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Raffaella Rossetto

Pesquisadora do IAC e Presidente da STAB - Sociedade dos Técnicos Açucareiros e Alcooleiros do Brasil

OpAA89

A união latino-americana em prol da transição energética
Por que a transição energética é urgente?
Esta é pergunta que todos deveriamos fazer. E a resposta é: porque o tempo climático é limitado. Porque estamos próximos do ponto de não retorno. As emissões de CO2 na atmosfera são cumulativas. Cada ano de atraso exige cortes mais expressivos, caros e mais difíceis no futuro. Além da questão climática, a transição é urgente porque:
• eventos extremos, como secas, ondas de calor, enchentes e incêndios, estão produzindo prejuízos crescentes; 
• a volatilidade dos combustíveis fósseis ameaça a segurança energética e a estabilidade dos preços; 
• países e empresas precisam cumprir metas de descarbonização e preservar sua competitividade;
• algumas grandes potências estão de olhos fechados; 
• mercados internacionais começam a exigir produtos com menor pegada de carbono, rastreabilidade e comprovação de sustentabilidade; 
• decisões tomadas hoje sobre usinas, veículos e infraestrutura permanecerão por décadas, podendo criar uma dependência prolongada dos combustíveis fósseis. 
 
Portanto, a transição energética não é somente uma pauta ambiental. É também uma necessidade econômica, tecnológica, estratégica e social.
 
Por que a bioenergia é uma grande solução?
A bioenergia é particularmente importante porque transforma recursos biológicos renováveis – como cana-de-açúcar, resíduos agrícolas, bagaço, palha, vinhaça e resíduos urbanos – em diferentes formas de energia. O uso da biomassa é quase infinito. Ela pode ser transformada em etanol e outros biocombustíveis; biogás e biometano; bioeletricidade; combustível sustentável de aviação, o SAF; combustíveis renováveis para transporte marítimo, o SMF; calor renovável para processos industriais; hidrogênio e moléculas renováveis; produtos químicos e biomateriais de origem biológica. 
 
O açúcar abre uma nova cadeia chamada de sucroquímica, e o etanol a alcoolquímica, com inúmeros processos industriais gerando inúmeros produtos. Os resíduos – bagaço, palha, vinhaça, torta de filtro – também podem gerar outros produtos de valor, de modo que a cadeia se expande, e aquele "engenho" dos tempos da colonização brasileira transformou-se em biorrefinaria. 
 
Referindo-se aos combustíveis renováveis, a oportunidade de a bioenergia descarbonizar transportes que a eletrificação não consegue atingir, como aviação, navegação e transporte pesado, dá aos biocombustíveis uma vantagem incomparável. 
 
A bioenergia também apresenta outros benefícios: é armazenável e despachável; integra diferentes setores: conecta agricultura, indústria, transporte, energia elétrica e gestão de resíduos; gera desenvolvimento regional: cria empregos, renda, inovação e oportunidades industriais no interior; fortalece a segurança energética: reduz a dependência de combustíveis fósseis importados e diversifica a matriz; pode produzir emissões negativas: quando associada à captura e ao armazenamento permanente do CO2 biogênico – BECCS, a bioenergia pode contribuir para remover carbono da atmosfera; abre caminho para impulsionar outras culturas, como o milho, o eucalipto, a macaúba, o agave. 
 
O papel estratégico da cana-de-açúcar:
No Brasil, a cana-de-açúcar é um exemplo concreto de bioeconomia circular. Da mesma matéria-prima podem ser obtidos açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás, biometano, fertilizantes organominerais, SAF, bioplásticos e outros produtos de maior valor agregado. A usina, portanto, deixa de ser apenas uma produtora de açúcar e etanol e passa a funcionar como uma biorrefinaria integrada, capaz de produzir alimentos, fibras, energia, combustíveis renováveis, moléculas e materiais sustentáveis.
 
A importância da união da América Latina e Caribe
A transição energética não será construída por países isolados ou por soluções individuais. Ela passa por blocos de nações que compartilham recursos naturais similares, conhecimento científico e políticas públicas que, unidas, são mais fortes. 
 
A proposta de uma “Cumbre” Latino-Americana em prol da transição energética não é apenas uma estratégia de cooperação regional; é uma necessidade para que nossos países tenham protagonismo na economia de baixo carbono. Isoladamente, cada país possui vantagens específicas. Juntos, representamos a maior plataforma tropical de produção sustentável de bioenergia do mundo.
 
Brasil reúne todas as condições para liderar esse movimento, mas a América Latina reúne condições únicas para fortalecer a iniciativa, a exemplo: clima tropical favorável; disponibilidade de terras agrícolas já consolidadas; experiência de décadas em cana-de-açúcar, etanol, bioeletricidade e biomassa. No caso do Brasil, ainda temos: produção crescente de biogás, biometano, combustível aéreo e marítimo e hidrogênio renovável.
 
A transição energética exige cooperação para estabelecer padrões internacionais de sustentabilidade, criar mercados globais para biocombustíveis, atrair grandes investimentos e influenciar organismos internacionais.
 
A integração regional torna a América Latina mais competitiva e fortalece sua posição nas negociações internacionais. Estudos recentes da CEPAL mostram que uma maior integração energética pode reduzir custos e acelerar a descarbonização da região. 
 
O programa do etanol brasileiro é um exemplo para essa união. Não é necessário desenvolver políticas isoladas e seria possível trabalhar conjuntamente para desenvolver certificações comuns, estimular comércio regional e defender etanol como combustível estratégico para o transporte terrestre, marítimo e aviação. 
 
A importância de fortalecer a ATALAC:
ATALAC é a sigla da Associação de Técnicos Açucareiros de América Latina e Caribe, fundada em 1987 pelo Presidente da STAB na época, Dr. José Paulo Stupiello. Pelo estatuto, a cada três anos a Associação deve se reunir e realizar um congresso em um dos países membros. Pois bem, estamos às portas do 13o Congresso ATALAC, que pela primeira vez será realizado no Brasil, em Ribeirão Preto e Sertãozinho, SP, promovido pela STAB, Ceise-Br e Fenasucro&Agrocana. 
 
Durante o Congresso, teremos uma oportunidade única: o momento em que o mundo discute a transição energética, fundamental será posicionar as Américas como importante polo produtor de biocombustíveis e ampliar mercado.

Como principal vocação de um congresso científico, a socialização do conhecimento é primordial. E a integração entre os países latino-americanos também significa compartilhar tecnologia. Teremos desde toda a área agrícola do plantio à colheita da cana, como as áreas mais tecnológicas de inteligência artificial, automação industrial, produção de biocombustíveis avançados, captura de carbono, biorrefinarias. 

Ao longo dos anos, a ATALAC tem-se destacado por aproximar e promover a união dos técnicos do setor em nível internacional. Ao formar uma vasta comunidade, a associação possibilita a oportunidade de fortalecer a participação e a liderança de seus membros na indústria sucroenergética latino-americana. A experiência coletiva, o conhecimento e a expertise técnica representam uma contribuição valiosa para o desenvolvimento e a inovação, impulsionando o crescimento sustentável.

A América Latina pode deixar de ser apenas exportadora de commodities agrícolas para tornar-se exportadora e exemplo de: energia renovável, tecnologia, conhecimento, créditos de carbono, economia circular verde, soluções climáticas e ambientais, políticas públicas incentivadoras e aceleradoras da transição energética. 

A transição energética mundial precisa de soluções que sejam sustentáveis, escaláveis e socialmente inclusivas. A América Latina reúne essas condições. Se unirmos nossas capacidades científicas, tecnológicas e produtivas, poderemos transformar nossa região na maior potência mundial em bioenergia renovável, contribuindo para a segurança energética, a descarbonização e o desenvolvimento econômico de nossos países.

O futuro da energia não será decidido apenas pelos países que consomem mais energia, mas também por aqueles que conseguem produzi-la de forma sustentável. A América Latina tem todas as condições para liderar essa transformação — desde que atue unida, e a ATALAC pode ser o vetor dessa iniciativa.