Durante muito tempo, boa parte da evolução da agricultura esteve associada à busca por respostas cada vez mais específicas: uma estratégia para eliminar determinada praga, uma fonte convencional de nutriente para tratar uma deficiência do solo ou da cultura, uma tecnologia para elevar a produtividade. Esse desenvolvimento foi importante, mas a crescente complexidade da produção agrícola tem exigido uma visão mais integrada.
Variabilidade climática, diferenças entre ambientes produtivos, custos de insumos e necessidade de preservar a capacidade produtiva do solo mostram que uma única ferramenta dificilmente responderá a todos os desafios. É nesse contexto que vejo um dos principais valores da agricultura regenerativa: ampliar as possibilidades de manejo e permitir que decisões agronômicas sejam tomadas a partir de um conjunto mais amplo de soluções.
Na proteção dos cultivos, isso significa incorporar cada vez mais os bioinsumos ao manejo integrado de pragas e doenças. No manejo do solo, significa considerar não apenas seus aspectos físicos e químicos, mas também sua dimensão biológica, com atenção ao aumento do carbono no solo, que favorece a atividade dos microrganismos e contribui para ampliar a biodiversidade do sistema produtivo.
Isso é especialmente relevante para a cana-de-açúcar, uma cultura de ciclo longo, cultivada em diferentes regiões e submetida a condições distintas ao longo de várias safras. Trazer o conceito de manejo regenerativo para a lavoura significa conhecer melhor essas diferenças e combinar recursos biológicos, matéria orgânica, nutrição, manejo do solo e proteção de plantas de acordo com a necessidade de cada ambiente. À medida que esse repertório se amplia, cresce também a capacidade de incorporar essas soluções à rotina agronômica.
Na BP Bioenergy, a dimensão dessa mudança pode ser percebida pela escala das nossas operações. A área aplicada com bioinsumos passou de 285 mil hectares em 2020 para mais de 5 milhões de hectares nas últimas duas safras. Mas essa ampliação do manejo vai além dos bioinsumos. A integração direta entre agricultura e indústria abre outras possibilidades, já que recursos resultantes do processamento da matéria-prima podem retornar ao campo e participar novamente do ciclo produtivo.
É o caso da vinhaça, que hoje chega a 92% dos canaviais da companhia, e da compostagem, cuja área aplicada mais que dobrou nos últimos três anos e hoje está presente em 100% do nosso plantio. Essa integração amplia as possibilidades de manejo da nutrição do canavial a partir de recursos já disponíveis dentro da própria cadeia produtiva.
Para operar um sistema com mais alternativas, é necessário ampliar também a capacidade de aprender. Soluções que apresentam bons resultados em determinada condição precisam ser avaliadas em diferentes solos, variedades, regimes de chuva e ambientes de produção antes de avançarem em escala. Por isso, a experimentação passou a ocupar um espaço importante na tomada de decisão agrícola, tanto que hoje contamos com 374 projetos e experimentos em diferentes frentes neste segmento, número quase 96% maior que em 2024.
Mais importante que o volume é o que ele representa: uma estrutura permanente para questionar práticas, comparar alternativas e transformar resultados técnicos em protocolos operacionais. Por isso, entendo a agricultura regenerativa menos como um destino e mais como uma forma de gerir a produção. Conhecer melhor as condições do solo e o comportamento da cultura nos ajuda a buscar soluções mais adequadas, criando condições para uma produção mais eficiente, produtiva e resiliente.
Há mais de quatro anos, temos avançado na incorporação desse conceito ao manejo agrícola, combinando práticas regenerativas com o aprimoramento de fundamentos agronômicos já consolidados na cultura. Isso inclui a revisão de parâmetros nutricionais e de correção do solo, o uso de variedades mais adequadas a cada ambiente, a qualidade operacional e a aplicação de novas tecnologias. São frentes que precisam evoluir de forma integrada para sustentar ganhos de produtividade e a rentabilidade do negócio.
Para a bioenergia, essa evolução começa ainda no canavial. É nele que se define uma parcela importante da eficiência e do desempenho ambiental da matéria-prima que chegará à indústria. Avançar nessa agenda significa fortalecer simultaneamente a base agrícola e a capacidade do setor de produzir energia de forma cada vez mais eficiente e sustentável.