Alexandre Enrico Silva Figliolino

Diretor de Agronegócios do Itaú-BBA

Op-AA-46

Uma luz se abriu no fim do túnel
A pressão sofrida pelo setor sucroenergético nos últimos anos, fruto de uma série de fatores, provocou um quadro bastante preocupante em relação a uma parte significativa da indústria. Com base em nosso banco de dados, que nos dá informações sobre 65 grupos correspondentes a 427 milhões de toneladas moídas na safra 2014/2015 (ou 75% da moagem do Centro-Sul), fizemos uma divisão das empresas de acordo com a atual situação operacional e econômica/financeira.

Essa classificação pode, entre outras coisas, dar algumas indicações do que pode acontecer em termos de movimentos consolidatórios. Pode também orientar e quantificar eventuais ações de políticas públicas e movimentos coordenados de agentes privados, de forma a tentar atenuar os efeitos desta crise sobre a saúde financeira das empresas e, consequentemente, sobre a redução de empregos e contração da produção. Segue a divisão de empresas do setor sucroenergético por grupos, com base na amostra do Itaú-BBA:  O restante do setor, que não está na amostra, é composto por 115 empresas – a quase totalidade de pequeno porte –, com moagem conjunta de 144 milhões de toneladas no ano safra 2014/2015. 

 
Dada a situação, acreditamos que essas companhias encontram-se predominantemente nos grupos C e D. Diante do quadro apresentado, um cenário mais otimista para os preços do açúcar e regras claras para a precificação de combustível no longo prazo poderão disparar um movimento consolidatório face à situação assimétrica do mercado, onde encontramos, de um lado, empresas com musculatura suficiente para iniciar novos ciclos de crescimento e, de outro, companhias  que, de alguma forma, não conseguem mais sair do buraco em que se encontram. 
 
Acreditamos também que uma ação coordenada de agentes privados, eventualmente apoiados em alguns mecanismos de incentivo governamental, possa, em alguns casos, reorganizar as finanças de empresas que mostrem merecimento. Seriam objetos desse esforço companhias com excelente potencial, na medida em que são operações meritórias e estão fazendo sua lição de casa no que diz respeito à gestão e à governança, adaptando-se aos novos tempos. Como podemos observar, sem a melhora das condições de mercado, não se vai a lugar nenhum. 
 
A recuperação dos preços do açúcar – dependente de condições de mercado –, políticas públicas que deem esperança de remuneração adequada e segurança de regras ao preço dos combustíveis no longo prazo – pode, de fato, mudar completamente o ânimo dos agentes. Tenho uma tese de que tudo que prejudicou o setor nos últimos 5 anos criou determinadas situações que, para serem consertadas, vão ajudar bastante a indústria sucroenergética.
 
1. Câmbio: os significantes desequilíbrios presentes hoje na economia brasileira, aliados a uma forte mudança nas relações de troca dos produtos que o Brasil importa e exporta, e também à perda do grau de investimento atrelado à destruição da imagem do País junto à comunidade de investidores externos, fazem necessária uma moeda mais desvalorizada por um bom tempo. Para o setor, isso se traduz em uma forte recuperação da competitividade do açúcar brasileiro nos mercados internacionais, que, somado ao aumento do preço da commodity – em função de estar entrando em um período de déficit de oferta em relação à demanda –, produzirá bons frutos aos produtores.
2. Preço dos combustíveis: desmandos, corrupção, investimentos errados e congelamento dos preços de combustíveis levaram a nossa maior empresa a um cenário extremamente grave. Para reverter essa situação, serão necessários cortes nas despesas correntes, drástica redução do ritmo de investimentos, desmobilizações (as condições atuais não poderiam ser pior para isso) e aumento no preço dos combustíveis. A Petrobras possui a maior dívida empresarial do mundo, com altas necessidades de rolagem, o que só será possível se for demonstrado aos investidores que a forma de tomar decisão na empresa mudou para valer e que ela passou a ter condições de ser uma grande geradora de caixa novamente e ter capacidade de reduzir a elevada alavancagem.
3. Emprego: a queda do PIB em 3% este ano e 1,5% em 2016 – para onde apontam as projeções – desencadeará uma taxa de desemprego crescente que deverá atingir, já ao final de 2015, mais de 8%. O setor, mesmo após todo o processo de mecanização agrícola e automação industrial dos últimos anos, continua sendo um grande gerador de empregos. Estímulos ao crescimento neste setor tem condições de dar rápida resposta quanto à criação de vagas de excelente qualidade.
4. Situação fiscal: nosso maior problema, aliás, a mãe de todos os problemas, é o desequilíbrio fiscal. A Cide, pela rapidez com a qual pode ser adotada e sua função de reconhecer, de alguma maneira, as externalidades positivas do combustível renovável em relação ao fóssil, pode prestar uma importante ajuda para as finanças do setor público e, consequentemente, para o setor sucroenergético.
5. Meio Ambiente: a COP21, a se realizar no final do ano, em Paris, implicará que os países assumam metas desafiadoras de emissão de gases de efeito estufa. No Brasil, a redução da queimada de florestas em relação ao passado dará uma grande contribuição, porém a diminuição do consumo de combustíveis fósseis nos meios de transporte e na geração de energia para os quais o etanol e a bioeletricidade são um dos substitutos pode dar uma grande cota de colaboração.
 
Mas não podemos nos esquecer de que nem tudo são flores. Elevadas taxas de juros, restrição de liquidez provocada por um ambiente de elevado grau de aversão ao risco, estão trazendo muita dificuldade ao dia a dia das empresas e tornam extremamente ingrata a gestão de níveis elevados de endividamento, ameaçando a sobrevivência de muitos. Mas, com certeza, uma luz se abriu no fim do túnel, e estamos bastante confiantes de que tempos melhores virão.