Arnaldo Luiz Corrêa

Diretor da Archer Consulting

Op-AA-58

Mais Brasil e menos Brasília
Em todo início de governo, as esperanças de dias melhores são renovadas, independentemente do setor da economia nacional em que se está inserido. Um sopro de otimismo alcança grande parte dos brasileiros que confirmaram nas urnas, com a eleição de Jair Bolsonaro, a necessidade imperiosa de mudanças no comando do País, após 16 anos de um governo de esquerda. 
 
Um viés liberal parece se aproximar das margens plácidas e, quem sabe, agora, acordar o gigante adormecido que permaneceu em berço esplêndido, apesar do aparelhamento do Estado impetrado pelo Partido dos Trabalhadores – PT, para transformar o Brasil em um país socialista. 
 
As malsucedidas experiências capitaneadas pelo presidiário Lula da Silva e seu poste Dilma Rousseff resultaram não apenas no encolhimento do PIB no biênio 2015/2016, de pouco mais de 7%, mas também em uma legião de desempregados que beira 13 milhões de pessoas, na falência das contas públicas e na estagnação do setor sucroalcooleiro. 
 
Lula é um dos principais responsáveis pela expansão desordenada do setor sucroalcooleiro que embarcou na conversa fiada do então presidente no início de 2007, que dizia querer fazer do Brasil a Arábia Saudita dos Biocombustíveis. Nessa mesma época, já preparando a cama de faquir onde o setor mais tarde se deitaria, Lula elogiava o fato do então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, “vender gasolina mais barata a países pobres”.

No final da safra 2006/2007, o etanol combustível representava 1/3 de todo o consumo do ciclo Otto no Brasil. A sinalização dada pelo Governo Federal de fazer do Brasil o maior produtor de etanol provocou uma explosão de investimentos no setor e, em três anos, o País passou de uma moagem de 425 para 602 milhões de toneladas de cana, um acréscimo anualizado de mais de 12%. Os estados de Goiás, Mato Grosso, São Paulo e Minas representavam 40% desse acréscimo. No final de 1989, o etanol respondia por 48,4% de todo o consumo do Ciclo Otto no Brasil.
 
O início da expansão do setor sucroalcooleiro coincidiu com as primeiras descobertas no litoral brasileiro de reservas petrolíferas, que passaram a ser conhecidas como pré-sal. Enquanto isso, o preço do petróleo no mercado internacional batia novos recordes em meados de 2008, atingindo perto de 150 dólares por barril. Não seria esse o momento de o setor beneficiar-se do etanol bem remunerado, aproveitando a alta recorde do petróleo? Não, o produtor de etanol não se beneficiou em nenhum centavo de dólar, muito pelo contrário. 
 
Ao invés disso, o governo socialista do PT manteve o preço da gasolina para o consumidor praticamente congelado, com vistas ao crescimento da venda de veículos leves. O setor automobilístico vivia em "lua-de-mel" com o governo petista e recebia isenções fiscais que fomentaram a venda de veículos populares e fez dobrar o licenciamento no período de apenas 4 anos. Com a política de preços dos combustíveis comandada pela dupla Lula-Dilma, o PT sangrou o caixa da Petrobras, anulou a competitividade do etanol e inaugurou a temporada de endividamento do setor que, no final de outubro de 2018, segundo cálculos da Archer Consulting, estava em R$ 95 bilhões. Gasolina subsidiada e etanol sendo forçosamente vendido abaixo do custo de produção foram ingredientes básicos para o início da derrocada do setor.
 
Dilma nunca nutriu nenhum apreço pelo setor. Chegou, ainda no primeiro mandato, com a determinação e a convicção que só os idiotas possuem, a deixar claro para as principais entidades do setor com quem ela estaria disposta a receber para dialogar, numa
expressa manifestação do autoritarismo típico das ditaduras com as quais o PT tanto se identifica.
 
 A desastrosa política de formação de preços levada adiante pelo PT foi a principal causa de o Brasil ficar estagnado na produção de cana há mais de uma década. Após ter contribuído com quase a metade de todo o combustível consumido no País no final de 2009, o combustível renovável viu sua parcela de contribuição cair dezessete pontos percentuais, alguns anos depois. Quanto isso representou de perda de fatia de mercado e receita para o setor? Apenas no governo Dilma, apuramos que a indústria sucroalcooleira perdeu R$ 48 bilhões em receita. Sem contar a perda de fatia de mercado no exterior pela estagnação da produção de cana, nem a criação de empregos que foram ceifados por essa restrição.
 
Assim, quando nos vemos à porta de um novo governo com caráter liberal, tudo o que se pode desejar é que Bolsonaro cumpra o mote que criou, ou seja, “mais Brasil e menos Brasília”, ou seja, que o Estado intervenha o mínimo possível. A indústria já mostrou, quando foi convocada, que tem condições de entregar o que dela se demanda. No entanto, não tenho dúvidas de que grande parte do endividamento de quase R$ 100 bilhões que amarga o setor é função direta da intervenção populista de Lula e sua camarilha.

No futuro, o empresariado tem que ser firme com atitudes governamentais de viés intervencionista. As usinas se calaram, ficaram acuadas e deixaram o governo petista fazê-las de gato e sapato e agora pagam o alto preço dessa omissão. Nenhum governo tem o direito de obrigar produtores a venderem seus produtos abaixo do custo de produção em função, não das forças de mercado (oferta e demanda), mas por pura manipulação ou favorecimento a outra indústria (automobilística). Tem que se dar um basta a isso.
 
O setor sucroalcooleiro tem uma grande chance de recuperação para os próximos anos. No entanto, para sua efetivação, temos que crer na esperada estabilização da economia, na resolução da crise fiscal e no crescimento vigoroso do PIB no governo Bolsonaro. 
Alguns eventos poderão contribuir para a melhora significativa do atual cenário:
 
a) O consumo de combustíveis (gasolina equivalente) caiu 3,5%, alimentado principalmente pelo disparo do preço do petróleo lá fora e pela desvalorização do real, que chegou a quase R$ 4,20; existe, portanto, um aumento no consumo represado por essa razão, mas que agora poderá ser retomado pelo derretimento do preço da gasolina no mercado internacional durante o início do mês de novembro, que pode fazer com que o preço ao consumidor caia tão rapidamente como subiu;
 
b) Além disso, a melhora da economia deve colocar mais 2,5 milhões de veículos leves na frota brasileira por ano já a partir de 2019. Descontada a taxa de sucateamento da frota, são quase 3 bilhões de litros a mais de consumo;
 
c) A fatia de mercado que o etanol ganhou na recente alta da gasolina pode permanecer por mais tempo. O caminho de volta é mais lento, e o setor deve vender mais hidratado nos próximos anos;
 
d) Existe também um consumo represado de alimentos industrializados (biscoitos, pães, doces, etc.) e bebidas (refrigerantes, cervejas, etc.).
 
O Brasil não tem cana suficiente para atender à demanda represada que pode estourar nos próximos anos, tampouco existe tempo hábil para a expansão canavieira que solucione esse problema. Apenas para o consumo de combustíveis, nossa estimativa é que, no ciclo de seis anos (da safra 2019/2020 até a 2024/2025), vai existir um déficit total de 58 bilhões de litros no período, algo como 10 bilhões de litros por ano. Isso é o equivalente a se plantar agora 110 milhões de toneladas de cana que serão incorporadas ao volume atual e permanecem pelos próximos seis anos. Improvável, certo? Dessa forma, a solução da equação é preço. Os preços deverão refletir esse déficit.
 
Mas o setor precisa de uma política de formação de preços de combustíveis duradoura. Tem que haver segurança jurídica por parte de possíveis investidores de que o preço dos combustíveis esteja em linha com os preços praticados no mercado internacional, com isso eles podem usar instrumentos de proteção (futuros e opções), mitigando riscos e travando rentabilidade. 
 
Há necessidade de que se permita a livre importação e exportação de etanol, desde que se aproveitem janelas de oportunidade não coincidentes com início de safra. Protecionismo em commodities tem se provado menos eficiente no longo prazo. Mercado livre abre para o Brasil oportunidades lá fora beneficiadas pelo menor custo de produção que possui em relação aos concorrentes.