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Martinho Seiiti Ono

CEO da SCA Brasil

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Entre a expansão da oferta e o consumo travado, o desafio é transformar volume em valor
Coautor: Renan Santos, Head de Inteligência de Mercado da SCA Brasil

O Brasil reúne condições raras para ampliar sua produção de etanol e transformar esse avanço em uma vantagem estratégica. Poucos países combinam, ao mesmo tempo, escala agrícola, experiência produtiva e capacidade de gerar energia renovável em grande volume. 
 
Em tese, portanto, produzir mais etanol deveria ser apenas uma boa notícia: reforça a segurança energética, ajuda a descarbonizar a matriz e reduz a vulnerabilidade do País a choques externos ligados ao petróleo.

Mas a expansão da oferta, por si só, não garante um setor mais forte. Para que o crescimento seja saudável, ele precisa estar apoiado em duas bases simultâneas: uma produção agrícola capaz de sustentar o aumento de volume com eficiência e um mercado consumidor suficientemente robusto para absorver essa oferta sem destruir preços e margens. 

É justamente aí que está o ponto central do debate. O problema não é crescer. O problema é crescer sem coordenação entre campo, indústria e consumo.

Quando a produção avança mais rapidamente que a demanda, o que deveria ser sinal de força pode se transformar em desequilíbrio. O excesso de oferta pressiona preços, comprime margens e amplia tensões dentro do próprio setor. 

Esse risco aparece ainda com maior clareza no momento em que o etanol de milho ganha escala no País. Sua expansão é relevante e positiva e deve ser vista como parte da solução, não como uma ameaça natural à cana. Cana e milho podem — e devem — conviver. As usinas de cana seguem como espinha dorsal histórica do setor, próximas dos grandes centros consumidores e apoiadas em uma longa trajetória de eficiência produtiva. Já o milho reforça a oferta, agrega valor às regiões produtoras de grãos e ajuda a reduzir a sazonalidade, ampliando a disponibilidade de etanol ao longo do ano.

O erro está em transformar essa complementaridade em disputa. A oposição verdadeira não é entre cana e milho, mas entre uma expansão produtiva acompanhada pela formação de mercado e uma expansão que ocorre sem demanda suficiente. 

Se o consumo não cresce, qualquer aumento expressivo da produção tende a gerar sobreoferta, independentemente da matéria-prima. Nesse ambiente, até ganhos estruturais podem se converter em pressão competitiva excessiva e fragilização econômica de parte da cadeia.
 
Isso não significa ignorar os desafios específicos de cada rota. No caso do etanol de milho, o crescimento traz gargalos logísticos evidentes. Boa parte da nova produção se concentra no Centro-Oeste, enquanto o maior mercado consumidor continua no Sudeste. Isso exige transporte por longas distâncias e eleva a importância de investimentos em infraestrutura, armazenagem e distribuição. 

Além disso, a viabilidade dessa rota também depende de condições adequadas para cogeração e do bom aproveitamento econômico dos coprodutos. Já no caso da cana, o desafio central continua sendo agrícola. 

A força da bioenergia começa no campo. Sem renovação de canaviais, mecanização eficiente, manejo adequado, controle de pragas, fertilidade do solo e ganhos consistentes de produtividade, a indústria pode até ampliar capacidade, mas não terá matéria-prima em condições ideais para sustentar o crescimento.

Por isso, discutir o futuro do etanol brasileiro exige olhar com atenção para a base agrícola. O financiamento é parte decisiva dessa equação. Quando o crédito fica mais caro, mais curto ou mais seletivo, os investimentos mais estruturantes tendem a ser adiados. E, no setor sucroenergético, adiar investimento no campo significa comprometer a produtividade futura. 

A modernização das propriedades, a renovação de lavouras e a adoção de novas tecnologias não podem depender apenas da capacidade de adaptação dos grandes grupos. Se o acesso ao capital se estreita, os efeitos aparecem na competitividade e na sustentabilidade da oferta ao longo do tempo.
 
Ao mesmo tempo, não basta produzir bem. É preciso construir mercado. E esse talvez seja o ponto mais negligenciado na discussão pública sobre bioenergia no Brasil. O País ainda convive com entraves conhecidos para ampliar o consumo de etanol fora das regiões onde ele já é mais consolidado. Em muitos estados, a tributação reduz sua competitividade frente à gasolina.
 
Em outros, a logística encarece a entrega e limita a regularidade da oferta. Há também regiões em que a presença do etanol na bomba ainda é insuficiente para transformar o combustível em escolha real para o consumidor. Em outras palavras: o Brasil discute muito como produzir mais, mas ainda discute pouco como fazer esse volume chegar com competitividade, previsibilidade e capilaridade ao mercado final.

Esse é o ponto decisivo. A bioenergia se fortalece não apenas quando a usina produz mais, mas quando o consumidor consegue acessar esse produto em condições vantajosas. 

Isso exige uma agenda que vá além da porteira e da indústria: harmonização tributária, melhoria da infraestrutura logística, expansão da rede de distribuição, maior presença comercial em regiões menos desenvolvidas para o etanol e comunicação mais clara sobre suas vantagens econômicas e ambientais. Sem isso, a ampliação da oferta corre o risco de gerar apenas um setor mais pressionado, e não um setor mais forte.

O Brasil tem, de fato, uma vocação singular para liderar a bioenergia. Mas transformar potencial em força duradoura depende de coordenação. A oferta precisa crescer com base agrícola sólida. A cana e o milho precisam ser tratados como rotas complementares. E o mercado consumidor precisa avançar no mesmo ritmo da produção. Quando esses vetores caminham juntos, o etanol deixa de ser apenas uma promessa de expansão e se consolida como instrumento real de segurança energética, desenvolvimento regional e transição para uma matriz mais limpa.