Raffaella Rossetto e Marcos Guimarães de Andrade Landell

Pesquisadores do Programa Cana IAC/APTA/SAA

Op-AA-059

A gestão do nosso negócio
Alguns definem a palavra “ideal” como um sinônimo para “imaginável”, ou para fenômenos que são representados, ou pensados. Toda “idealização”, no entanto, merece um olhar transversal que transforme o “pensado” em ações “possíveis”.  Os profissionais que atuam na área de P&D no Brasil, com foco agrícola, têm uma noção bastante palpável do que isso significa. Todo bom plano de gestão inicia-se com a estratégia.  
 
E essa tem que ser bem delimitada e identificada. Para o Programa Cana IAC, a missão institucional prevê gerar e difundir conhecimento para a cadeia sucroenergética. Missão clara e definida.  Porém “como” atingir essa missão é a questão estratégica. Na livre interpretação do que o filósofo Eduardo Bonnet aponta, poderíamos dizer que bons profissionais são, em geral, muito bons executores, os ótimos são também bons pensadores. Buscar, avaliar, pensar, decidir sobre a melhor estratégia para a gestão de nosso “negócio” é sempre a parte mais difícil. 
 
Toda gestão prevê: planejamento, organização, execução e controle. Para a grande maioria dos pesquisadores, é necessário conviver ainda, nesse plano de gestão, com recursos escassos nas suas instituições de pesquisa. Após um período auspicioso com a criação da Copersucar e Planalsucar na década de 1970, a pesquisa canavieira viu sucumbir desse esforço com o fechamento de diversas estações experimentais da Copersucar e com a extinção do IAA e do Planalsucar em 1990.

O IAC também sofria com o encerramento da antiga Seção de Cana-de-Açúcar, criada na década de 1930. Isso tudo ocorria no auge da crise de abastecimento de etanol (1989), fazendo com que a população desacreditasse naquilo que havia sido proposto uma década e meia antes, por ocasião da criação do Proálcool. Era um cenário desolador para a pesquisa canavieira.
 
Nesse momento, surgiu das cinzas o esforço dos pesquisadores remanescentes do Planalsucar, que acabavam de ser incorporados por algumas universidades federais. E também do IAC, que criou um programa virtual em 1993, que promovia a associação com diversas instituições para a realização de suas pesquisas. 
 
Por exemplo: o laboratório de análises tecnológicas era o da Canaoeste/Copercana; parte dos recursos humanos foram cedidos por associações e usinas para compor a equipe de experimentação IAC. Passamos a prospectar oportunidades de cooperação e assim nos aproximamos, em um primeiro momento, da Copersucar, UNESP-Jaboticabal.
 
Na década seguinte, com a chegada de novos pesquisadores, nos aproximamos de grupos de pesquisa da Unicamp, Esalq-USP, Cena-USP e Embrapa. Ampliamos os nossos quadros de investigadores por meio de pós-graduandos e também de técnicos contratados por fundações privadas. 
 
E ampliamos as áreas de estudo. Agora, abordamos várias facetas da fitotecnia, da biotecnologia e do melhoramento genético da cana, incluindo o desenvolvimento de métodos laboratoriais de diagnósticos de doenças e de metodologias, como o MPB. Posteriormente, principalmente a partir do final da década passada, houve um investimento significativo no Centro de Cana IAC, e diversos laboratórios foram construídos, assim como ampliada a estrutura para treinamentos e eventos, o que nos permitiu uma inserção maior no setor sucroenergético.
 
Portanto uma análise mais superficial nos leva à percepção de uma precariedade na estrutura da pesquisa de cana-de-açúcar dessa importante instituição e que, pelo menos durante mais de uma década, havia uma dependência enorme de cooperações externas para efetivar estudos importantes prospectados para aquele momento. Se nos aprofundarmos um pouco mais, veremos esse mesmo risco em outras instituições envolvidas, inclusive nas universidades.
 
Como tem sido possível, então, a geração de tantas tecnologias nessas últimas duas décadas com um quadro desses?   Vem aí a nossa discussão inicial da “gestão do possível”.  No programa Cana do IAC, temos feito valer alguns lemas, tidos quase como mantras, como:  “O todo é maior que a soma das partes”. Todos tem igual valor na equipe, desde o trabalhador do campo, até a liderança máxima. Quando um cresce, o grupo cresce como um todo. Por essa razão, cada vitória individual é comemorada como vitória da equipe, somando no cumprimento da missão.  
 
Um ponto marcante para uma equipe de sucesso é a motivação, e podemos verificar essa atitude proativa na equipe do Programa Cana do IAC. A motivação é o esforço a mais que as pessoas empenham quando se sentem envolvidas. Ela permite a convergência dos objetivos individuais com os objetivos do todo da equipe. O gestor de um grupo de pesquisas precisa ser inicialmente um líder e, com seu exemplo, exercer influência no comportamento do grupo como um todo. Um líder precisa manter a motivação da equipe, manter a comunicação e liderar o andamento e/ou a mudança de rumos.
 
Ainda no cumprimento da missão institucional, outro lema que nos conduz é: “socializar o conhecimento”.  Ao longo dos últimos 27 anos, mantemos o Grupo Fitotécnico de Cana IAC, onde, em reuniões abertas ao setor, a cada 40 dias, discutimos, dissecamos e, em conjunto, sugerimos soluções para tema técnico de importância para o setor. 
 
Esse encontro dos técnicos é uma abrangente fonte de levantamento de demandas de pesquisa e atua como um “sinalizador” para os rumos das atividades da equipe. A grande preocupação na gestão do grupo é saber se o investimento aportado gera retorno considerável ao setor. Quais são, efetivamente, os resultados em termos de novas tecnologias?  A adoção dessas tecnologias gera realmente algum impacto na qualidade de vida do nosso agricultor? Essas são questões que fazem parte de nosso dia a dia.  
 
O Programa Cana IAC apresentou, nos últimos dez anos, 10 novas variedades de cana-de-açúcar.  Gera tecnologias para o controle de pragas, doenças, plantas daninhas e manejo de solos e fertilizantes, sempre pautando a maior sustentabilidade ambiental. O grupo do IAC é responsável pelo treinamento de ao menos uma centena de alunos anualmente, em cursos e estágios direcionados ao setor de cana.

A parceria com os produtores da Socicana/Coplana, em Guariba, no “Projeto + Cana”, mostrou como a tecnologia das Mudas Pré-brotadas (MPB) e o acompanhamento técnico no campo podem, além de melhorar o rendimento econômico e a qualidade de vida dos agricultores, recuperar e promover o vínculo deles com atividade agrícola. 
 
Alguns riscos são inerentes a todas as atividades humanas. No nosso caso, as mudanças de governo, em curto prazo, geram novas regras internas que se traduzem em diferentes rotinas e requerem adaptações. O que se espera é que essas mudanças possam gerar impactos positivos e, em curto/médio prazo, facilitar as ações de cumprimento da missão institucional. 
 
O Programa Cana IAC é proativo, parceiro e mantém laços de amizade e apreço com as lideranças político-setoriais, com as demais instituições de pesquisa, os técnicos, os agrônomos e os produtores que representam a base da pirâmide do setor. As ações conjuntas têm garantido a inserção do grupo na geração de tecnologia voltada para as soluções dos reais problemas e em perfeita sintonia com as necessidades do setor.