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João Ulisses de Andrade

Diretor da Agr.Cana Consultoria Produtiva

OpAA88

Síndrome da murcha da cana-de-açúcar
A síndrome da murcha tem-se consolidado como um dos principais desafios fitossanitários da cana-de-açúcar nos últimos anos. No entanto, sua interpretação ainda é frequentemente simplificada, sendo associada exclusivamente à presença de patógenos ou a fatores isolados, como déficit hídrico. Na prática, trata-se de um complexo multifatorial, cuja intensidade está diretamente ligada ao ambiente de produção e, principalmente, à época de colheita na qual a lavoura é submetida.
 
Do ponto de vista etiológico, a murcha está associada à presença de fungos como o Colletotrichum falcatum, Fusarium spp., Phaocytostroma spp, que colonizam os tecidos vasculares da planta e comprometem o fluxo de água e nutrientes. Os sintomas observados em campo incluem redução de vigor, falhas de brotação, diminuição do diâmetro de colmos, murchamento de colmos e, em situações severas, morte de perfilhos.Entretanto, a simples presença desses patógenos não explica a variabilidade de ocorrência da doença entre áreas. 
 
Em condições semelhantes, é comum observar talhões com níveis muito distintos de severidade, o que evidencia o papel central do ambiente e do momento de colheita na predisposição da planta. Nesse contexto, a colheita em épocas desfavoráveis, especialmente em ambientes restritivos, tem-se mostrado um dos principais fatores de risco para intensificação da síndrome. Quando determinadas variedades são colhidas fora da sua janela ideal, a planta é exposta a condições que comprometem a sua capacidade de “resistir” ao ataque, aumentando sua vulnerabilidade à colonização por patógenos oportunistas.
 
Esse efeito está diretamente relacionado à fisiologia da cultura. A cana colhida sob condições adversas apresenta menor capacidade de reorganização metabólica e de emissão de novos perfilhos, criando um ambiente favorável para o avanço de patógenos já presentes no sistema. Dessa forma, a murcha passa a ser mais uma consequência do desalinhamento entre ambiente, variedade e época de colheita do que um problema isolado de sanidade.

O estresse hídrico, por sua vez, atua como um fator agravante importante, mas não deve ser interpretado como causa primária. A seca intensifica os efeitos da murcha ao reduzir vigor da planta e limitar sua capacidade de resposta, mas sua presença isolada não explica a ocorrência da doença. Esse ponto é fundamental para evitar interpretações pontuais que não atacam a origem do problema.

Além das perdas em produtividade, a síndrome também impacta a qualidade da matéria-prima. A degradação dos tecidos e o comprometimento fisiológico da planta reduzem o acúmulo de sacarose, afetando diretamente indicadores industriais como ATR e contribuindo para a queda na eficiência do processo industrial.
 
Diante desse cenário, o manejo de murcha deve ser baseado em uma abordagem integrada. Estratégias isoladas tendem a apresentar baixa consistência quando não associadas a um ajuste mais amplo do sistema produtivo.

Na prática, os melhores resultados têm sido observados em áreas onde há:
• alinhamento entre variedade e ambiente de produção;
• ajuste da época de colheita para reduzir exposição a condições restritivas;
• melhoria das condições físicas e nutricionais do solo;
• e uso estratégico de ferramentas biológicas.

Entre essas ferramentas, destaca-se o uso de microrganismos do gênero Bacillus, especialmente em aplicações no corte de soqueira/vinhaça localizada/plantio. Esses microrganismos contribuem para a colonização radicular, auxiliam na supressão de patógenos e favorecem a retomada do desenvolvimento inicial da cultura. Em condições favoráveis, aplicações complementares no período úmido podem potencializar os resultados.

Por fim, é importante reforçar que a síndrome da murcha deve ser encarada como um indicador de desequilíbrio do sistema produtivo, e não como uma doença isolada. O avanço no seu manejo depende de decisões mais estruturais, especialmente relacionadas ao planejamento da colheita e à adaptação das variedades aos diferentes ambientes de produção. 


1. Ataque de síndrome da murcha via raiz
2. Lesão de prathylenchus
3. Vaso contaminado por síndrome da murcha
4. Nervura central infectada por colletotrichum falcatum