Cássio Manin Paggiaro

Superintendente da Usina Atena

Op-AA-060

Moderno é conquistar resultados
Moderno, hoje e sempre, em qualquer atividade produtiva, é conseguir resultados que propiciem a continuidade da atividade. Nesse contexto, o questionamento passa a ser o que deve ser feito para se conseguirem resultados na área agrícola do sistema sucroenergético e consequentemente ser viável.
 
Moderno não deve ser considerado aquele que utiliza as últimas tecnologias lançadas, mas sim aquele que se utiliza de tecnologias existentes e apropriadas ao seu ambiente de produção. A área agrícola do setor sucroenergético gerou e tem gerado, nas últimas décadas, muitos dados que, transformados em informação, viram fonte do conhecimento. 
 
Nesse período, o sistema de produção agrícola do setor sucroenergético passou por grandes transformações de manejo, como a eliminação da queimada da cana como método despalhador para a colheita e a mecanização completa, ou quase, do plantio e da colheita da cana-de-açúcar.
 
A área agrícola do sistema sucroenergético convive hoje com uma situação difícil, por ter produtividades, tonelada de cana por hectare, na média inferiores ao conseguido há 30 anos, diferentemente das culturas de grãos mais especificamente onde as produtividades cresceram. Uma série de fatores setoriais e conjunturais podem ser elencados para a compreensão desse fato, embora nosso intuito, agora, é elencar soluções para a retomada do crescimento da produtividade agrícola, ou seja, a aplicação do conhecimento.
 
Quando citamos a utilização de tecnologias existentes e apropriadas ao ambiente de produção, devemos incluir nessa análise os fatores humanos disponíveis nas diferentes regiões onde a cultura da cana-de-açúcar está instalada. A formação de mão de obra especializada, capacitando os colaboradores diretos, e a promoção de iniciativas de desenvolvimento profissional por meio de parcerias com instituições públicas e privadas, possibilitam a implantação de tecnologias avançadas com resultados promissores.
 
A cana-de-açúcar ocupa uma área aproximada de 9.000.000 de hectares no Brasil, em diferentes regiões de solo e clima e, por isso mesmo, replicar situações de manejo de uma região para outra pode ser um erro. O conhecimento das condições climáticas, do tipo de solo, do balanço hídrico, da disponibilidade de recursos materiais e humanos capacitados e suficientes para as operações são precursores de um planejamento agrícola, fundamental para o manejo integrado dos processos operacionais. 
 
A simples definição da época do plantio de cana em função do clima e ambiente de produção regional é um fator de sucesso ou, consequentemente, de fracasso, o manejo de colheita também é muito influenciado pelo ambiente de produção e clima local. Uma das situações cuja solução devemos considerar como “moderna” na área agrícola do sistema sucroenergético é a do pisoteio sobre as linhas de cana-de-açúcar pelos caminhões e máquinas agrícolas que transitam nos talhões. Deveria ser inconcebível essa situação de agressão ao maior bem da empresa, a cana-de-açúcar.
 
O atingimento dessa premissa, não pisotear as linhas de cana-de-açúcar, depende de uma série de práticas interdependentes, existentes e atuais e que são, por conseguinte, “modernas”. A sistematização do solo e o seu preparo para receber a operação de plantio são fundamentais para a qualidade da sulcação e do paralelismo dos sulcos.

Há muita tecnologia que pode ser adotada para a realização do preparo do solo, a saber, preparo convencional, reduzido, canteirizado, mais ou menos profundo, sendo a escolha de um ou mix deles deve vir do conhecimento integrado. A conservação e a sistematização do solo também não podem ser generalizadas; sulcar reto e sem terraços não é manejo recomendável para todas as regiões. Se perdermos a camada superficial e fértil do solo, impactaremos o sucesso da lavoura.
 
O espaçamento utilizado para plantio pode contribuir para a diminuição do pisoteio e também para o ganho de produtividade. Hoje, os principais espaçamentos utilizados são o simples, principalmente de 1,50 m de distância entre linhas de cana, e o alternado, combinando 1,50 m por 0,90 m de distância entre linhas. A prática ou não do uso da irrigação pode influenciar na escolha do espaçamento entre linhas de cana, podendo viabilizar o espaçamento “abacaxi”, alternando 1,50 m ou 1,40 m por 0,40 m de distância entre linhas de cana. A definição do espaçamento também é relacionada com custo de colheita em função da possibilidade de colheita mecânica de uma ou duas linhas consecutivas de cana-de-açúcar.

O plantio das áreas sendo feito com mapeamento das linhas de cana possibilitará que todas as operações subsequentes de colheita e tratos culturais possam ser realizadas com equipamentos contendo GPS, direcionando o tráfego nos talhões de cana-de-açúcar, evitando o pisoteio das mesmas.
 
Também “moderno” na área agrícola do sistema sucroenergético deve ser a utilização dos insumos, fator de sucesso na produção agrícola. O principal insumo da cultura da cana são as cultivares, primordial para o sucesso da lavoura. A escolha da variedade correta é, com certeza, fator de sucesso para todo processo. Anualmente, estamos recebendo lançamentos de novas variedades de cana-de-açúcar por meio das principais instituições que as desenvolvem, que estão conseguindo liberações em menor tempo, porém também com menos informações práticas, necessitando maior cuidado na escolha da cultivar para implantação dos canaviais.
 
A utilização da meiosi (método inter-rotacional ocorrendo simultaneamente) devolveu a possibilidade de utilização de mudas sadias no plantio da cana, principalmente por meio de mudas pré-brotadas (MPB), interrompendo um ciclo de que qualquer cana planta é um viveiro. Na parte nutricional da cana-de-açúcar contamos, hoje, com fertilizantes com mais tecnologia agregada, oferecendo um complexo de nutrientes, macros e micros, no grão, beneficiando sua distribuição homogênea.

O parcelamento das doses de nitrogênio e potássio no plantio vem propiciando oportunidade de ganhos de produtividade. A relação de nutrientes na formulação de soqueira está mais ajustada para cada ambiente de produção, podendo ainda considerar ganhos com restos da cultura advindos da colheita da cana, sem emprego do fogo como método despalhador. O emprego de ácidos húmicos e fúlvicos, tanto em cana planta como cana soca, são sinérgicos à nutrição adotada.
 
Uma cana bem plantada e nutrida terá maior resistência aos ataques de pragas e doenças. O monitoramento periódico da lavoura identificando eventos de controle contribuem para eliminação do problema ou para o não agravamento do mesmo, por meio biológico e ou químico. Assim como se faz na cultura de grãos, a cana-de- açúcar também começa a evoluir para a manutenção das folhas com máximo de sanidade, mesmo que sejam manchas consideradas secundárias, aproveitando toda capacidade fotossintética da planta para crescimento e acúmulo de energia, por meio de aplicações de produtos preventivamente.
 
No manejo de colheita, muito se fala hoje da “Matriz de 3° Eixo”, que busca conseguir maior idade cronológica (em meses) aos canaviais a serem colhidos e, consequentemente, maior produtividade agrícola pelo maior tempo de crescimento da planta. Esse manejo deve ser ponderado com outros fatores, como características varietais do plantel, maturação e sensibilidade ao florescimento, liberação de área durante a safra para aplicação de vinhaça e preparo de solo, meiosi, rotação de cultura, uma vez que a mesma área será colhida, a cada ano, mais tarde.

A aplicação in natura da vinhaça é um processo com muito potencial para produção de cana e também para redução de custo, podendo fornecer 100% do potássio necessário para a empresa juntamente com matéria orgânica e umidade, em aplicação localizada. 
 
Temos, hoje, uma série de tecnologias desenvolvidas durante anos na “prateleira” cana-de-açúcar de nossa biblioteca, que podem e devem ser utilizadas conforme as necessidades. Muito se fala em agricultura de precisão, monitoramento remoto do canavial e da frota como fatores essenciais para uma boa lavoura, até criou-se um paradigma de quem não tem essa tecnologia, não é “moderno”.

Todas essas ferramentas são importantíssimas, porém não devem preceder, na falta de recursos amplos de investimentos, o famoso “arroz com feijão” feito com critério e, principalmente com presença técnica no campo, visualizando as situações e corrigindo desvios, diariamente. Moderno não deve ser considerado aquele que utiliza as últimas tecnologias lançadas, mas sim aquele que se utiliza de tecnologias existentes e apropriadas ao seu ambiente de produção.
 
Moderno, hoje e sempre, em qualquer atividade produtiva é conseguir resultados que propiciem a continuidade da atividade.