Humberto César Carrara Neto

Diretor Executivo Agrícola da Usina São João de Araras

Op-AA-62

Tempos difíceis
Incerteza, a palavra que melhor identifica o momento. No cenário mundial, disputas entre grandes potências econômicas, com lideranças temperamentais cujos reflexos têm ação imediata e intensa em todo o comércio mundial. Brexit, no Reino Unido e o Mercado Comum Europeu, tensão entre produtores de petróleo no Oriente.
 
Internamente, um governo que se propôs a ser disruptivo e liberar as amarras para o crescimento e o desenvolvimento do País vive às turras com o Legislativo, com o Judiciário, e, sem o apoio da mídia, não consegue imprimir direção nem velocidade às propostas inovadoras, além de ser constantemente solapado pelas mal proferidas palavras de seu líder máximo e pelos reflexos ainda deletérios do aparelhamento da máquina pública promovida pelos governos anteriores.

Esses cenários, mundial e local, refletem, de uma maneira geral, em todos os setores da economia, mas, de forma mais pragmática e intensa, nos setores e/ou empresas mais fragilizados por crises passadas, ou com saúde financeira mais debilitadas.

Esses organismos têm reações mais lentas e respondem menos aos poucos estímulos positivos que ainda vêm do mercado. Nosso setor, fundamentado em 3 produtos finais − etanol, açúcar e energia elétrica −, sofre influência do cenário mundial, seja pelos preços internacionais da commodity açúcar, seja pelas variações do preço de outra commodity, o petróleo, cujo valor impacta diretamente nos pregões internos do etanol, e, finalmente, a energia elétrica, que tem seus preços vinculados à demanda, que, por sua vez, é dependente de crescimento econômico, além da políticas de incentivo do governo. 
 
O setor sofreu no passado e ainda é impactado pelo controle desastroso do preço dos combustíveis, políticas erráticas de incentivo e de incremento de produção, de custos de produção em ascensão e preços de commodities na contramão, de margens apertadas, de pouco investimento em renovação e modernização. Assistimos a uma elevação de endividamento, baixa agregação e distribuição de valores na cadeia, movimentos de consolidação e até o desaparecimento de algumas empresas.

Recente levantamento publicado pela agência FC/A mostra que o fosso entre as companhias saudáveis e as menos saudáveis aumentou, ou seja, diante do cenário pífio de recuperação, o “fluxo de dinheiro novo” flui preferencialmente para os grupos que já estavam fortalecidos com boa estrutura de dívida. Ou seja, quem vinha bem ficou melhor; quem vinha aos trancos, não melhorou. Um sinal evidente de que o ciclo de dificuldades ainda não parou. Ainda poderemos ver mais consolidações, mais desaparecimento de empresas.

Aprendemos nas academias de gestão que preservar a saúde empresarial é analisar cenários, identificar riscos e oportunidades, munir-se de estratégias mitigadoras dos primeiros e potencializadoras do segundo, mas, convenhamos, os cenários não são nada facilitadores. Vejo, portanto, um cenário desafiador para recuperar e manter a saúde físico-financeira das empresas fragilizadas por longo período de intempéries.
 
É mister olhar com muito cuidado os custos de produção, mas com visão de produtividade, custos por unidade produzida. Não enxergo muita ajuda vindo do mercado de açúcar e energia elétrica, ao menos no médio prazo, porém do etanol pode vir um ponto de ancoragem para nosso negócio atravessar mais uma tempestade.  

Recentemente, em viagem de capacitação no exterior, junto com colegas executivos do setor, fomos conhecer e aprender a cadeia do etanol de milho americano, e, das experiencias vividas e compartilhadas, trouxe algumas conclusões.

Não existe uma planta com maior capacidade de transformar a energia solar em matéria-prima do que a cana, muito embora o casamento cana-milho possa representar uma importante estratégia para  a produção de etanol continuamente, durante quase o ano todo, desvinculando a produção de etanol do ciclo safra da cana.

Existe, ainda, um grande espaço de crescimento de produção e produtividade de milho no Brasil, bem como potencial para incremento de extração de etanol desse grão. Pudemos observar, nas plantas norte-americanas, o quanto a pesquisa aplicada pode alavancar a produção e desenvolver novos produtos e novos mercados.

A cadeia de produção de etanol de milho e coprodutos é mais curta; de certa forma, desvinculada do ciclo de produção do grão, torna-se mais leve e seus coprodutos propiciam uma economia circular no seu entorno.  As plantas processadoras de cana-de-açúcar têm energia térmica e elétrica para suprir uma planta de milho anexa e também uma boa parte de seu ativo fixo que pode ser diluído na cadeia do milho.
 
Aprendemos também que o Brasil tem uma invejável infraestrutura de distribuição de etanol, uma política consolidada de precificação e um mercado forte e crescente de demanda. Existem ameaças? Sim, mais fortes no cenário externo, como outros combustíveis renováveis, mudanças nos hábitos de mobilidade urbana, mas existe também espaço para mistura de combustível renovável/fóssil, criando possibilidade de exportação de etanol.
 
Portanto temos uma oportunidade adiante, mas cuidar de nossos ativos, renovar, modernizar, digitalizar, incentivar a pesquisa aplicada é essencial para mantermos a nossa máquina em condições de efetuar essa viagem, além de participarmos efetivamente e desfrutarmos desse cenário, caso contrário podemos assistir ao desfile da calçada, aplaudindo, se tivermos forças, saudosos de um tempo de mercado protegido e autoguiado.