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Adailson de Jesus Santos

Universidade do Estado da Bahia-UNEB e Coordenador do Laboratório de Ecologia e Biotecnologia Microbiana do Semiárido-LEBIMS

AsAA26

Bioinsumos, sozinhos, não regeneram
Os bioinsumos deixaram de ocupar um espaço restrito na agricultura. Microrganismos que durante muito tempo permaneceram nos laboratórios de microbiologia hoje chegam ao campo como inoculantes, agentes de controle biológico e tecnologias para promoção do crescimento e tolerância a estresses. É um avanço importante. Mas há um limite que precisa ficar claro: usar um produto biológico não torna, por si só, um sistema agrícola regenerativo.
 
A agricultura regenerativa pressupõe mais do que substituir insumos. Envolve recuperar ou fortalecer processos ecológicos que sustentam o funcionamento dos agroecossistemas. Os bioinsumos precisam ser compreendidos dentro dessa lógica. O valor de um microrganismo não está somente no produto convencional que eventualmente permite reduzir. Está também na função que desempenha e nas interações que estabelece no sistema produtivo.

Uma bactéria capaz de aumentar a disponibilidade de fósforo participa da dinâmica desse nutriente no sistema solo-planta. Um microrganismo antagonista pode integrar mecanismos de supressividade biológica. Outros, associados à tolerância à seca, podem contribuir para a resiliência das plantas sob restrição hídrica. Um microrganismo não deveria ser valorizado apenas pelo insumo que pode substituir, mas pelo processo ecológico que pode ajudar a restaurar ou fortalecer.

Esse entendimento ganha importância diante da rápida expansão dos produtos biológicos. É possível incorporar bioinsumos mantendo praticamente inalterada a lógica de manejo: troca-se o produto, mas pouco se altera na forma como o agroecossistema é conduzido. Reduzir o uso de determinados insumos convencionais pode representar um ganho ambiental importante. Regenerar, porém, vai além da substituição e envolve recuperar funções, interações e serviços ecológicos.

O solo mostra bem essa complexidade. Suas características físicas e químicas são fundamentais, mas existe ali uma enorme diversidade de microrganismos envolvidos na decomposição da matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes, na formação de agregados e nas interações com as plantas. Cobertura vegetal, aporte de matéria orgânica, diversidade de plantas e menor perturbação favorecem essa funcionalidade. O bioinsumo precisa fazer parte desse contexto.

Favorecer a microbiota já estabelecida no solo deve caminhar junto com a introdução de microrganismos selecionados. Afinal, o desempenho de um bioinsumo também depende das condições que esse microrganismo encontra quando chega ao campo. Um ambiente degradado, com baixa matéria orgânica e submetido a perturbações intensas, pode limitar a comunidade microbiana residente e, também, o estabelecimento e a expressão das funções dos microrganismos aplicados.

Trabalhar com microrganismos associados a plantas da Caatinga me fez olhar para essa questão de forma ainda mais clara. Em um ambiente no qual restrição hídrica, temperaturas elevadas e limitações nutricionais fazem parte das pressões ambientais, interessa conhecer não somente quais microrganismos estão presentes, mas quais características permitem sua persistência e sua interação com as plantas. A biodiversidade microbiana é um patrimônio a ser conservado, mas também reúne funções associadas à adaptação dos organismos ao ambiente em que vivem.

Isso também influencia a forma como vejo a bioprospecção. Uma resposta positiva em laboratório é apenas uma etapa na seleção de um microrganismo para uso agrícola. Origem, adaptação, interação com a planta e persistência diante das condições ambientais precisam entrar nessa análise. Conhecer a diversidade microbiana dos biomas brasileiros permite identificar funções biológicas que podem contribuir para sistemas agrícolas mais resilientes às limitações ambientais.

Vejo, portanto, os produtos biológicos como ferramentas para uma agricultura regenerativa, e não como aquilo que a define. Seu avanço não deveria ser avaliado somente pelo número de produtos disponíveis ou pela quantidade de insumos convencionais substituídos. A funcionalidade que conseguimos fortalecer no agroecossistema também importa.

Bioinsumos, sozinhos, não regeneram. Seu maior valor pode estar não apenas naquilo que conseguem substituir, mas nas funções que conseguem fortalecer.