo com o Protocolo de Quioto, têm a obrigação de reduzir as emissões de gases estufa, podem fazer isso investindo em projetos que alcancem esse objetivo fora de seus territórios, em países em desenvolvimento, como o Brasil.

O potencial de investimentos em créditos de carbono no Brasil, segundo o Ministério de Minas e Energia, chega a 70 milhões de dólares, considerando-se apenas a queima de gás metano nos aterros de lixo. Segundo dados do IBGE, 63% das cidades brasileiras abandonam o lixo recolhido a céu aberto, em vazadouros, e menos de 20% dos esgotos recebem algum tipo de tratamento. De fato, trata-se de um enorme desperdício de energia e de dinheiro pois o lixo e os esgotos constituem-se como imensos estoques de gás combustível.


O relatório técnico do Ministério do Meio Ambiente, que retrata e consolida as informações colhidas em pesquisas que demandaram cerca de 2 anos de observações e análises, revelaram que o potencial energético dos aterros de lixo de 91 cidades brasileiras, é da ordem de 344 MW, o suficiente para abastecer uma população de 6 milhões e meio de pessoas.

Para 2015, estima-se que o estoque de biogás acumulado chegue a 440 MW, o que daria para abastecer a população do estado de Pernambuco, com aproximadamente 8 milhões de pessoas. O gás metano estocado no Aterro Bandeirante tem capacidade para gerar energia durante os próximos 10 anos, para uma população de aproximadamente 400 mil pessoas. Foram necessárias muitas décadas para que o gás natural, desprezado e queimado nas plataformas de petróleo e nas instalações de processamento petroquímicos, fosse aceito e considerado como insumo energético de grande valor econômico. Quanto tempo será necessário para que iniciemos em larga escala a exploração inteligente e sustentável do lixo e dos esgotos das cidades brasileiras?