Silvia Mine Yokoyama

Diretora do CTC – Centro de Tecnologia Canavieira

Op-AA-63

A biotecnologia e a modernização da cultura da cana-de-açúcar
Atualmente, a biotecnologia é amplamente adotada na atividade agrícola e tem sido comprovado que seu emprego aumentou a produtividade de todas as culturas que a adotaram, em nível global.  O Brasil é o segundo maior produtor de culturas GM do mundo, com uma área plantada estimada em 51,8 milhões de hectares na safra 2018/2019. Os índices de adoção da biotecnologia no País estão na ordem de 90% do total da área cultivada com soja e milho, culturas em que se observaram os maiores benefícios desde a introdução da biotecnologia. 
 
Em paralelo, o Brasil tem posição de liderança global no cultivo da cultura da cana-de-açúcar, com praticamente 10 milhões de hectares cultivados nas últimas safras. A produção brasileira de cana-de-açúcar ultrapassa 700 milhões de toneladas, mais do que o dobro da Índia, o segundo produtor mundial. No entanto, ao acompanharmos o desempenho da cultura da cana-de-açúcar ao longo das últimas décadas, identificamos o aumento da área cultivada, enquanto o índice de produtividade permaneceu praticamente inalterado no mesmo período. 
 
Um dos fatores que impacta fortemente a produtividade da cana-de-açúcar no Brasil é o ataque da broca-da-cana (Diatraea saccharalis), praga que está presente em praticamente todo o canavial brasileiro. Essa praga é responsável por prejuízos anuais estimados em R$ 5 bilhões. Em algumas regiões mais propícias ao desenvolvimento da broca, ocorrem perdas de produtividade maiores do que 10%. Seria natural, portanto, que as tecnologias já utilizadas com sucesso para o controle de pragas similares em outras culturas fossem também introduzidas na cana-de-açúcar.
 
A Cana BT:
A resistência a insetos, conferida pela expressão de proteínas BT (de Bacillus thurigiensis) e já presente em mais de 50% das áreas plantadas com culturas geneticamente modificadas, foi introduzida na cultura da cana-de-açúcar pelo Centro de Tecnologia Canavieira – CTC, para possibilitar o manejo da praga nos canaviais brasileiros. Aprovada em 2017, a variedade CTC20BT, primeira cana GM comercial do mundo, foi introduzida ao final do ano seguinte em mais de 4 mil hectares distribuídos por diferentes usinas da região Centro-Sul, podendo ser considerada a maior introdução de uma cultivar de cana no Brasil no momento. 
 
Por ser uma cultura adotada em diferentes regiões, ambientes de produção e épocas de colheita, outras variedades foram e serão desenvolvidas pela empresa, dentro da mesma linha de ação, ou seja, proteção contra o ataque da broca-da-cana. A segunda variedade aprovada e disponibilizada para cultivo dos produtores brasileiros foi a CTC9001BT. Juntas, as duas variedades totalizam 20 mil hectares de variedades resistentes a insetos, distribuídas pela região Centro-Sul do País, ao final da Safra 2019/2020.

Os benefícios e a sustentabilidade da tecnologia no campo:
Os principais benefícios dessa tecnologia derivam do menor dano nos colmos da cana provocados pelo ataque da broca. É verificada uma redução do custo de cultivo devido à redução das despesas associadas ao controle da broca. Também são observados benefícios associados à eficiência da produção, devido ao maior conteúdo de sacarose por tonelada de cana, e benefícios associados à qualidade da matéria-prima produzida, devido à redução nos danos nos colmos causados pela broca. Esses fatores associados levam ao aumento da produtividade da cultura e, consequentemente, a melhor resultado econômico, fator determinante de sucesso da tecnologia nos campos.
 
O desempenho da tecnologia vem sendo acompanhado em diferentes regiões onde as variedades BT foram plantadas, por meio de avaliação do percentual dos entrenós brocados em comparação ao ataque de broca observado nas cultivares convencionais. Tem-se observado uma redução significativa no ataque da broca nos colmos da cana em todas as regiões onde as variedades BT foram introduzidas.
 
Para assegurar a sustentabilidade da tecnologia BT nos campos, faz-se necessária a adoção de áreas de refúgio, prática que vem sendo recomendada desde a introdução das primeiras mudas de cana BT. Trata-se de plantio de variedade convencional (não BT) em 20% do total da área plantada adjacente às áreas de variedades BT, em uma distância não maior que 800 metros. Essa medida garante que as populações da broca não serão submetidas a uma pressão de seleção extrema e servirá para mitigar o desenvolvimento de populações resistentes à proteína expressa pela variedade BT.
 
O açúcar permanece idêntico:
O açúcar, por ser constituído basicamente de sacarose, é considerado uma substância altamente purificada. Análises feitas por meio de técnicas analíticas modernas possibilitam afirmar que teores de DNA e proteínas da cana BT não são detectáveis no açúcar pelas metodologias atualmente empregadas. Tal característica possibilitou que a CTNBio – Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – qualificasse o açúcar produzido a partir da cana-de-açúcar geneticamente modificada como “substância pura quimicamente definida”. 
 
Portanto, dada a sua pureza intrínseca, o açúcar produzido a partir de cana-de-açúcar geneticamente modificada não é classificado como “derivado de OGM” e sim como “substância pura, quimicamente definida”, como definido na Lei 11.105/2005. A deliberação da CTNBio encontra-se no Extrato de Parecer Técnico n. 5837/2018, publicada no Diário Oficial da União, em 28 de março de 2018.